O preço da guerra para a Europa

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Um mínimo de 175 mil milhões de euros é quanto a guerra na Ucrânia custará às economias europeias, segundo os cálculos do Bruegel, um ‘think-tank’ sediado em Bruxelas e especializado na análise de temas de política económica.

A previsão do grupo Bruegel sintetiza o custo de todas as medidas (incluindo redução das facturas fiscais) que os governos dos países e a União Europeia terão de aplicar para manter as economias em funcionamento regular. Contudo, o cenário agravar-se-ia ainda mais se a guerra se prolongasse por muito mais tempo.

Em linhas gerais, o ‘think tank’, citado em Portugal pelo jornal ‘Eco/Economia Online’, prevê que as economias europeias terão de contar em 2022 com 50 mil milhões de impacto associado ao choque da oferta, 75 mil milhões para gerir a independência energética, 30 mil milhões para a assistência aos refugiados e ainda 20 mil milhões em segurança e defesa, valor que será idêntico em 2023.

Mesmo que a guerra seja suspensa a breve trecho, os efeitos prolongar-se-ão por vários anos – possivelmente uma década. Em termos comparativos, é de admitir que a totalidade das verbas destinadas pela Comissão Europeia aos planos de recuperação e resiliência (os PPR, ou ‘bazucas’) dos países-membros, num total de 600 mil milhões de euros, venha a ser integralmente consumida pelos efeitos da guerra. Mas se esta se arrastar por muitos meses, os 175 mil milhões de euros estimados não bastarão.

“Os impactos económicos são diversos”, considera o jornalista António Costa, do ‘Eco’. “Na energia, claro, nas matérias-primas agrícolas, nas matérias-primas que fazem parte da cadeia de valor dos ‘chips’. São vários choques na oferta, com consequência directa nos preços, e nos rendimentos, e na produção”. E o jornalista Patrick Jenkins, do Financial Times, considera que “o mundo deve retirar lições do que sucedeu em 2008 e preparar-se para um choque económico e financeiro”.

O Banco Central Europeu admite uma revisão em baixa do crescimento económico na Zona Euro e o governador do Banco de Portugal falou mesmo em crescimento nulo. A resposta do Governo português à crise originada pela guerra tem sido considerada frouxa, limitando-se por agora a uma mínima intervenção fiscal no preço de venda dos combustíveis auto e a um ligeiro reforço das linhas de crédito empresarial.

Nos corredores do poder sabe-se que o primeiro-ministro socialista não quer antecipar-se com apoios à economia pois sabe que estará já em preparação um reforço dos auxílios comunitários, possivelmente sob a forma de uma “bazuca 2” que saia dos cofres de Bruxelas, e não do Banco de Portugal.

UE paga 800 milhões/dia à Rússia 

Paradoxalmente, as economias europeias estão a financiar o regime de Putin ao terem de pagar 800 milhões de euros por dia à Rússia por energia – algo difícil de aceitar quando, ao mesmo tempo, a União Europeia está a fomentar sanções contra a Rússia.

As transacções de gás continuam a processar-se entre a Rússia e vários países europeus, como se não houvesse guerra. Os gasodutos mantêm-se operacionais e o fornecimento à Alemanha, à Polónia e à Eslováquia, entre outros países da União Europeia, continua a realizar-se e até está a aumentar.

A União Europeia está a reforçar a compra de gás russo. No gasoduto Yamal-Europa, por exemplo, que atravessa a Bielorrússia e a Polónia e chega até à Alemanha, os fluxos de gás atingem os 8,6 milhões de quilowatts por hora. O mesmo sucede no gasoduto NordStream 1, onde se regista uma taxa de mais de 70 milhões de quilowatts/hora.

Combustíveis a mais de 2 euros/litro

No início desta semana, os preços do gasóleo e da gasolina nas bombas de abastecimento público voltaram a subir em Portugal, tendo ambos ultrapassado os 2 euros por litro mesmo nas versões mais económicas.

O Governo accionou um mecanismo de compensação que possibilita reduzir na taxa fixa do ISP o acréscimo de receita obtida por via do IVA, para além de ter mantido a redução do ISP em dois cêntimos no litro de gasolina e em um cêntimo no do gasóleo, em vigor desde Outubro, e que já permitiu aos consumidores uma poupança de 38 milhões de euros.

“Tenho a certeza de que não haverá nenhum agente económico que queira ganhar dinheiro [perante esta conjuntura de subida de preços devido à guerra na Ucrânia] e temos confiança que as gasolineiras não só internalizem este desconto do ISP para refletir no preço, como tenham em atenção aquilo que são as suas margens comerciais e estamos certos de que ninguém tem aqui uma postura de ganhar dinheiro nesta situação tão trágica”, disse António Mendonça Mendes, secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Fiscais.

Camionagem protesta

Em revolta contra o aumento dos preços dos combustíveis, cerca de 200 empresários de transporte de mercadorias promoveram no início da semana uma paralisação que envolveu algumas centenas de camiões que foram estacionados “em locais próprios” na zona de Lisboa.

Os empresários decidiram que cada um deles iria parar cerca de 20% da sua frota em sinal de protesto, explicou o porta-voz da plataforma Sobrevivência pelo Sector, Paulo Paiva, à agência Lusa. Por agora, o porta-voz da plataforma afastou a realização de greves ou de bloqueios de estradas: “Nada de greves, ninguém está de acordo com greves, ninguém está de acordo com fecho de estradas”, sublinhou.

Entre as reivindicações dos empresários, segundo Paulo Paiva, estão a redução nas portagens da Classe 4 para a Classe 2, a redução provisória de impostos, a redução directa no fornecedor do gasóleo profissional, a obrigatoriedade da anexação da variação do valor do combustível na factura de frete ou o alargamento do gasóleo profissional a viaturas de peso igual ou superior a 7,5 toneladas.

Para Paulo Paiva, são propostas exequíveis e que estão “ao alcance do Governo”. Os transportadores esperam agora realizar uma reunião com membros do Governo para “apresentar formalmente estas reivindicações”.

Antes, a Associação Nacional dos Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram) já tinha admitido que a solução para a sobrevivência das empresas de transporte de mercadorias, face à escalada do preço dos combustíveis, passa por um aumento das tarifas.

Buzinão na ponte

Entretanto, uma versão mais audível de protesto teve lugar no início desta semana na Ponte 25 de Abril. Milhares de automobilistas juntaram-se à iniciativa, buzinando contra o preço dos combustíveis. 

“Perante este cenário de aumento galopante, exigimos ao Governo que tome medidas substanciais, com significado”, disse à Lusa o presidente da Associação Democrática de Utentes, Aristides Teixeira. “Pedimos que regule o sector, e enquanto a regulação não acontece é preciso impedir e baixar o preço dos combustíveis de maneira significativa e o Governo pode fazê-lo. São decisões políticas que podem ser tomadas”, sublinhou.

Para Aristides Teixeira, as medidas recentemente anunciadas pelo Governo “não passam de migalhas”, dando como exemplo o auto-voucher

“Na zona sul do Tejo uma das zonas mais pobres do país temos conhecimento de que há famílias a devolver casas aos bancos e aos senhorios, procurando viver em casa de familiares porque já não têm dinheiro. Além disso pagamos portagens o que reduz ainda mais a capacidade económica para ir trabalhar”, disse. ■

[Ler trabalho sobre as alternativas energéticas nas páginas centrais desta edição]