Ao analisar o Orçamento do Estado para o próximo ano, conclui-se que sofre de todos os vícios dos anos anteriores, contendo os mesmos erros estratégicos, com a diferença de que este ano se torna mais compreensível dada a crise social vivida por milhões de famílias portuguesas, muitas das quais a viver abaixo do nível de pobreza e sem rendimentos que lhes permitam sobreviver pelo trabalho.
Ou seja, o problema principal não reside no OE de 2021, mas nos orçamentos anteriores dos governos do PS, porque para agradarem à geringonça e manterem o PS no poder, criaram uma crescente dependência das famílias em relação ao Estado e o crescimento da despesa pública, enviando para a dívida o que o País não conseguiu criar de riqueza. Ou seja, o Governo não governou o País para melhorar a economia através de melhor organização, mais e melhor trabalho e mais investimento, nomeadamente estrangeiro, preferindo apenas aumentar a dependência das famílias dos subsídios e dos favores do Estado, sabendo-se que não é o Estado que produz riqueza, mas as empresas privadas e os portugueses que nelas trabalham. Ou seja, os governos da geringonça criaram um modelo económico que conduzirá o País para uma nova bancarrota.
Entretanto, é claro que o OE de 2021 não dispensa algumas ideias demenciais do Bloco de Esquerda, como seja a proposta de que as grandes empresas, muitas estrangeiras, não possam dispensar trabalhadores, mesmo quando não tenham trabalho para lhes dar. Ao inverso, o ministro Pedro Nuno Santos justificou o despedimento de alguns milhares de trabalhadores da TAP pela mesma razão de não haver trabalho. Trata-se do modelo de coerência usado pela geringonça, uma no cravo e outra na ferradura.
Como em todo os orçamentos anteriores, o Governo do PS deixa às empresas, nomeadamente as dos sectores mais competitivos, muitas exportadoras, o encargo de encontrar os meios para sobreviver. Contrariamente, tenta, ainda que mal, promover a sobrevivência das empresas mais pequenas e menos competitivas da economia dual, limitadas ao seu mercado interno, que sabemos serem em número excessivo, a viver uma concorrência feroz e com os trabalhadores menos qualificados, empresas que mais tarde ou mais cedo desaparecerão. É o que acontece quando os governantes estão pouco dispostos a ouvir quem sabe e vivem convencidos das suas certezas.
TAP
O ministro Pedro Nuno Santos mergulhou de cabeça na trapalhada da TAP. António Costa sabe disso e o País que pensa, também. O único que parece não saber é o próprio ministro que, passados meses, ainda nem sequer conseguiu ter o plano de recuperação da empresa. Pelo menos para poder ter a consciência plena do problema que tem em mãos. Assim, vai poder viver até Dezembro na alegre inconsciência do problema e sem a consciência disso. Nesse processo, queimado em lume brando, pode dizer adeus à liderança do PS, mas os portugueses é que não escapam de pagar a conta.
Ferrovia
O buraco do ministro na ferrovia não é menor. Os cidadãos que assinaram o Manifesto da Ilha Ferroviária acabam de receber uma carta da Comissária Europeia Adina Valean onde se afirma, preto no branco, que o Corredor Atlântico é para ser construído até 2030 e que Portugal deve tratar dos pormenores das ligações na fronteira com a Espanha. Ora o ministro não sabe disso e anda entretido a comprar os velhos comboios de bitola ibérica de que os espanhóis já não precisam e vai remendar as nossas heróicas linhas do século XIX e construir uma nova linha de via única e de bitola errada com destino ao Caia. Dada a lentidão com que tudo isto é feito, a nova linha chegará ao Caia ao mesmo tempo que os espanhóis cheguem perto com a bitola UIC.
Coerentemente, na recente cimeira Ibérica, o Presidente do governo espanhol não se cansou de falar no comboio de alta velocidade de Madrid a Lisboa, sem que António Costa fosse além do silêncio que utiliza para manter os portugueses, nomeadamente os empresários, sem fazerem a mais pequena ideia do que vai acontecer às suas exportações à medida que a rodovia de longa distância deixe de ser competitiva, em função das directrizes da União Europeia, baseadas em razões energéticas e ambientais.
Aparentemente, o ministro consome-se na preservação de um futuro museu ferroviário europeu, até que surja em Portugal um novo governo que pense e invista na necessária ligação ferroviária à Europa. Até lá, vamos continuar a ver e a ouvir o ministro Pedro Nuno Santos a debater-se com os buracos em que se meteu.
A crise da pandemia
O Presidente da República, o Primeiro-Ministro e a ministra da Saúde, ao não se calarem para deixarem falar quem sabe alguma coisa do assunto, mostram amiúde toda a desorientação que por lá vai. Depois da habitual desorganização da administração pública, da tragédia dos lares de idosos e da anedota da aplicação obrigatória nos telemóveis, vão agora ouvir toda a gente na Presidência da República. Desta vez não optaram por ouvir o Dr. António Costa Silva e talvez alguém lhes mostre as estatísticas dos serviços de saúde da Alemanha, com o número de médicos, de enfermeiros e restante pessoal técnico, demonstrando que a nosso défice é de enfermeiros. Se assim for já não se perde tudo.
Claro que aquilo que o Governo e o Presidente fazem é propaganda e não curará um único doente. Veja-se que António Costa não se cansa de anunciar a contratação de novos profissionais para o SNS, sem nunca descontar os que se reformam, emigram ou se fartam de trabalhar para o Estado e vão trabalhar para a actividade privada e para os novos hospitais que estão ou vão a ser inaugurados, deixando os concursos vazios.
Em resumo, nada de novo, aproximam-se as eleições para a Presidência da República e para as autarquias e é o tempo de gastar o nosso dinheiro em propaganda. De facto, nem o Presidente da República, nem o PS, alguma vez deixaram de usar a propaganda como a forma preferida de governar, que é o que sabem fazer melhor. ■




