“Porque os homens também choram…”

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Faltam as palavras para descrever de forma minimamente real, factual, baseadas na experiência e vivência directa, aquilo que comumente se designa por testemunho directo, para verbalizar, com total fidelidade e sentimento, aquilo a que temos assistido nas últimas semanas. Sim, falo da guerra na Ucrânia.

Quando ainda estávamos a sair de uma pandemia que nos “congelou” o nosso modus vivendi durante cerca de dois anos, sendo que em algumas geografias este problema ainda não está controlado nem ultrapassado, somos sacudidos com um “novo mundo” para o qual não estávamos, uma vez mais, minimamente preparados.

Um novo mundo em que a “guerra”, essa palavra que aprendemos nos livros de história e que fez parte da evolução das sociedades e dos povos durante tantos séculos, voltou a estar presente no nosso quotidiano, no nosso dia a dia.

Desta vez a guerra não se faz ao longe, onde, apesar de muitos de nós terem o mesmo sentimento de repulsa, independentemente dos protagonistas da contenda e da geografia onde a mesma tem lugar, temos um olhar e um sentimento mais distante e menos consumidor das nossas emoções do que aqueles a que estamos agora a assistir na Ucrânia.

Desta vez a guerra “aterrou”, de forma real e directa, perto de nossa casa, perto de nós… e isso altera por completo a forma como percepcionamos essa realidade.

Muitas das gerações que presentemente compõem a nossa sociedade, seja a portuguesa seja a de outros países da europa, nunca viveu uma “guerra” de forma tão próxima nem por ela foi e será tão impactada.

Vivemos, na Europa, muitos anos de prosperidade desde o fim da segunda guerra mundial, apesar dos ciclos e contraciclos económicos, dos períodos de maior crescimento ou de contração da economia. Foram, apesar de tudo, anos de evolução e de prosperidade.

Ora, agora, esse mundo antes conhecido está seriamente colocado em causa porque se percebeu que aquilo que antes não era sequer uma preocupação ténue da maioria dos europeus passou a ser uma das maiores, senão a sua maior angústia.  

Mas a “mensagem”, a “notícia”, ainda está a ser processada. A maioria de nós ainda está a viver de uma forma ambígua estes novos tempos.

Vai daí, corremos para os supermercados porque temos de ter reservas de comida na nossa casa e para os nossos familiares porque, dizem, a mesma pode escassear; protestamos o incremento nunca visto do preço dos combustíveis, do gás e electricidade, e na verdade não paramos muito tempo para reflectir sobre a diferença abissal dos impactos desta guerra em quem está nos dois lados da “barricada”.

De um lado estão os ucranianos, que todos os dias fogem das bombas e da morte, famílias que se separam, algumas para sempre, crianças, como as nossas, que de repente são confrontadas com um inferno nunca imaginado e observam e sentem o cheiro da morte… ali tão perto.

Quero acreditar e acredito que a esmagadora maioria do povo russo sofre igualmente o flagelo desta guerra, ainda que não estejam, de momento, a fugir das bombas. Sofrem num silêncio imposto por um regime totalitário que lhes retirou o direito à indignação e a dizer não, mas no fundo choram em silêncio por ver que se estão a matar os seus irmãos e que não lhes é dada a oportunidade de dizer não! 

Do outro lado, estamos nós, aqueles que sofrem os impactos colaterais desta guerra e que se consideram muito afectados por este conflito, que para minimizar os seus “graves” impactos corremos para as filas das bombas de gasolina para abastecer os depósitos antes que uma “bomba” pré-anunciada para a semana seguinte faça aumentar em 10€ ou 20€ os custos do nosso orçamento familiar, e ficamos muito satisfeitos porque o governo nos dá (com o nosso dinheiro, pelo menos daqueles que pagam impostos) um autovaucher para anestesiar a nossa dor, corremos para os supermercados para comprar óleo de girassol e compramos por impulso mais do que tínhamos comprado durante toda a nossa existência… porque dizem que pode esgotar… e, se assim for, queremos estar prevenidos.

É o tempo e o momento de reflectir sobre a condição humana, os seus valores e prioridades, de parar para pensar, não em nós, mas nos outros, e de aprender com a imagem nada abonatória que muitos de nós vêm refletida no seu espelho emocional… Pela minha parte, assumo a minha culpa e a minha responsabilidade, e confesso que choro, tenho chorado muito, porque “os homens também choram” e eu tenho chorado muito por ti, Ucrânia, e por tudo aquilo em que, como sociedade, nos transformÁmos e estamos a permitir que aconteça. ■