A “silly season” aproxima-se do fim e os políticos alinham-se para dar início a um prolongado ciclo eleitoral. A ‘geringonça’ continua ao volante da Nação, a chiar de arrependimentos bloquistas, e já vê as eleições autárquicas – e, quem sabe, legislativas antecipadas – ao virar da esquina. Entretanto, em Itália, França, Holanda e Alemanha os candidatos institucionais preparam-se para enfrentar alternativas populistas que, em muitos aspectos, seduzem eleitorados cansados da ineficácia dos velhos partidos. 

“Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o diabo” – antecipou Pedro Passos Coelho em Julho, considerando que o cenário económico e social do País iria piorar “muito antes das autárquicas” de 2017. Realmente, o próximo ciclo político, para o qual os partidos e os políticos no Ocidente já começaram a aquecer os motores, parece ser uma prova de fogo. Em Portugal, as candidaturas autárquicas sairão à rua e darão início a uma pré-campanha que se estenderá por meses, tentando convencer um eleitorado cansado a ir às urnas depositar o seu voto neles. Só neste Verão já gastaram quase cinco milhões dos nossos euros, somente a contratar bandas.

A grande interrogação é se a ‘geringonça’, que ainda não cumpriu sequer um ano de existência e já começa a chiar, vai conseguir chegar às eleições autárquicas. Os números prometem ser uma enorme dificuldade para António Costa e seus aliados: o orçamento socialista só poderia funcionar com um crescimento muito acima das actuais previsões, e o rescaldo do ‘brexit’ pode afectar ainda mais as contas do actual primeiro-ministro.

O ministro das Finanças, Mário Centeno, garantia poder colocar a economia nacional a crescer 1,8 por cento ao ano, mas até agora a economia apenas cresceu 0,8 por cento, sendo que no segundo trimestre deste ano o crescimento foi tão anémico que rasa a estagnação: 0,2 por cento, o valor mais baixo desde que Portugal começou a recuperar depois da bancarrota de 2011. Para se alcançar sequer o valor de 1 por cento de crescimento, a economia portuguesa teria de melhorar a um ritmo superior a 0,6 por cento nos próximos trimestres, algo que a generalidade dos economistas considera muito pouco provável face à actual situação.

Economia em apuros

Os portugueses têm bastas razões de preocupação. Os dados do INE são um golpe fundo na ‘geringonça’, visto que revelam que a procura interna, que Costa quis dinamizar devolvendo privilégios e rendimentos aos funcionários públicos, nunca atingiu os níveis esperados. Entretanto, o investimento caiu a pique desde que a coligação socialista-marxista começou a reverter algumas medidas cruciais do Governo da coligação PSD-CDS.

Por agora, o défice vai-se mantendo estável, tendo até diminuído um pouco face ao aumento da receita dos impostos. O aumento dessa receita, no entanto, começa a escassear, não esquecendo que a diminuição do IVA sobre a restauração ainda vai retirar quase 200 milhões de euros ao erário público. As despesas, no entanto, estão condenadas a vir a ser mais altas, visto que o processo de aumento dos salários da Função Pública está a ser faseado e ainda existem contas em atraso para serem pagas.

No total, várias das medidas mais populistas que os parceiros marxistas de Costa gostariam de ver aplicadas não poderão encontrar espaço orçamental, e já se notam os sinais de dissidência. Caso seja necessário um “plano B” para alinhavar o orçamento, o Bloco de Esquerda vai dando algum espaço a Costa, mas Catarina Martins já começou a dar sinais de que poderá demarcar-se do PS caso a situação política se comece a complicar, afirmando que “todos os dias me arrependo da geringonça”.

As pequenas “facadas” vão sendo dadas como sinais de aviso ao primeiro-ministro. Na questão da alteração da lei bancária, António Costa viu como o resultado de 2015 realmente foi “poucochinho” e certamente apercebeu-se da dependência que tem em relação ao PCP, ao BE e ao Presidente da República (todos se recusaram a apoiar a alteração da lei) para manter o cargo.

