cavaleiro-andante-10-de-junho (Ilustração de Fernando Bento)
Luís de Camões foi o nosso maior poeta e ‘Os Lusíadas’ a obra-prima absoluta da literatura em língua portuguesa. Mas Camões foi também estudante em Coimbra, fidalgo pobre, preso, desterrado, soldado de fortuna em África, na Índia e na China, amante, náufrago, vítima dos reveses da sorte. As suas aventuras e desventuras já foram contadas em livros, no cinema, no teatro, na televisão, em banda desenhada e em cromos de colecção. A sua vida e patriotismo inspiraram muitos a tornarem-se melhores portugueses. Comemorar o Dia de Portugal no Dia de Camões é dar aos portugueses razões para se orgulharem de o serem. Se alguma figura histórica pode, com toda a propriedade, personificar a identidade nacional é o imortal autor de ‘Os Lusíadas’, a quem outro grande poeta do Portugal multicontinental, Camilo Pessanha, chamou “o maior génio da raça lusitana”.

O tricentenário da morte de Camões, a 10 de Junho de 1880, foi o sobressalto necessário da alma nacional que levou para as ruas de cidades, vilas e aldeias milhares de portugueses clamando pelo despertar de uma Pátria decadente. Se já antes o autor de ‘Os Lusíadas’ era venerado em todos os meios sociais, o Dia de Camões tornou-se uma comemoração querida e popular em todos os recantos de Portugal.

Com as alterações ao calendário oficial impostas pelo novo regime republicano a partir de 1910, o 10 de Junho passou a ser feriado municipal em Lisboa. Mas nem só na capital era celebrada a data: onde quer que houvesse portugueses no mundo, havia celebração do Dia de Camões, fosse nos confins do Império fosse no estrangeiro.

CromoscamoesNa pequena parcela de Portugal erguida no Sul da China, em Macau, o poeta Camilo Pessanha escrevia em 1924: “O génio de Camões, alimentado embora exclusivamente da seiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história, das suas lendas, das suas crenças, da sua cultura científica e literária – tem pujança bastante para triunfar dos meios mais adversos, para resistir aos mais implacáveis factores de perversão e de atrofia.

As suas composições são datadas (indirectamente datadas) dos mais diversos pontos e dos mais inclementes climas – da África e da Ásia, por onde no século XVI se estendia o imenso império português e se despendia a exuberante energia da raça portuguesa.

Muitas das obras primas do seu lirismo, das mais tipicamente nacionais pelo acentuado tom elegíaco de que estão impregnadas, brotaram na Índia do seu coração saudoso: e uma delas, das mais comoventes e das mais conhecidas, nasceu entre essa penedia sinistra da costa do Mar Vermelho, dessas nuas penedias incandescentes, que escaldam os pés de quem ali desembarca, e parecem, vistas a certa distância, formadas de escumalha de ferro.

(…) É a Gruta de Camões, com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correcção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem, há-de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte o seu poema imortal, e que o local predilecto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então êrma, sobre o porto interior, junto das penhas com aparência de “dólmen” em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze.”

A “raça” e os equívocos

Camoes-salvando-os-lusiadas-a-nadoFoi precisamente em 1924, durante o governo de Álvaro de Castro, sendo Presidente da República o escritor Manuel Teixeira Gomes, que a Câmara Municipal de Lisboa, presidida pelo oficial de Marinha Albano Augusto Portugal Durão, lançou a iniciativa da Festa da Raça, a decorrer na semana entre 3 e 10 de Junho, para culminar no Dia de Camões. Já identificado como representante por excelência das virtudes da Pátria – “numa mão a espada, noutra a pena” – que, na tradição romântica, compunham a ideia de “raça” (conceito que se prestou depois a sucessivos equívocos, com aproveitamentos ideológicos de diversa índole), Camões surgia como a referência maior dos valores que podiam unir os portugueses.

Talvez a única, numa época marcada por atentados (explodiram bombas colocadas pela Legião Vermelha nos dias 4 e 7 de Junho de 1924) e tentativas de golpes de Estado (oficiais da Aviação do Exército sublevaram-se na Amadora na noite de 3 para 4 de Junho, foram cercados por outras unidades militares e acabaram por render-se no dia 7), em que o próprio chefe do Governo aceitou bater-se em duelo à espada com um aviador golpista. No âmbito das festas cívicas dedicadas a Camões foi representado no Teatro de São Carlos, em Lisboa, o “Auto da Raça (Asas Gloriosas)”, peça da autoria do dramaturgo Mário Monteiro.

