O que significa o favoritismo de Lula da Silva no Brasil

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Lula da Silva foi processado e condenado em duas instâncias e em três processos distintos. Apesar de as provas terem sido mais materiais do que testemunhais, o Supremo Tribunal Federal – baseado em detalhes jurídicos e de manifesta restrição ao juiz Sérgio Moro, autor das sentenças na primeira instância – anulou as sentenças, para serem refeitas em Brasília e não em Curitiba, como havia ocorrido. Isso passou-se há mais de um ano e o Supremo não se preocupou em ordenar urgência no reexame das sentenças. O processo está parado e algumas das acusações já foram prescritas. Este é um dos motivos da perda de credibilidade da Justiça no Brasil.

Ficou evidente que os magistrados queriam era não apenas colocar o ex-presidente em liberdade, mas, principalmente, tornar possível sua candidatura à Presidência da República em Outubro. A maioria dos juízes foi nomeada por Lula ou por Dilma. E quase todos não gostam de Bolsonaro, que não perde uma oportunidade de agredir o tribunal e alguns de seus membros.

Aproveitando que o presidente Bolsonaro não possui base nas forças mais representativas da sociedade, tendo apenas a sustentá-lo a caneta presidencial e uma base pessoal de apoio popular, mas insuficiente para lhe dar condições numa segunda volta, Lula da Silva vai atendendo as mais diferentes composições e tenta agradar as diferentes forças que o apoiam.

Lula parte do apoio de todas as esquerdas. Desde os social-democratas do PSDB, liderados pelo ex-presidente FHC, passando pelos socialistas, a esquerda mais radical do PT. Esta tem-lhe dado trabalho ao condenar alianças mais ao centro, como o convite para o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin ser vice, lado a lado com Lula. Alckmin concorreu duas vezes à Presidência, uma contra Lula e outra contra Dilma. Perdeu as duas, agora pode ser vice de Lula, o que enche os “medias” sociais com gravações de discursos seus de forte, violenta até, condenação ao ex-presidente, ex-adversário e agora futuro aliado.

Ao mesmo tempo em que se apresenta como um moderado, procurando manter aliados no alto empresariado, como o presidente da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo, Josué Alencar, filho de seu vice nos dois mandatos, José Alencar, líder da indústria têxtil no Brasil, Lula reafirma suas afinidades com o MST, um movimento de militantes de esquerda. responsáveis por centenas de invasões durante os anos PT. Lula tem afirmado que pensa em rever ou rediscutir as privatizações feitas no governo Bolsonaro e a reforma laboral realizada no governo Temer. Este lado de esquerda radical preocupa os empresários e os conservadores brasileiros.

Este quadro político, de fortes implicações na economia, ganha importância maior no momento em que a América do Sul começa a ver o seu mapa ideológico alterado, com o crescimento de governos de esquerda, muitos na linha bolivariana de Hugo Chávez. Assim é que, além da Venezuela de Maduro, há o Peru, de Pedro Castillo, o Chile, de Gabriel Boric, a Argentina, de Alberto Fernandez. Os problemas dos EUA na Ásia, Oriente, agora na Europa, levaram os americanos a deixarem de lado os seus vizinhos, com consequências imprevisíveis. Caindo o Brasil em Outubro na mesma linha, uma nova crise de dimensões internacionais pode ocorrer. Estes países dominados por forças esquerdistas estão afinados e solidários com Cuba e com Putin. E o vizinho mexicano não é de confiança.

Os analistas económicos com percepção política do processo vivido pelo mundo consideram de grande ingenuidade a tentativa americana de uma reconciliação com a Venezuela por causa do petróleo. Ingenuidade, no mínimo, desde que a Venezuela, embora continue detentora de grandes reservas de petróleo, já não extrai nem processa em quantidade de exportar muito. A empresa estatal de petróleo foi destruída pela corrupção e, depois, pela fuga do país de seus melhores quadros na engenharia de produção, muitos hoje a trabalhar no sector no Brasil.

Na verdade, a geração de uma candidatura que fuja a opção Lula-Bolsonaro esgota-se nas próximas semanas. E portanto, a falta de uma candidatura viável para derrotar Lula, mesmo que de centro-esquerda, pode levar o Brasil a grave retrocesso económico, político e social. São factos. ■