capa

“Estava a Guerra de África perdida?” O livro de Brandão Ferreira e Humberto Nuno de Oliveira, ambos colaboradores de O DIABO, e que conta com o prefácio de Jaime Nogueira Pinto faz uma análise do conflito complementada com entrevistas a dezenas de personalidades. O debate está lançado e a conclusão não agrada aos abrilistas que entregaram o Império.

O lançamento teve lugar no Salão Nobre da Sociedade História da Independência de Portugal, no Largo de São Domingos, em Lisboa e foi apresentado por Alexandre Lafayette, advogado e ex-combatente do Ultramar (Reportagem da apresentação)

Prefaciado por Jaime Nogueira Pinto, “Guerra d’África, 1961-1974 – Estava Guerra a Perdida?” foi escrito em co-autoria pelo historiador e professor universitário Humberto Nuno de Oliveira e o Tenente-Coronel Piloto Aviador João José Brandão Ferreira.

A O DIABO, os autores afirmaram que o objectivo do livro é dar ao leitor “o direito ao contraditório”, nomeadamente face ao discurso oficial que afirma que a Guerra de África foi “injusta” e que estava irremediavelmente perdida.

Para complementar os seus textos, os autores entrevistaram 22 militares e dois civis: Francisco Vidal Abreu; Lopes Alves; Luís Sanches de Baêna; António Jesus Bispo; José Francisco Nico; Caçorino Dias; Luís Cadete; Victor Lopo Cajarabille; Moura Calheiros; John P. Cann; José Vizela Cardoso; Manuel Vizela Cardoso; Silvino Cruz Curado; José Lemos Ferreira; Raúl Folques; Taveira Martins; Soares Martinez; Adriano Moreira; José Malhão Pereira; Renato Marques Pinto; Fontes Ramos; Cardeira Rino; António Maria de Sá Alves Sameiro. Um livro oportuno, que seguramente abrirá um debate necessário sobre um período tão importante da nossa História contemporânea.

“A guerra que nunca se perdeu”

1No prefácio, Jaime Nogueira Pinto recorda o capítulo do seu livro “Portugal, Os Anos do Fim – A Revolução que veio de dentro”, reeditado no ano passado, intitulado “A guerra que nunca se perdeu”, onde “procurava deixar uma síntese do panorama operacional nos três teatros da guerra de África – Angola, Moçambique e Guiné-Bissau – nas vésperas do 25 de Abril.

A conclusão era que, apesar da sempre volátil situação na Guiné e de um agravamento circunstancial, na segunda metade de 1973, em Moçambique, a guerra do Ultramar estava muito longe de estar ‘perdida’”. Para o politólogo, “muitos que se intitulam hoje de direita – ou mesmo não se intitulando, pretendem ter a simpatia e os votos do povo de direita – usaram em relação à História do século XX e às suas categorias e semânticas, a linguagem e as etiquetas de esquerda. E alinham com a esquerda em quase tudo que tem a ver com o passado próximo, criando uma amálgama falsa e simplificadora, vizinha das mais grosseiras retóricas antifascistas. Um destes alinhamentos é na tese da ‘guerra perdida’ e do significado essencialmente libertador da revolução”.

Assim, considera que este livro de Humberto Nuno Oliveira e João José Brandão Ferreira “tem oportunidade e interesse”. Para Jaime Nogueira Pinto, o trabalho desenvolvido em “Guerra d’África, 1961-1974 – Estava Guerra a Perdida?”, “na argumentação desenvolvida pelos seus autores e pelos testemunhos de uma série de oficiais com experiência e responsabilidades operacionais significativas em 1974, passa a ser uma referência importante na questão central que na segunda metade do século XX, dividiu o país e conduziu ao fim de um secular e original império, bem distinto dos impérios imperialistas – de pura exploração económica de territórios e populações – de outros países europeus”.