Caso Costa não consiga colocar as contas em ordem, então mais austeridade no Orçamento de 2017 talvez seja um sapo demasiado difícil de engolir para os marxistas de ambos os partidos, que não podem perder o seu eleitorado.

O PCP já fez saber que não está tão disponível para jogar pelas regras do PS, adoptando um discurso bem mais duro para este novo ciclo político. “Votaremos contra medidas de empobrecimento no Orçamento de 2017”, afirmou Jerónimo de Sousa, que se prepara ele próprio para enfrentar o congresso do PCP em Dezembro. Os próximos meses prometem ser uma prova de fogo para o PCP. E embora o seu discurso se mantenha no habitual tom de luta contra a “malvada direita”, é à esquerda que vai disputar os votos que lhe permitirão manter alguma relevância (cada vez menor, é certo) no cenário político nacional.

Tudo ou nada autárquico

O PCP foi ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas últimas legislativas, resumindo-se agora à condição de “o mais pequeno dos grandes”. Nas autárquicas, o combate promete ser intenso… contra o Partido Socialista. O PCP, através da sua “coligação permanente” designada Coligação Democrática Unitária – CDU (nota interessante, o PCP nunca se apresentou a votos como “PCP”), controla 34 das 308 Câmaras Municipais que vão estar em disputa. Menos do que as 50 câmaras que controlava nos anos 80, mas um número confortável que ainda lhes permite, juntamente com a sua presença nos sindicatos, manter uma influência no processo político que transcende o seu peso na Assembleia da República. O Partido Socialista, no entanto, afirmou-se em 2013 como o maior poder autárquico de Portugal e vai disputar as câmaras do PCP em antigos “feudos” deste partido como Beja, Évora e até mesmo Setúbal.

O Bloco de Esquerda, por sua vez, também irá entrar na luta. Apesar do seu actual peso na Assembleia, o partido não controla um único município em Portugal. No último congresso do Bloco, Catarina Príncipe, representante de uma moção contrária à da actual direcção, questionou abertamente Catarina Martins sobre se a mesma “admite ou não coligações pré-eleitorais” e sobre “em que circunstâncias haverá coligações pós-eleitorais com o PS”. A questão, aqui, é se o BE pretende, e consegue, vencer Câmaras ou se tenciona estender a ‘geringonça’ ao mundo autárquico.

À direita, no entanto, também se disputa o futuro nestas eleições. A sobrevivência política de Pedro Passos Coelho, apesar de ter vencido as eleições legislativas de 2015, depende de um bom resultado nas autárquicas. O PSD controla sozinho 86 autarquias, muito menos do que as 149 do PS. Se contarmos com as coligações com o CDS, o PPM e o MPT, então esse número sobe para 106 Câmaras. O CDS, que já não se apresenta a eleições sozinho desde 2011, e cujos números nas sondagens não são muito animadores, tem como missão segurar os cinco municípios que controla isoladamente.

O domínio político da capital, Lisboa, será talvez um dos maiores campos de batalha entre esquerda e direita. Fernando Medina, caso volte a candidatar-se, não é uma figura com tanto capital político como António Costa, nunca se tendo apresentado sozinho a eleições. Ainda não se sabe se o extenso programa de obras em Lisboa será algo que o irá beneficiar ou prejudicar.

Encontrar um candidato “às direitas” é fulcral para retirar o controlo da capital à esquerda. Pedro Santana Lopes seria, em teoria, essa figura, mas sofre da desvantagem de estar empenhado na provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Assunção Cristas começa a ser falada como a possibilidade mais forte, até porque é vista como uma figura que poderá reunir o apoio conjunto do CDS e do PSD. No entanto, várias figuras do partido não vêem com bons olhos um compromisso da líder com as autárquicas, estando as eleições legislativas antecipadas em cima da mesa.

