Não são optimistas as expectativas da distribuição da vacina Covid-19 por um governo que nem sequer conseguiu distribuir bem a tradicional vacina conta gripe, quanto mais as vacinas da Covid-19 que são inovadoras, com base na tecnologia mRNA, requerendo, por exemplo, equipamento de refrigeração mais potente e menos comum, além de duas doses por pessoa em intervalos bem definidos de semanas.
Embora o autor destas linhas tenha nascido nos anos 1970s enquanto os seus pais nasceram nos anos 1930s e 1940s, não é inconcebível que possa vir a receber a vacina da Covid-19 antes deles. Isto porque resido num país que planeou a distribuição da vacina enquanto eles vivem em Portugal, onde o Governo tem ainda de acordar para planear a vacinação antes que este pesadelo se torne uma realidade para os 2,2 milhões de Portugueses com mais de 65 anos, em maior risco de vida devido ao SARS-Cov-2.
Desde Abril de 2020 que tenho vindo a explicar, em vários órgãos de comunicação social, que teríamos uma ou várias vacinas contra a Covid-19 aprovadas para uso de emergência prontas para a distribuição antes do final deste ano, referenciando precisamente a Pfizer e a Moderna, que agora revelaram resultados intermediários excelentes na ordem dos 90% de eficácia e sem problemas graves de segurança a curto prazo (a segurança a médio e longo prazo só poderá ser verificada mais tarde), e a vacina de Oxford-Astra Zeneca cujos resultados intermediários também serão anunciados em breve.
Que fez o Governo português de antemão perante a necessidade de ter pronto para o final deste ano um plano de distribuição da vacina rápido, delineando tácticas e objetivos concretos para começar a salvar directamente muitas vidas e indirectamente muitas empresas no final do ano? Nada.
O actual Governo de Portugal é bom gastador, mas mau protector, sendo dos mais rápidos na Europa a gastar dinheiro, mas dos mais lentos e menos eficazes a proteger as vidas dos seus cidadãos ou das suas empresas. Portugal é em Novembro, tal como em Abril, um dos 10 países europeus com mais casos Covid-19 per capita, e o sexto com o impacto mais negativo da pandemia na economia.
Este Governo faz sempre negócios rápidos com o dinheiro dos nossos impostos. Devido à pandemia, fizeram-se, por exemplo, mais de 16.000 contratos por ajustes directos, no valor de quase 500 milhões de euros. A DGS é quem gastou mais dinheiro nisso, cerca de 100 milhões de euros.
No entanto, mesmo gastando tanto, o Governo não tem sequer para nos oferecer uma estratégia epidemiológica consistente, uma app útil, uma base de dados da pandemia fiável ou um plano de vacinação contra a covid-19 preparado de antemão como os governos dos outros países preparam.
Isto quando a União Europeia já fez o trabalho antecipado de assegurar a compra de 460 milhões doses destas duas vacinas iniciais, com mais centenas de milhões de doses asseguradas para outras vacinas caso também sejam eficazes e seguras. É que a qualidade, quantidade e ritmo de recrutamento de voluntários de tantos programas de desenvolvimentos de vacinas não levantava quaisquer dúvidas a um especialista da indústria farmacêutica de que, pelo menos, uma ou mais vacinas seriam bem-sucedidas antes do final do ano.
Aliás, a indústria farmacêutica americana, ao contrário do Governo português, contrata com base no mérito e competência técnica. Por isso, já desde Março de 2020 que a indústria, além de desenvolver a vacina, estava a planear como distribuí-la, construindo, por exemplo, instalações de armazenagem refrigerada do tamanho de estádios de futebol no Estado de Michigan e na Bélgica para receberem ao longo de 2021 mais de um milhar de milhão de doses.
Acontece que o Governo luso, apesar de ter nomeado mais de 12.000 assessores e outros funcionários, não tem especialistas em nada senão em gastarem dinheiro para nada, em terem sido membros de uma juventude partidária, em serem de meia dúzia de famílias amigas no Governo ou fieis acéfalos do primeiro-ministro António Costa.
Os governos europeus também quase todos, ao contrário do de Costa e seus boys, se têm preparado. O Governo britânico já em Maio de 2020 tinha nomeado uma comissão e respectiva liderança para planear a distribuição da vacina. Por isso, assim que saíram os resultados da vacina apresentaram um plano que envolve o armazenamento da vacina a temperaturas muito baixas (70 graus negativos para a Pfizer, 20 graus negativos para a Moderna), distribuição pelo exército e mais de 1.000 centros de saúde, dedicados 12 horas por dia, 7 dias por semana, à vacinação. O objectivo desta complexa logística é conseguirem vacinar cerca de 4 milhões pessoas por mês (assumindo que o conseguem fazer duas vezes, pois cada pessoa requer duas doses). O Governo espanhol e o alemão também têm planos detalhados e prioridades estabelecidas, incluindo, por exemplo, monitorização através de uma base de dados central.
Interrogado após os primeiros resultados positivos da vacina serem divulgados, Costa iludiu-nos, algo que sempre faz, indicando que a DGS estaria a trabalhar na estratégia de vacinação e que havia também uma comissão técnica de vacinação contra a covid-19 já a trabalhar num plano. Ora tal comissão nem foi criada formalmente e os seus potenciais membros ficaram com a ideia de que o Governo pretendia deles apenas uma opinião sobre os resultados da vacina, incluindo nos subgrupos populacionais. Isto enquanto a DGS não elaborava, logo não nos apresenta já, nenhum plano de distribuição nacional.
Na semana passada já referimos que, nesta pandemia, ao contrário dos outros governos europeus que estão a investir a maioria dos seus recursos financeiros na saúde e em manter uma economia saudável, protegendo as empresas produtivas afectadas pela pandemia como as da restauração, o Governo cá continua a gastar sobretudo nos negócios dos amigos do costume.
Portanto, os membros e assessores deste Governo têm aproveitado a pandemia de 2020, como aproveitam qualquer outro pretexto, para gastar centenas de milhões do dinheiro dos nossos impostos em ajustes directos, tal e qual como aproveitaram os fogos de 2017 para fazer ajustes directos para comprar golas inflamáveis.
É, pois, trágico ver na TV doente (‘sick’ em Inglês) e na TV do Estado português, a opinar sobre vacinas, “especialistas” que nunca trabalharam na indústria farmacêutica, desde que façam propaganda ao Governo em vez de informarem os portugueses. A cada frase aplaudem “o bom esforço e estratégia do Governo” neste ou em qualquer assunto relacionado com a pandemia. Ora qual tem sido o “esforço” do Governo e os resultados da sua “estratégia”?
Os tristes resultados são gastar muito, mas pouco proteger as vidas humanas ou de empresas afectadas gravemente pela pandemia. Os governantes não sabem nem querem proteger os Portugueses. A única coisa que sempre só souberam fazer foi gastar o nosso dinheiro, misturando a política com negócios em vez de com evidência científica na saúde pública ou protecção civil. ■