A Festa da Raça seria tema de um artigo notável assinado por António Sardinha na revista “Nação Portuguesa”. A grandeza de Camões atravessou os diversos regimes. A monarquia e as três repúblicas (incluindo a I República, o Estado Novo e o regime actual) reconheceram de forma unâ- nime a devoção do povo português pelo poeta que melhor cantou a sua gesta. E, acima das divisões políticas, todos celebraram – e continuam a celebrar – o poeta que, em 1580, não se contentou a morrer na Pátria, mas com a Pátria, restaurada sessenta anos depois.

[td_text_with_title custom_title=”Camões celebrado por Guerra Junqueiro”]

camoes-malhoa1Um poeta patriota presta homenagem ao “génio lusitano, a idealidade da raça num herói”: a 10 de Junho de 1912, Guerra Junqueiro, então ministro plenipotenciário de Portugal na Suíça, festejou o Dia de Camões com a comunidade portuguesa. Na ocasião, pronunciou um discurso que, passados 103 anos, continua actual: O nome sagrado de Camões junta-nos hoje aqui, em fraterno convívio, durante algumas horas. Camões é Portugal, e, a festa de Camões, o dia santo da nação. Celebremos o herói religiosamente, vivendo este dia na sua alma, comungando no pão do seu espírito. Adoremo-lo para nos sublimar, para que nos atraia e venha a nós.

As línguas de fogo só descem quando se desejam, e os santos só nos ouvem quando estamos próximos. Camões é o génio lusitano, a idealidade da raça num herói. Pertence ao grupo dos imortais, dos que viveram no Mundo o breve instante, com olhos de eternidade e de infinito. A vida resolve-se em dor e amor, e ele amou e sofreu como poucos homens. Amou a justiça, amou a virtude, amou a beleza. Amou a Pátria na humanidade, a humanidade no Universo, e o Universo em Deus. E desse imenso amor fez colheita de luto e colheita de dor. Semeou beijos e nasceram-lhe víboras. Pôs na fronte da Pátria um diadema de estrelas, e recebeu em galardão uma coroa de cardos.

Épico, herói e santo

A inveja, o rancor, a estupidez, a mentira, a hipocrisia, a ferocidade – bando de lobos e de hienas, vão atrás dele continuamente. Não o deixam, rasgam-no, dilaceram-no. Toda a sua existência de herói e de mártir é a escalada abrupta de um calvário. O sangue do coração evaporou-se-lhe em génio e verteu-se-lhe em lágrimas. Foi Apolo na cruz, aédo e Messias, bardo e Redentor. Cantou como um épico, lidou como um herói e acabou como um santo.

Nessa imperial, grandiosa e maravilhosa Lisboa do século XVI, ovante de fortalezas, catedrais, estaleiros, praças, palácios, cúpulas, bazares; nessa Lisboa rútila e quimérica, de gentes estranhas e desvairadas, nadando emoiro, fulva de pompas, louca de vícios, ébria de orgulho e de prazer; nessa Lisboa babilónica, vasto empório do Mundo, rainha esplêndida dos mares, onde frotas de galeões bolsavam tesoiros fabulosos de países de sonho e de mistério; nessa Lisboa, Capital da Luz; nessa Jerusalém das Descobertas, agonizou abandonado e atribulado, mendigo e mártir, sem pão e sem lar, o maior e o mais sublime dos seus filhos, o gigante da raça, o cantor dos Lusíadas.

Voz de fogo

Viveu pela Pátria, cobriu-a de glória, e nela morreu obscuramente, de solidão, de fome e de tristeza. E ao mesmo tempo que Luís de Camões, divinizando-se na dor, chegava à imortalidade espiritual, a alma da Pátria, degradando-se, envenenada de oiro e de vileza, caía escrava e semimorta. A alma enoitecera-lhe em letargo, mas brilhava e cantava imorredoira na voz ardente dos Lusíadas. É a voz messiânica do épico, é a voz de fogo de Camões quem de novo a desperta e desagrilhoa do cativeiro, e quem durante os séculos pesados de uma noite de horror, a guia na torva escuridão, a fortalece nos desalentos e desmaios, erguendo-a por vezes, indómita e nobre, magnânima e justa, como nos tempos belos da epopeia. A alma sonâmbula do Povo caminha de noite, lastimosa e chorando, atrás da alma do Vidente.