Se essas eleições serão boas ou más para a direita, é uma forte interrogação. Nas sondagens, o Partido Socialista recuperou a liderança, e até pode sonhar em poder fazer uma ‘geringonça’ mais pequena, recorrendo apenas ao apoio do Bloco de Esquerda. Costa poderá muito bem provocar uma crise política antecipada para tentar angariar mais deputados antes de a situação económica se tornar mais preocupante. Os próximos meses vão ser determinantes para decidir se o apoio popular à frente de esquerda se vai manter, ou se os portugueses vão voltar a apoiar uma solução governativa à direita. Até às autárquicas vai tudo a jogo.

Lá fora

No resto da Europa, o novo ciclo político será mais um conflito entre globalismo e nacionalismo do que entre direita e esquerda. O referendo britânico sobre a permanência do país na União Europeia foi uma primeira amostra deste novo sistema. Em França vai a votos o espírito de uma Nação cujo “grandeur”, que o histórico Presidente De Gaulle tanto defendia, se encontra pelas ruas da amargura. Ainda não se sabe se o extremamente impopular Presidente Hollande se irá candidatar a mais um mandato, e à esquerda não parecem existir candidatos capazes de chegar à segunda volta das presidenciais. Em quase todas as sondagens, Marine Le Pen, líder da controversa Frente Nacional, parece ter a presença na segunda volta garantida. Na direita moderada, Nicolas Sarkozy procura a nomeação do partido “Os Republicanos” para uma segunda candidatura a inquilino do palácio do Eliseu. O livro que entretanto lançou, intitulado “Tudo pela França”, revela o seu projecto político para 2017: retirar poderes à União Europeia, reforçar o combate à imigração ilegal, impor “novo acordo Schengen” e derrotar o que classificou como o “projecto político islâmico”, um “projecto de radicalização”.

De facto, é o avanço do Islão na Europa que une os vários movimentos anti-imigração e anti-sistema. Também na Holanda se prepara uma viragem brusca à direita, pois as sondagens indicam que o Partido pela Liberdade, de Geert Wilders, será o mais votado nas eleições legislativas de Março deste ano. Por força da convenção, Wilders seria então convidado a formar Governo.

Na Alemanha, onde Angela Merkel aceitou receber milhões de refugiados sem sequer negociar com os parceiros europeus, os dois partidos do “centrão” local estão muito reduzidos em termos de intenções de voto, podendo uma futura solução de Governo ter de passar pelo Alternativa pela Alemanha, um partido populista anti-imigração, pelo partido “A esquerda” (o equivalente ao BE na Alemanha), ou “os verdes”. Dentro do próprio partido de Merkel, os conservadores da União Democrática Cristã (sigla em alemão: CDU) vão determinar no inicio de 2017 se querem que a muito criticada Chanceler continue, ou se vão seleccionar uma figura mais conservadora para ir a votos.

Em Itália, os eleitores foram convidados a decidir em Outubro deste ano se desejam aprovar uma alteração constitucional destinada a limitar o caos político instalado no país. Neste momento, as duas Câmaras do Parlamento italiano são eleitas de forma exactamente igual: o Governo depende de uma maioria nas duas, e as leis devem ser aprovadas por ambas. A reforma proposta reduziria o Senado a uma mera Câmara de representação das várias regiões italianas, e seria eleito de forma indirecta. O resultado do referendo, no entanto, é incerto e, caso os eleitores o rejeitem, o país provavelmente irá a eleições antecipadas, em que os radicais de esquerda do “Movimento Cinco Estrelas” poderão vencer se reunirem uma boa parcela das intenções de voto dos italianos.

Por fim, a crise reside no nosso vizinho do lado, onde socialistas moderados e marxistas se uniram apenas para evitar que haja Governo no país. Sem Orçamento do Estado aprovado, a Espanha poderá estar a caminho da terceira eleição antecipada a realizar-se no dia de Natal deste ano. Um ano inteiro sem Governo.

A ‘reentré’ promete não ser nada fácil. Os actores políticos chegam-se à linha de partida e a política segue dentro de momentos.

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