Do pensamento estético de Orlando Vitorino (I)

Se há algo que caracteriza o pensamento estético das figuras maiores da filosofia portuguesa é o fundamentarem ontologicamente esse pensamento estético. 

Não há estética sem ontologia. Do mesmo modo que, por exemplo, também não há ética. Pelo menos, uma ética fundamental e fundamentada. 

Vimos isso já (Seminário “A Estética no Pensamento Português”, Universidade Católica Portuguesa, 13 de Março de 2014) em José Marinho. Veremos isso agora em Orlando Vitorino – um dos seus mais insignes discípulos. Para tal, partiremos de uma sua obra publicada já postumamente – As Teses da Filosofia Portuguesa (2015, Guimarães Ed.) –, onde Orlando Vitorino prova ter compreendido bem a lição marinhiana, lapidarmente expressa na sua Teoria do Ser e da Verdade. 

Nesta sua obra, a questão estética emerge mais visivelmente no último capítulo (11ª tese), que tem o seguinte “Enunciado: A Arte é imitação da natureza. A poesia é invocação do espírito”. Aí, começa Orlando Vitorino por recordar Aristóteles e Leonardo Coimbra, precisamente a propósito do seu enunciado: “A Aristóteles se atribui, desde há remotos séculos, que a arte é imitação da natureza. Quem nos diz que a poesia é invocação do espírito é Leonardo Coimbra” (p. 223). Acrescentando, ainda a propósito do enunciado: “No enunciado da tese se distingue entre arte e poesia. Convém observar que por arte se entende não uma arte, mas a arte englobante de todas as artes desde a música à escultura. E que a poesia, bem como o poema e a poética, não se limita à de expressão verbal mas abrange a de todas as expressões sonoras e plásticas”.

Ressalvando depois que “a arte tem por domínio a imagem e a poesia a metáfora” (p. 224), desenvolve Orlando Vitorino uma teorização sobre o símbolo: “O símbolo aparece como relação de dois termos. Um dos termos é a imagem sensível que a sensação trouxe. O outro é a entidade espiritual que a intuição surpreendeu. A intuição é para o mundo inteligível o que a sensação é para o sensível. Nos dois termos cuja relação é o símbolo, a imagem sensível serve de expressão à intuição da entidade inteligível” (p. 226). 

Por isso, acrescenta: “A imagem simbólica é (…) mais poderosa do que a imagem sensível. Não é uma expressão de aparência mas uma expressão de essência, do que faz com que o que é seja. Não um sinal, mas o que é. Não fenoménica mas ôntica” (p. 227). ■

Agenda MIL – 31 de Dezembro, 14h30, no Palacete dos Viscondes de Balsemão (Porto): mais uma sessão das novas “Tertúlias de Cultura Portuguesa”; 15h, na Fundação António Quadros (Rio Maior): apresentação da Revista NOVA ÁGUIA nº 26.

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