O PSD é um partido essencial na nossa democracia e creio que ninguém pode ficar indiferente ao que lá está a ocorrer. Rui Rio já por diversas vezes afirmou que o Partido Social Democrata não era um partido de direita. Rui Rio também já referiu que caso Sá Carneiro não tivesse formado o PSD, “provavelmente estaria no Partido Socialista’’. Por outro lado, Rui Rio já disse de si próprio ser de “centro” ou de “centro-esquerda”. E eu cada vez concordo mais com ele.
O afastamento permanente das vozes internas discordantes, a confusão entre divergências de opinião e democracia interna com deslealdade e afrontamento, tão típicas nos partidos de esquerda, são características inegáveis de Rui Rio. Após as eleições internas no PSD, nas quais Rui Rio venceu com toda a legitimidade, as ameaças aos apoiantes de Rangel começaram a sentir-se logo na noite eleitoral, com declarações de vários apoiantes de relevo de Rio, a pedir que esses mesmos apoiantes “colocassem o lugar à disposição”.
Apesar de a disputa entre Rio e Rangel demonstrar que o PSD está muito dividido, pois o resultado foi quase 50/50, Rui Rio fez uma limpeza total de todos os apoiantes ou suspeitos de apoiantes de Paulo Rangel, das respetivas listas de deputados já dadas a conhecer. Foi uma autêntica razia. Mas Rui Rio conseguiu ir ainda mais longe. Nas listas do PSD às próximas legislativas não se encontra ninguém da sociedade civil, não se encontram membros de antigos governos do PSD, não se encontram personalidades independentes de relevo e com provas dadas, nada. Rui Rio só colocou nas listas os seus ‘yes men’ e pessoas que são incapazes de discordar dele e outras tantas que lhe prestam vassalagem. E isto é notável, pois Rui Rio cultiva de si próprio uma imagem de alguém que luta contra os interesses instalados ou contra o aparelho do partido e ele colocou nas listas todo o aparelho do partido que não ousa duvidar da sua linha de pensamento. Com que legitimidade se defende a meritocracia para o nosso país, se dentro de portas os deputados são escolhidos por cunhas e seguidismo?
A entrada da Iniciativa Liberal no panorama político nacional significou que há um partido que alerta para a importância de promover e defender a meritocracia, não fosse essa uma das principais bandeiras do liberalismo. E faz muita falta ao nosso país promover uma cultura de mérito e de esforço, por oposição aos interesses instalados e à prática de favorecimento que grassa em Portugal.
Rui Rio entrou na liderança do PSD a dizer que a política “precisava de um banho de ética”. No entanto, com estas atitudes, o líder do PSD continua a demonstrar o seu bizarro entendimento sobre o significado da palavra “ética”. A ética de Rui Rio já se tinha dado a conhecer por diversas vezes. Desde o conluio com o PS nas nomeações para as CCDR, até ao fechar de olhos às presenças falsas no parlamento, apenas porque eram de deputados apoiantes seus, passando pelo apoio ao PS na defesa do mandato único da anterior PGR, que tanto incomodou o poder instalado. E também demonstrou simpatizar pouco com o escrutínio, ao ser um dos principais responsáveis pelo fim dos debates quinzenais na Assembleia da República.
Enquanto Rui Rio estiver na liderança do partido, é ele o dono do PSD e quem ousar desafiá-lo será purgado de todos os cargos de relevo. Talvez um dia ele perceba que a sua postura é que motiva os desafios internos. Se Rui Rio nem sequer consegue unir e pacificar o seu próprio partido, será que é o homem certo para liderar os destinos de Portugal? ■




