Quadro de Honra

Quadro de Honra

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diaboJOSÉ ALMEIDA

A arte marginal e os círculos artísticos “underground” constituem uma parte importante do imaginário cultural das sociedades urbanas contemporâneas. Nestes meios, tanto se edificam pontes entre subculturas distintas, como se afirma a própria identidade de determinados grupos. De resto, esta é uma realidade bastante presente no mundo da música onde, tantas vezes, perdemos o rumo da História em virtude da natureza efémera dos fenómenos que a compõem. “Quadro de Honra” representa uma compilação de relatos recolhidos na primeira pessoa, visando preservar uma parte significativa dessas memórias.

Importa, antes de tudo, identificarmos o que classificamos aqui de “underground” e “música alternativa”. “Quadro de Honra”, obra colectiva assinada pela revista “Loud!”, publicada pela Saída de Emergência (brochado, 368 páginas, 16,90 euros), compila cerca de 30 entrevistas com alguns dos nomes mais emblemáticos da música pesada nacional. Estamos perante um repositório de memórias que nos remete para mais de três décadas de sonoridades extremas que vão do punk ao hardcore e do rock ao metal, aqui entendido nos seus variadíssimos subgéneros. Os colectivos musicais cujas entrevistas compõem esta obra são os protagonistas de uma aventura fantástica e revolucionária, desafiadora do gosto e mercados dominantes.

Ao longo de dezenas de edições, a revista “Loud!” – referência em Portugal em matéria de jornalismo musical votado às sonoridades mais extremas –, foi efectuando um trabalho de arqueologia musical sob a forma de entrevistas. Levando a cabo um processo de revitalização da memória que passava pela evocação de alguns dos discos mais marcantes da música pesada nacional, esta publicação periódica foi reunindo nas suas páginas os relatos obtidos juntos dos músicos intervenientes neste capítulo menos conhecido da História da Música em Portugal.

De clássicos como Mão Morta, Mata Ratos, Peste & Sida, Censurados, ou Tarantula, passando por bandas como Moonspell, Heavenwood, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin ou Ramp, não deixam de aparecer entre os testemunhos recolhidos outros nomes menos conhecidos do grande público como, por exemplo, Decayed, Thormentor, Sirius, Corpus Christi, Desire, Morbid Death, In Tha Umbra, Inhuman, Genocide, Grog, Holocausto Canibal, entre outros.

Conforme tão bem descreve o escritor José Luís Peixoto no prefácio a esta obra: “Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado”. Assim, podemos afirmar que “Quadro de Honra” representa o testemunho de um certo passado ainda bastante presente. Um repositório de ecos de glórias passadas que insistem em permanecer vivas, por via de um diálogo perene entre um passado que se afirma e um presente que se esfuma.

Escrito em bom português pré-AO90 – escolha que muito louvámos –, este livro encontra-se enriquecido pela parafernália iconográfica que o documenta, da qual não poderíamos deixar de destacar as ilustrações de Pedro Silva.

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