E conclui: “Uma ‘derrota militar’ à vista, não era nem possível nem provável, na Primavera de 1974. Sustentá-lo, para além de contrário à verdade, manifesta esquecer o esforço continuado das Forças Armadas portuguesas e dos portugueses de todas as condições, origens e sensibilidades, que então cumpriram o seu dever. E até menosprezar e apoucar a paciência e resistência, nossas inimigas de então, que souberam esperar, de acordo com Mao e Salazar, que a circunstância política aberta pelo 25 de Abril, nos levasse a causas e a perdas”.

Como nasceu o livro

Os autores explicam o que motivou o aparecimento “Guerra d’África, 1961-1974 – Estava Guerra a Perdida?”, contando a breve história da origem do livro. Em 2012, o Instituto de Estudos Superiores Militares, em colaboração com o Núcleo Impulsionador das Conferências da Cooperativa Militar (NICCM) organizou um seminário subordinado ao tema “A Guerra de África – Portugal Militar em África 1961-1974 – Actividade Militar”, que contou com parte doze oradores, “todos militares e habilitados, por estudo e experiência, a nele intervirem”, na opinião dos autores.

Afirmam Humberto Nuno Oliveira e Brandão Ferreira que “como é uso nestes casos foram retiradas, no final, algumas ‘conclusões’ provisórias que o oficial encarregado de o fazer, apelidou de súmulas, querendo referir-se ao que tinha sido dito pelos oradores”. No entanto, “dois dos oradores intervenientes, os Coronéis Carlos Matos Gomes e Aniceto Afonso, vieram insurgir-se contra as conclusões/súmulas, dizendo que não correspondiam à verdade dos factos, nem à realidade vivida.

Sem embargo apenas se referem a uma frase e que foi esta: ‘A situação nos três teatros (Angola, Guiné e Moçambique) está controlada pelas Forças Armadas portuguesas e que era sustentável em termos militares’. Face a esta situação os dois oficiais, com experiência nas campanhas aludidas e, um deles com inquestionável valor operacional, conhecidos estudiosos do tema, escreveram um documento de 35 páginas (ou já estaria escrito?), contestando tal Conclusão”. Assim, “Guerra d’África, 1961-1974 – Estava Guerra a Perdida?” é uma análise e uma réplica a esse documento.

“Vae victis?”

2Na introdução, Humberto Nuno de Oliveira recorda que “a história é escrita pelos vencedores” e afirma que “a história que se vem fazendo da guerra travada em África entre 1961 e 1974 é tudo menos isenta, desapaixonada e, sobretudo, desinteressada”, porque tem sido feita “por verdadeiros historiadores do regime, marcados por inultrapassáveis condicionantes pessoais”.

Para o historiador, esta versão da Guerra de África, “porque feita pelo regime, e para o regime, tenderá a alcandorar-se ao estatuto de versão oficial, senão única”. Assim, o livro, coordenado por dois Portugueses, “daqueles que com orgulho e sentido do dever teriam naturalmente ido cumprir o seu dever em África”, tem por objectivo ser “um contributo para uma outra visão da história da Guerra de África pois que passados tantos anos, começa a ser imprescindível que outra verdade possa ser conhecida”.

Depois de tantos anos, há que recusar a fatalidade do “ai dos vencidos!” e não nos subjugarmos à vontade dos vencedores.

A Guerra no Ultramar

No enquadramento político-estratégico das campanhas ultramarinas de 1954 a 1974, que faz, Brandão Ferreira afirma que “Portugal sofreu entre 1954 e 1974 o maior ataque à escala mundial – o que implicou uma estratégia global de resposta – como já não assistia desde a Guerra da Restauração”.

É uma análise importante para melhor compreendermos a Guerra no Ultramar entre 1961 e 1974. Para o oficial, “apesar de todos os problemas existentes não se pode dizer que a nível militar as Forças Armadas Portuguesas estivessem na defensiva e sem opções. A nível político e diplomático havia janelas de oportunidade a explorar, as finanças estavam sólidas e a economia em franca expansão”. Algo que contraria a versão dos derrotistas.

