Dicionário da Expansão Portuguesa

Dicionário da Expansão Portuguesa

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JOSÉ ALMEIDA

Iniciada em 1415, com a conquista de Ceuta, a Expansão Portuguesa marcou a maturidade política do Reino de Portugal e o início de uma Idade de Ouro que projectou a superioridade da civilização europeia em todo o mundo. Um período inigualável da História, ao longo do qual a acção dos portugueses foi, absolutamente, determinante e precursora.

Se associarmos o aparecimento da moderna historiografia portuguesa ao nascimento de Alexandre Herculano, então podemos falar em, aproximadamente, dois séculos de investigação sistemática em História. Ao longo deste período, por inúmeras razões e circunstâncias, as nossas duas primeiras dinastias foram quase sempre privilegiadas nos trabalhos dos historiadores nacionais. O período da Expansão e Descobrimentos Portugueses, uma época particularmente gloriosa da nossa História, associada à maravilhosa gesta eternizada em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, serviu como uma incontornável referência político-identitária, afirmando a importância de Portugal na Europa e no mundo.

Publicado no início deste ano pelo Círculo de Leitores, o “Dicionário da Expansão Portuguesa” (capa dura, 2 volumes, 79,96 euros) aborda esses feitos históricos de uma forma descomprometida com o “politicamente correcto”. Alheio aos lugares-comuns das ideologias canhotas que enfermam os nossos ciclos universitários, esta obra não escamoteia as terminologias enraizadas na nossa tradição historiográfica, mantendo-se fiel a expressões clássicas como “Expansão” e “Descobrimentos”, em detrimento de outras que hoje nos procuram impor como, por exemplo, o ridículo “achamento”.

Dirigido por Francisco Contente Domingues, Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, este dicionário divide-se em dois volumes, cujos conteúdos se encontram cronologicamente balizados entre 1415 e 1600, isto é, entre a  conquista portuguesa de Ceuta e a criação das primeiras companhias comerciais europeias. No total, são 390 entradas, redigidas por 79 investigadores, ligados a mais de 30 instituições universitárias e centros de investigação, nacionais e estrangeiros.

Subdividido em 21 temas, este “Dicionário da Expansão Portuguesa” compila artigos de base – mais longos e generalistas –, bem como outros mais específicos, subordinados a biografias, locais, produtos, entre outros. Deste modo, a organização e os conteúdos destes volumes permitem-nos levar a cabo dois tipos de leituras. A consulta específica de um assunto, ou aspecto relevante para a compreensão de um determinado facto ou acontecimento histórico; ou a leitura de um conjunto de artigos que fazem deste dicionário uma interessante obra colectiva subordinada à Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Numa época em que muitos crêem na inutilidade dos livros, dicionários e enciclopédias publicados em formato físico, o novo “Dicionário da Expansão Portuguesa” revela-nos o porquê de não devermos deixar-nos infectar pela tirania da técnica e do progresso. A dignidade com que esta obra nos é apresentada, tanto na sua forma como conteúdo, leva-nos a recomendá-la a qualquer biblioteca, investigador, ou entusiasta da História da nossa Expansão.

Como pontos negativos desta publicação, não podíamos deixar de sublinhar dois aspectos que, no fundo, não são mais do que duas chamadas de atenção: a aplicação do AO90; assim como o excesso de bibliografia estrangeira, revelando um preocupante grau de desinteresse por parte dos investigadores face àquilo que tem sido a produção historiográfica nacional.

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