Nuclear talvez, obrigado

Uma das grandes bandeiras do partido socialista nas últimas décadas tem sido a aposta nas energias renováveis. O objetivo em si é positivo e meritório, só que o diabo está nos detalhes. Em vez de contribuir para a sustentabilidade e independência do país, temos energia caríssima que não só penaliza gravemente famílias e empresas, como também nos deixou dependentes da importação quando falham o vento e a chuva.

O fanatismo ambientalista, a incompetência e a corrupção conjugaram-se, como é infelizmente comum, para a actual situação que contribui enormemente para a pobreza e a estagnação económica de Portugal.

Ironicamente, é a infame energia nuclear que poderá ser a salvação no período de transição até que as renováveis sejam efetivamente capazes de suportar as necessidades energéticas nacionais.

Portugal é um país manifestamente pobre no que toca a energias fósseis. Apesar de alguma prospeção, nunca se encontrou petróleo ou gás natural. A extracção de carvão há muito que foi abandonada. O que naturalmente deixa o país numa posição frágil num mundo em que a energia é um factor estratégico fundamental, e decisivo no desenvolvimento.

Somos, no entanto, comparativamente ricos em recursos hídricos. O plano nacional de barragens teve grande desenvolvimento, principalmente nas décadas de 50, 60 e 70. Para além do abastecimento de água, a produção de electricidade foi desde o início um objectivo. Muito antes das preocupações com a sustentabilidade ambiental, Portugal sempre teve uma significativa percentagem do consumo energético de fontes renováveis.

A partir de 2000

Até o ano 2000, de fontes consideradas renováveis, apenas a hidroelétrica existiu na prática em Portugal. É nessa altura que se começam a desenhar os primeiros projetos. Mas é a partir de 2004/5 que uma fortíssima aposta na energia eólica passa a ser a opção estratégica principal. As condições do país são efetivamente boas e a tecnologia tinha evoluído ao ponto de se tornar viável. E, assim, o governo de José Sócrates atira-se de cabeça às ventoinhas. O que seria um investimento arriscado para qualquer empresa passou a ser extremamente apetitoso graças aos generosíssimos contratos com regime de tarifa garantida.

É notória a explosão dos investimentos nessa fonte. Quase de repente, a paisagem do país passou a incluir as gigantescas hélices a girar lentamente, por quase toda a parte. Em apenas dez anos, passámos de zero a cerca de um quinto da energia consumida em Portugal ser eólica. Infelizmente, tanta generosidade tem que ser paga por alguém, e como não podia deixar de ser somos todos nós. Primeiro, porque as tarifas altíssimas pesam diretamente nos bolsos de todos nós. Mas em segundo lugar, e até mais grave, porque a rentabilidade de variadíssimas indústrias fica seriamente comprometida. Resultando em menos investimentos, menos empregos e menos desenvolvimento.

É frequente os políticos da nossa praça encherem a boca dizendo que o investimento na indústria é fundamental. Que é preciso criar valor. E que, num país com baixa qualificação em comparação com os nossos concorrentes diretos, é esse o caminho. Só que estas lindas palavras são completamente ocas enquanto não houver condições atractivas para o investimento. O custo da energia é um dos factores decisivos; e enquanto a atual situação não se alterar não vamos ter crescimento significativo por essa via.

Descarbonização 2030

Nos três anos entre 2016 e 2018, como podemos ver no gráfico, a produção total de energia eléctrica em Portugal foi superior ao consumo. Apesar do custo absurdamente alto (o oitavo mais elevado dos 27 países da EU em 2021), ao menos deixámos de precisar de comprar energia ao exterior. Foi possível mesmo exportar, chegando a falar-se na hipótese de finalmente ser concluída a interligação à rede do centro da Europa.

Continuamos limitados ao mercado ibérico, o MIBEL. Há anos que se fala também numa ligação a Marrocos, mas não se passa das intenções.

Seja como for, o recorrente desvario ambientalista do governo levou-o a ir mais longe do que as metas ambiciosas da UE para até 2050 se atingir a neutralidade carbónica. Desde 2019 que houve uma reversão e voltámos a precisar de importar electricidade de Espanha.

Sem precaver minimamente os inevitáveis imponderáveis que sempre acontecem, foram desativadas no fim de 2021 as duas últimas centrais a carvão que havia em Portugal. O carvão é sem dúvida péssimo para o ambiente, e cada vez menos interessante do ponto de vista económico, só que nem sempre o sol brilha, nem sempre chove, e nem sempre o vento sopra. É precisa uma alternativa que garanta o abastecimento nessas alturas, e essa deixou de existir. Ironicamente, a dependência das renováveis em que nos colocámos obriga-nos a comprar a Espanha energia produzida em centrais a carvão ou nucleares.  

É importante salientar que o custo de produção em centrais fotovoltaicas baixou muito para além do que seria previsível nos últimos anos. Esta é já a fonte de energia mais barata de todas. No futuro, Portugal poderá beneficiar das muitas horas de sol que tem, e voltar a exportar. Esperemos que não voltem a acontecer negócios «peculiares», altamente benéficos para as empresas produtoras, mas que penalizam severamente os contribuintes.

Nuclear verde – taxonomia UE

O futuro, sem dúvida alguma, está nas energias renováveis. Não só o desastre ambiental que ameaça todo o planeta devido ao aquecimento global paira sobre a humanidade, como o custo muito menor torna as fontes fósseis inviáveis do ponto de vista económico. As mudanças até geoestratégicas que daí resultam serão gigantescas. O petróleo, que foi decisivo durante todo o século XX, tornar-se-á provavelmente apenas mais uma matéria-prima.

No entanto, não existe ainda a tecnologia que permite armazenar eficazmente a energia das fontes renováveis: é preciso garantir produção ininterrupta e de alguma forma fazer uma transição que demorará décadas. A principal alternativa tem sido o gás natural, muito menos poluente e mais barato. Essa foi a escolha de Portugal para compensar o abandono do carvão. Foi também a escolha da Alemanha, que decidiu encerrar todas as suas centrais nucleares. Uma escolha que criou a enorme dependência do gás importado da Rússia e infelizmente facilitou a eclosão da guerra na Ucrânia.

Mais por preconceito e ignorância do que por factos concretos, a energia nuclear foi completamente rejeitada por Portugal. Talvez por isso, rapidamente alinhámos com a Alemanha e outros países na oposição à classificação da energia nuclear como sustentável pela UE. A taxonomia UE é uma ferramenta destinada a ajudar os investidores a compreender se uma actividade económica é ambientalmente sustentável. Ora recentemente a Comissão Europeia avançou com uma proposta para que a partir de 2023 a energia nuclear passe a ser considerada «verde».

Tal como a produção fotovoltaica baixou drasticamente de custo, também a nuclear evoluiu grandemente. Há diversos projetos a decorrer baseados em pequenos reactores nucleares. Em vez das gigantescas centrais que conhecemos, que obrigam a investimentos colossais e demoram cerca de 10 anos a começar a produzir, estas pequenas centrais são muito mais baratas, demoram metade do tempo até entrarem em produção e são muitíssimo mais seguras.

O que parecia ser uma tecnologia definitivamente condenada ao abandono afinal é talvez a mais sustentável das opções. Pode ser esta a melhor solução para colmatar as falhas que nos afectam.

Será que a obstinação dos socialistas vai continuar a rejeitar sem ponderação o nuclear? ■

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