Por isso, considera que “afirmar que a situação nos três teatros de operações estava fora de controlo e era crítica em Moçambique e muito crítica na Guiné é um exercício de distorção da realidade, algo considerável”. E lança a questão pertinente: “a situação em 1974 era, no seu conjunto, pior do que em 1961?”

Para Brandão Ferreira: “Portugal conduziu a sua melhor campanha desde o estabelecimento do ‘império’ oriental no Índico, com a acção desse extraordinário estratega e guerreiro que foi Afonso de Albuquerque; só com meios nacionais sem generais ou almirantes importados, com uma coesão extraordinária, com uma logística invejável e uma capacidade operacional ao nosso melhor nível. Com justiça, com disciplina e com humanidade. Ou seja com verdadeiro valor militar.” Um livro que faz justiça a todos os que combateram por Portugal e merecem o nosso respeito.

Os autores estão de parabéns por trazerem para a praça pública um debate que se impõe para que seja reconhecido o esforço daqueles que não se negaram a sacrificar-se pela Pátria.

COMPARTILHAR
  • José Lichinga

    Presente.

  • Calica44

    A FRELIMO desde 73 que estava falida e sem receber equipamento.
    Tirando a operação Nó Górdio, uma invenção do Gen Kaulza de Arriaga, que queria mediatismo , as frentes no norte de Moçambique estavam a arrefecer, mesmo em TETE onde tinha havido uma tentativa da FRELIMO, para tentar destabilizar as obras de construção de Cabora Bassa e as minas de carvão de Moatize, carvão esse que era em grande parte na altura exportado para Inglaterra, por ser identico ao Inglês e que andava sujeita a sua extracção em inglaterra às greves do mineiros e dos sindicatos.

  • Eduardo Ricou

    Uma guerra não se perde no campo de acção ela perde-se na retaguarda. Militarmente a superioridade no controlo das populações, e no terreno onde choviam basucadas e estrelhavam MG’s e Kalashnikovs, era sem dúvida portuguesa. Isto parece incontestável quando nos referimos a Angola e Moçambique. Na Guiné onde exerci comando não era assim. O IN controlava zonas do território onde se encontrava só e implementando o seu sistema político, em total ausência da soberania portuguesa. Este livro denunciando a demagogia dos donos do poder desde Abril de 74, que subvertem a verdade histórica é, e era sumamente importante e oportuno. Vamos a ver se mais vozes se fazem ouvir para defender os soldados da Pátria que se sacrificaram por um grande Portugal, hoje reduzido a uma caricatura e à mão estendida. Oxalà pudessemos contar com a voz dos que guiaram Portugal durante o período 61-74, que viessem contar desinibidamente a sua verdade.

  • Pedro Lopes

    A guerra ultramarina, foi fomentada pelo exterior, primeiro pela Rússia e China apoiando os rebeldes e pelo imenso coro isolacionista internacional na ONU contra Portugal e nomeadamente os EUA que também lhes interessava explorar e tirar partido das riquezas angolanas no pós independência o que veio aliás a acontecer no seu apoio à UNITA.
    Estávamos sozinhos politicamente e esse facto pedia um líder diferente de Salazar, que era fundamentalista, obstinado e demasiado rígido para sequer ouvir outras soluções para o que se avizinhava que era a guerra colonial.
    Marcelo Caetano chegou demasiado tarde, se por ventura chegasse mais cedo a descolonização tinha sido faseada e acordada, Portugal tinha saído de face levantada e hoje Cabinda, Cabo Verde e S.Tomé e Principe seriam regiões autónomas da república portuguesa.
    Quem sabe ainda estejamos a tempo de ementar no mínimo esse erro….nomeadamente à incorporação dessas regiões mencionadas.