Nas datas grandes, nos dias heróicos – 1640, 1807, 1820, 1834 – o culto de Camões inflama-se, Camões revive e está presente. O centenário, há trinta anos, acordou a nação, encheu-a de fé, abrasou-a de amor, e a alma do povo e a do Poeta fundiram-se avidamente uma na outra, como dois beijos e dois relâmpagos. E na aleluia sagrada da vitória, no êxtase da imortal manhã de 5 de Outubro, sentia-se, rezando e palpitando, aberta em flor de luz, a alma divina de Camões. Libertámo-nos. Banimos para sempre os fracos reis que fazem fraca a forte gente, os déspotas e os tiranos, cuja vontade Manda mais que a justiça e que a verdade. Foram-se os abutres e emigraram os corvos. Partimos algemas, expulsamos verdugos, destruímos cárceres. Não basta.

À volta de nós, mortas no chão, as ruínas escuras do passado embargam-nos o trânsito. É necessário erguer, ordenar, edificar. Dêmos corpo concreto e realidade ao que ontem foi sonho e aspiração. Criemos juntos, no trabalho comum, a Pátria Nova. Invocamos Camões para a libertar, modelemo-la então à sua imagem. Façamo-la heróica, augusta e grande como a epopeia. Façamo-la nobre como a ode, límpida e ligeira como a canção, ridente e viçosa como a égloga, pura e cristã como a elegia.

Sejamos uma nação de alegres marinheiros e de robustos lavradores, vivendo piedosamente vida simples, irmanando as ideias, nivelando as fortunas, cuidando os criminosos como enfermos, amparando os inválidos como crianças, marchando no globo, em êxtase, para a harmonia eterna, para Deus. Criemos uma Pátria ideal, vestida de verdade, armada de direito, fulgente de sonho e de beleza. Que as searas germinem, que os beijos esplendam, e as almas se casem, à luz fecunda dos seus olhos.

Dia Santo da Pátria

camoes cromo 82[7]Uma Pátria materna e carinhosa, que ensine os ignorantes, ajude os que trabalham, ameigue os que sofrem, bendiga os heróis, e deixe entrar no coração, candidamente, a voz alada e luminosa dos passarinhos e dos poetas. Mas essa Pátria, além de boa e jucunda, eu quero-a estável e armada de força, além de armada de direito. Quero-a forte para que a respeitem, e siga livre, ovante com denodo, no caminho do bem e do trabalho.

A espingarda defenderá a charrua e, a boca negra do canhão, o peito alvo da Justiça. Quando a arma que mata defende a liberdade, os santos choram mas não acusam. Porque então a arma de morte criou amor e gerou vida. À volta de nós, sofregamente, as cobiças espreitam. Dêmos à Pátria o máximo de resistência, dando-lhe o máximo de unidade. Unamo-nos todos, e ficará incólume. Separam-nos ideias e doutrinas? Embora. Cruzemos as linhas divergentes neste ponto comum – o amor da Pátria. Façamos variedades harmónicas dos antagonismos destruidores. As ideias e crenças mais opostas, vivendo-as no fundo do coração com o mesmo espírito de amor, convertem-se em raios de uma estrela, que, discrepando na circunferência, se casam no centro e se amalgamam.

Santifiquemos hoje o dia de Camões, que é o dia heróico de Portugal, casando também no amor da Pátria, religiosamente, as nossas vontades, os nossos ideais, as nossas almas. Em nome de Camões, fraternizemos e trabalhemos. Os pobres da minha terra, que, debaixo de neve ou luz ardente, abrem como arado e com a enxada os sulcos das vinhas e dos trigais, apenas o Sol de Deus chega ao zénite e vai em meio o dia de dor e de canseira, param no trabalho, erguem-se e descobrem-se, e numa atitude imóvel de oração, fazendo religiosamente o sinal da cruz, entoam com voz profunda estas palavras: Louvado seja sempre nosso Senhor Jesus Cristo!

Pois bem. Eu desejo que todos os Portugueses, no dia Santo da Pátria, imitando os jornaleiros da minha aldeia, se ergam também em pé, de fronte nua, e digam com igual devoção, do mesmo modo: Louvado seja sempre o nome eterno de Camões!

Viva Portugal![/td_text_with_title]
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