“Nem uma palavra sobre as vítimas da ignorância dos professores: os alunos”

Os professores chumbados na Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades protestam porque têm de ficar um ano no desemprego, aguardando novo exame. Mas se o Português deles é como o do título desta página, que outra coisa podiam esperar?

Os factos não oferecem grandes dúvidas: dos 2.490 professores do Ensino Público submetidos em Dezembro passado à Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, 495 deram cinco ou mais erros ortográficos num simples texto com 300 palavras; 1.620 deram, pelo menos, um erro; e 548 fizeram uma prova tão má que receberam nota zero.

Perante o descalabro dos resultados, esperar-se-ia que os órgãos representativos da classe docente lamentassem (pelo menos) o baixo nível de preparação de quem tem por missão ensinar os nossos filhos nas escolas.

Mas não.

Paradoxalmente, o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores, Mário Nogueira, declarou que “com esta prova não se prova a competência dos professores”, pois “quem reprovou não é necessariamente pior profissional do que os docentes que passaram”.

Esta lógica da batata, cuja compreensão escapa à mediania, foi logo depois decifrada no Parlamento, onde o PCP, o BE e o PS trataram de debater, não os resultados da prova e a sua gravidade, mas as consequências laborais para os professores reprovados.

Estava agora clara a linha que a esquerda política e sindical pretendia seguir: transformar um caso clamoroso de incompetência numa perseguição infame aos pobres “chumbados”.

E, no entanto, os factos não oferecem grandes dúvidas: segundo o Instituto de Avaliação Educacional, os erros agora detectados são em tudo semelhantes aos erros dados pelos alunos do ensino oficial – o que permite, pela primeira vez, estabelecer uma sequência de causa e efeito a que é necessário pôr cobro.

Isto, claro, se não quisermos transformar o analfabetismo cultural numa “conquista” a passar de geração em geração…

Do primário ao superior

Os resultados globais da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades realizada em Dezembro são lamentáveis: dos 2.490 professores avaliados, 845 (quase 35 por cento) foram liminarmente reprovados. A média total das classificações ficou-se pelos 50 pontos, num máximo de 100 – o equivalente a uma pálida “nota 10”, ou “suficiente menos”, de outros tempos.

O Ministério da Educação limitou-se, em comunicado, a recordar o óbvio: “A profissão de professor tem de ser das mais exigentes e das mais desejadas e respeitadas, e terá que haver um incentivo a uma maior exigência na formação inicial dos candidatos” à docência pública.

OPÇÃO 2

Em duas provas idênticas realizadas anteriormente, os resultados não tinham sido muito melhores: em 10.220 professores avaliados em Dezembro de 2013 e Julho do ano passado, 45 por cento deram erros ortográficos.

No cômputo das três provas de avaliação realizadas até agora, as questões em que os professores cometeram mais erros correspondem a matérias leccionadas no ensino básico: escrita, resolução de problemas e análise de gráficos.

Um dos erros mais frequentemente assinalados é a confusão entre “à” e “há”, exemplificada no título desta página. Também o uso da cedilha é muitas vezes incorrecto, o mesmo sucedendo na pontuação. Na última prova de avaliação, uma elevada percentagem de professores errou num simples problema de contagem e foi incapaz de interpretar um gráfico.

O Instituto de Avaliação Educacional estudou esses erros e comparou-os com as deficiências dos próprios alunos do ensino básico: a coincidência é alarmante. Mais: os mesmos erros perpetuam-se depois no ensino secundário – para já não referir o ensino superior, a que os estudantes acedem com as mesmíssimas deficiências. Seria, de resto, interessante submeter a simples exames de Português alguns dos senhores professores doutores da nossa Universidade…

“As deficiências vão perseguindo os alunos e não desaparecem apenas com a passagem de nível de escolaridade”, afirmou ao ‘Público’ o escritor Paulo Guinote, autor do blogue “A Educação do Meu Umbigo” e professor de Português do 2.º ciclo. “É importante termos em conta que a ‘cultura do sucesso’ tem feito com que cheguem ao ensino superior e dele saiam alunos, não apenas futuros professores, com um nível atroz de expressão escrita”.

Amnésia

Sim, os resultados da avaliação terão consequências laborais.

A prova destinava-se a detentores de qualificação profissional para a docência, contratados provisoriamente nos últimos cinco anos e que desejam aceder de forma permanente à carreira docente nos estabelecimentos de ensino pré-escolar, básico e secundário do Estado.

Os 845 reprovados não poderão exercer funções no próximo ano lectivo – mas poderão submeter-se a novas provas. Aliás, à avaliação de Dezembro passado apresentaram-se já algumas centenas de repetentes, que haviam sido “chumbados” em exames anteriores (Dezembro de 2013 ou Julho de 2014).

Em intervenções exaltadas no Parlamento, a deputada comunista-“verde” Heloísa Apolónia acusou o Governo de pretender usar a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para “eliminar professores”. Quereria talvez dizer “despedir” – e provavelmente estaria certa, se dissesse “professores que não sabem suficiente Português para exercerem a docência”.

Ainda assim, para Heloísa Apolónia, “isto é achincalhar os professores”.

O mesmo tom foi usado pelo “bloquista” Luís Fazenda (que defendeu estar em curso “uma campanha difamatória para a classe docente”) e pela comunista Diana Ferreira (para quem “isto é uma guia de marcha para o desemprego”). Nem uma palavra se lhes ouviu sobre a qualidade do ensino público ou sobre as principais vítimas da ignorância professoral – os alunos.

Como o PS fizesse menção de acompanhar, no debate parlamentar, as críticas da extrema-esquerda, o deputado Michael Seufert, do CDS, teve de recordar que a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades resultou de uma iniciativa do PS, apresentada em 2008 como forma de valorizar a carreira docente.

Amnésias…