Os 12 trabalhos de Rio

Hércules (ou, em bom rigor Herácles, que nisto da onomástica os gregos nunca facilitaram a vida a ninguém), deve o seu nome a Pitonisa já que havia sido registado como Alcides, era filho de Zeus e da sua amante Alcmena (convenhamos que a ter que escolher um nome para amante, este seria um dos cimeiros da lista). Hera, a legítima, pouco dada a estas trocas de alcova e ainda menos tolerante quando as mesmas encerravam presente, tratou de fazer a vida negra ao rapaz. Provocou-lhe, já homem feito, um acesso de loucura, levando-o a assassinar a mulher e os três filhos. Cá pelo burgo, num paralelismo idêntico ao que Marcelo provocou à “geringonça”, embora, em defesa do Chefe de Estado, sempre se possa advogar que se tratava de nado morto tardio.

Pós-massacre, o herói rumou ao campo e viveu sozinho, o que faz um certo sentido atendendo ao historial conjugal. Daqui se percebe também que o fluxo migratório daqueles tempos era o êxodo urbano e não o rural. O seu primo lá tratou de pôr pés ao caminho e levou-o ao oráculo em Delfos (uma espécie de bruxo de Fafe dos gregos), para recuperar a sua honra. O oráculo, que devia ser dado a poucos esforços, não juntou cabeças de galinha preta, dentes de tubarão, penas de águia coxa e tratou de fazer rezas. Ao invés, pôs a criatura a suar as estopinhas, dando-lhe doze tarefas que lhe levariam doze anos. Contas por alto, o tempo médio de espera de uma cirurgia no Serviço Nacional de Saúde. Lá teve o desgraçado que estrangular um leão (quem nunca?), cortar umas quantas cabeças a Hidra (os casados sabem bem do que falo…), lutar com javalis, touros, bois e metade do reino animal (e não, não consta que tenha sido à mesa!), perseguir uma corça durante um ano (só mesmo uma fêmea é capaz de fugir durante um ano…), vencer as amazonas, retirando o cinto mágico à sua rainha (questiono-me qual a magia daquele cinto?), castigar um rei entregando-o à voracidade dos seus animais que vomitavam fogo (conheço tantos que mereciam este castigo), matar um gigante de três corpos e seis braços (a matemática faz sentido!), colher uns pomos de ouro de um jardim (quase tão fácil como sacar umas notas do cofre da mãe do Sócrates) e trazer Cérbero (não, não é Cérebro) o cão de Hades, Deus do reino dos mortos (não, não é nenhuma piada sobre Costa). A troco de quê? De uma sandes e um Sumol? Não. A troco da eternidade, essa coisa vã que não serve para grande coisa excepto se se for militante do PCP.

Rio terá tarefa hercúlea para ganhar as eleições. A começar este fim-de-semana, no Congresso. Terá que olhar para si como um líder a prazo. Com um prazo de mês e meio, tipo pizza congelada, já que o seu fito é ser primeiro-ministro e, conseguindo-o, terá o partido a seus pés. Mais importante que negociar listas e lugares para os órgãos nacionais terá que assegurar duas coisas. A primeira, uma moção de estratégia curta, mas esclarecedora, voltada para os eleitores e não para o partido, que permita uma identificação imediata com os problemas sentidos pela população em geral e aponte para soluções simples, práticas e quase imediatas. Com efeito, este Congresso é o primeiro passo da sua pré-campanha! A segunda – e não menos importante – é constituir “task forces” robustas de quem lhe é fiel e domina por completo as campanhas eleitorais. Ceder à entrega de calendários, acções, comícios, estratégias e mobilização às estruturas distritais ou locais, é um suicídio político. Quer pela incapacidade já demonstrada de muitos desses protagonistas, quer pelo previsível boicote revanchista de quem ficou fora das escolhas do líder e tomou outras opções. Com a avalanche de debates televisivos que esta campanha vai comportar (28, à partida, em cerca de 15 dias), Rio não terá tempo para fazer uma campanha típica. Os seus lugares-tenente em cada um dos distritos serão o seu cartão de visita. Convém que a estratégia seja clara e comum. Convém que se passe a mensagem do líder. É imperativo ser-se competente, proactivo e leal.

Já no que respeita à postura, mensagem e ideias-chave, só depende de si. Mas sabe que terá tempos muito curtos para passar as suas ideias, pelo que estas terão que ser telegráficas, mas inteligíveis. Perderá num frente-a-frente com Costa, muito mais experimentado no “bas-fond” argumentativo e dono de um sem número de ideias circulares quando pretende fugir ao confronto. A táctica tem que ser de guerrilha. De afirmações que soem, que entrem no ouvido, e que não permitam contraditório. Como se de verdades se tratassem, porque o são. O estado da Saúde, da Educação, da Justiça. Os médicos que se demitem em catadupa. A insuficiência de magistrados e professores. As greves que se sucedem. Os números do crescimento que nos envergonham. Os compadrios e as negociatas no seu partido e no Governo. A eternização de ministros em desrespeito e numa afronta ao povo e ao estado de Direito. A ausência de princípios. Não questionando, mas afirmando, fugindo de questões técnicas que poucos compreendem e ninguém quer saber. Por muito que custe a Rio, pouco importa aos eleitores qual o seu plano para o país. Importa-lhes muito mais que seja diferente de Costa. E que mostre os dentes e as garras a afirmar essa diferença. Que apele à competência, à probidade, à seriedade, ao respeito. Que se dê a conhecer como estadista. Que mostre, não que é alternativa, mas que é a solução. Porque é de soluções que todos precisamos!

E se Rio vencer as eleições, sou eu que lhe pago as sandes e o Sumol! ■

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