Schopenhauer escreveu sobre a excepcionalidade das elevadas qualidades humanas face à generalidade da mediocridade nas populações humanas, por demais evidente no Portugal de ontem e hoje.
Portugal tem-se afirmado ao longo dos séculos por mercê das excepcionalíssimas qualidades das suas escassíssimas elites. São exemplos notáveis D. Afonso e o seu punhado de homens, S. Teotónio, D. João II, Duarte Pacheco Pereira, D. João da Silva, Luiz Vaz de Camões, Sebastião José de Carvalho e Melo, facínora mas homem de Estado, Passos Manuel, Fontes Pereira de Melo, Sidónio Paes, António de Oliveira Salazar, Fernando Pessoa, inclusivamente Álvaro Cunhal. A multidão de indigentes e medíocres que acompanha o punhado de gente brilhante que fez Portugal é o grosso da coluna que, sob direcção firme, rumo e autoridade, se transformaram e engrandeceram.
Sob frouxa mão acobardaram-se, fugiram, Rei fraco gente fraca faz, nos grandes momentos mostraram força, assim foi durante a segunda e terceiras invasões francesas após o choque da cobarde fuga do mais pusilânime dos monarcas. Lutaram como os melhores soldados do mundo sob Wellington.
Os tempos de hoje são tristes, mãos frouxas governam o país, a gente fraca se faz. No futebol, um jogo insignificante mas que movimenta negócios colossais, lavagens de dinheiro gargantuescas, e que é alimentado e realimentado pela indústria dos ‘mass media’, conseguiram-se no passado recente alguns triunfos, fruto de um génio futebolístico como Ronaldo e de um treinador inspirado, que sabe explorar o pouco que tem, chamado Fernando Santos, uma espécie de paradigma nos tempos modernos de Duarte Pacheco Pereira, mas infelizmente dirigido para um jogo e não para a vida real dos portugueses; infelizmente Ronaldo aproxima-se do final e será difícil repetir os triunfos das selecções. No panorama de clubes a indústria medíocre, provinciana, dominada por caciques de meia tijela, os resultados internacionais são confrangedores, e é bom que assim seja, talvez essa mediocridade repetida traga algumas mudanças nos dirigentes, principal cancro de uma indústria portuguesa que apenas tem talento nos jogadores.
Todos os anos o país arde no Verão, enquanto no litoral o turismo se desenvolvia, era a chave para o desenvolvimento, um falso desenvolvimento, uma galinha dos ovos de ouro que explora a coluna serviçal do país e não a espinha dorsal ou a inteligência do mesmo. Uma dualidade trágica, enquanto o Portugal antigo arde, com a sua matriz pétrea que se reduz a cinzas, a festa saloia do Portugal de cartão e pladur prosseguia nas grandes cidades e nas praias. Esta galinha dos ovos de ouro foi morta por uma pandemia amoral, produzida por um vírus sem objectivos que não a sua replicação à custa das células alheias, um vírus que mata mais do que devia, um vírus capaz de repor equilíbrios na Natureza, um vírus que, no caso português, expôs toda a fraqueza de um modelo completamente errado.
Junte-se a isto a incapacidade de cumprir promessas e o descrédito, o desânimo, a descrença, que forma uma depressão colectiva que vai corroendo Portugal; acrescente-se a isto a navegação à vista e as figuras tristes de governantes que ora anunciam milagres, como o do COVID em Portugal, como depressa anunciam calamidades e tragédias, isto se não se instalar uma aplicação milagrosa cuja única vantagem é servir para o habilidoso Costa lavar as mão no final, sacudir a água do capote e deitar as culpas para cima dos portugueses que não instalaram uma aplicação no telemóvel que não serve para nada, pois as autoridades de saúde não geram os códigos correspondentes aos infectados.
Bem podem esperar sentados os desgraçados que perderam tudo ou quase tudo com esta pandemia; o dinheiro, quando o há, é para aqueles que se sentam no Terreiro do Paço e para os amigos do regime. A Lei da transparência na distribuição dos fundos, proposta pela Iniciativa Liberal, foi chumbada pelo PS e pela abstenção dos comparsas de esquerda. O Orçamento será aprovado pelos mesmos comparsas, que ou voltam à abstenção ou negoceiam uns benefícios autárquicos em câmaras da margem Sul e acabam a votar a favor, caindo, por exemplo, mais uma vez no engodo que o PS tem feito ao PCP, e nunca cumprido; afinal onde está o prometido hospital do Seixal?
Salazar, esse beirão genial que bem conhecia Portugal, esse fino pensador, esse estilista sábio, esse poço de contradições que revela bem o que Portugal tem de melhor e pior, escreveu e falou sobre o país que tão bem conhecia. Parece um oráculo. Seguem-se algumas citações de Salazar sobre o país de hoje.
Marcelo Rebelo de Sousa, irrequito e indeciso, fala de confinamentos e de milagres, passeia-se alegremente pelo povo em feiras do livros depois de fugir e se esconder em casa, acabando a fazer figuras tristes numa vacinação da gripe em que se mostra desnudo, sem recato, sem resguardo da dignidade presidencial. Fica para Marcelo a seguinte citação de Salazar: “Continuo a declarar que não se pode simultaneamente lisonjear a multidão e governá-la”.
Sobre António Costa: “Pode-se fazer política com o coração, mas só se pode governar com a cabeça. Não é de patriota nem de político abandonar o futuro às contingências da sorte, não criar para uma obra condições de duração e de estabilidade. Por definição só fica feito o que perdura. A ordem não é produto espontâneo das sociedades mas filha da inteligência e da autoridade”.
Sobre todos os políticos: “Pesa-nos a autoridade, atrofia-nos a disciplina, seduz-nos o hiper-criticismo por motivos fúteis, parece-nos salutar entretenimento descartar homens e destruir governos. A política só em sentido deturpado se pode confundir com agitação estéril, referver de ódios, estadear de ambições pessoais ou de grupos para a conquista e usufruição de altos lugares”.
Sobre os portugueses, logo depois do vinte e cinco de Abril, Jorge de Sena, num discurso do dez de Junho, disse praticamente o mesmo que Salazar: “Os homens mudam pouco e então os portugueses quase nada. O português é eivado de individualismo e toda a regulamentação da sua actividade privada lhe é molesta. Penso que tem de refazer neste ponto a sua educação e que o seu modo de ser não se ajusta às necessidades dos tempos. Um decreto a reconhecer a cidadania faz-se em minutos e pode fazer-se já; um cidadão, isto é, o homem pleno e conscientemente integrado numa sociedade política civilizada, leva séculos a fazer”.
Estamos mal servidos de dirigentes: esta pandemia expôs, ainda mais, a desgraça de gente que gere este país. É, também, com esta massa de gente, o povo português, que os governantes têm de contar, não devem navegar à vista, devem, pelo contrário, ser sensatos, sábios e dar o exemplo. Os tempos são difíceis e os portugueses têm de contar apenas consigo próprios, apesar dos governos, para se protegerem das tempestades que ensombram o horizonte, e que serão terríveis. E só a nossa força colectiva, algo de que Salazar se esqueceu no discurso citado, poderá triunfar. ■




