Um interesse em sintonia com o estado do partido por José Guilherme Oliveira
É pungente verificar naquilo que se tornou o PSD. Ninguém o ouve, não é relevante, não tem rumo, não tem estratégia, nem norte, a caminho de uma insignificância que parece inevitável.
Será que o futuro da direita ainda passará por aqui?
As eleições do PSD aproximam-se e o reduzido interesse que suscitam está em sintonia com o estado do partido. Por um lado, o estertor do dr. Rui Rio à frente do PSD prolongou-se por tempo demasiado, o que aliado à sua incapacidade enquanto líder agravou perigosamente o “estado de saúde” do partido. O PSD neste momento é uma inexistência, ninguém ouve nas questões quotidianas da política portuguesa, as suas intervenções são pouco mais do que inócuas. Não ajuda nada a qualidade dos candidatos, não tanto pelas suas capacidades pessoais, humanas ou competências técnicas, mas pela pouca empatia e fraca visibilidade que têm junto do eleitorado.
O dr. Luís Montenegro é daquelas figuras um pouco obscuras da política portuguesa, que ascendem a altos cargos sem que se lhe reconheça qualquer mérito pessoal, profissional e até mesmo político. Foi um parlamentar regular, um líder da bancada parlamentar sem registo de relevo e ainda assim alcandora-se a líder do PSD. A sua apresentação tem sido concordante com o seu percurso. Não vejo que possa empolgar ou arregimentar à sua volta gente suficiente e gente capaz.
O outro candidato, o dr. Jorge Moreira da Silva, tem a seu favor um curriculum recheado e valioso, não só a nível interno como internacional, não só na vida privada como na vida política. Digamos que oferece uma garantia de qualidade, que lhe poderia dar vantagem na luta pela liderança do partido. Tem experiência política parlamentar e executiva e funções em cargos internacionais, que não se devem menosprezar. Esse seu bom curriculum sente-se na proposta que apresenta ao partido, onde constam soluções, propostas e alternativas políticas. Tem contra si o mesmo que o seu oponente, que é a falta de empatia junto da população e uma muito deficiente comunicação.
A fraca visibilidade, a deficiente capacidade comunicacional e pouca empatia, unem os dois candidatos, o que levará à perda de implementação do partido na sociedade portuguesa, digo-o com pena. Assisto, estupefacto, que ambos os candidatos tragam à liça a discussão sobre a relação do partido com o Chega. O erro é estrondoso e manifesto, pois quer queiram, quer não, há um eleitorado que disputam em comum e trazer ao combate um putativo concorrente é um disparate.
Os candidatos deviam olhar para as últimas intenções de voto e ver que se encontram relegados para uns vergonhosos 18 e tal por cento. Os sinos deveriam estar a tocar a rebate e as tropas reunidas. Em contraponto, verifica-se uma campanha amorfa, sem debate, sem grande participação.
Poderá o futuro da direita passar por aqui?
Mesmo concedendo o benefício da dúvida, tenho sérias dúvidas. A bem do país, a direita precisa urgentemente de um rumo novo e de gente nova, de rostos novos, capazes de liderar e de aglutinar.
P.S. – “Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – ‘atrasado’, termo que considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O Sr. arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto, acima de tudo, o modernismo e a famosa ‘efficiency’”. Isto é um excerto da carta enviada por Salazar a A. Makinsky (representante da “Coca-Cola” na Europa). É a esta imagem simbólica de uma direita ultramontana que a esquerda procura colar toda a direita portuguesa. Chegue-se à frente quem seja capaz de libertar a direita, lhe permita acertar-se com o seu passado e dar-lhe um futuro. ■
A montanha pariu um rato por Pedro Gil Gagean
No próximo dia 28 de Maio o PSD vai a eleições. Ninguém diria.
A falta de interesse nacional nas eleições internas do maior partido da oposição é sintomático do estado a que o PSD chegou. Após os anos de liderança fracassada de Rui Rio, que teve os piores resultados de sempre em legislativas e europeias, era expectável que os sociais-democratas se renovassem e se mostrassem de roupas lavadas e com outro ânimo.
Mas eis que a montanha pariu um rato. Luís Montenegro volta a candidatar-se e Jorge Moreira da Silva é praticamente um desconhecido da população em geral. Muitos ansiavam por Miguel Poiares Maduro, mas este achou que ainda não era tempo para avançar para a liderança do partido.
Luís Montenegro está muito ligado à oposição interna e externa que fez à liderança de Rui Rio e anda a preparar a sua recandidatura há três anos, mas aparentemente ainda não se sente confiante. Montenegro andou a acusar Rio de ser muito brando com António Costa, mas depois furta-se ao debate com o seu opositor. A mensagem que passa ao eleitorado é que durante estes três anos nada preparou, ou que nada de novo tem para dizer aos seus militantes.
A grande novidade que Montenegro traz para a discussão é o levantamento do cerco sanitário que fará, se chegar à liderança do partido, não excluindo uma aliança com o Chega. Esta é talvez a afirmação mais forte do candidato oriundo de Espinho, pois sabe que da forma como o eleitorado de direita está divido esta é a única forma de tirar o PS e António Costa do poder.
Jorge Moreira da Silva terá um currículo mais vasto do que Luís Montenegro, mas o ex-ministro do Ambiente tem pela frente vários obstáculos contra si, a começar pelo facto de ser um desconhecido fora da esfera política do PSD. Apresenta-se como um sucessor de Pedro Passos Coelho, com o que isso tem de bom ou de mau perante o eleitorado. Tem referido “ad nauseum” a questão do ambiente, que embora seja um tema que está na ordem do dia, na conjectura actual diz muito pouco às pessoas fora do activismo político e ambiental. Estas estão mais preocupadas com a inflação e a perda do poder de compra, do que continuar a subsidiar associações com o que pagam pelos sacos de cada vez que vão às compras.
Com isto não quero dizer que as preocupações ambientais sejam uma bandeira exclusiva da extrema-esquerda, muito pelo contrário, basta lembramo-nos que as questões ambientais foram introduzidas no diálogo político pelo saudoso Gonçalo Ribeiro Telles, um monárquico de costela cheia.
É nestas batalhas que os candidatos se deveriam aplicar, em retirar à esquerda as suas bandeiras e fazerem regressar à direita questões como a cultura, ambiente, academia, previdência e educação.
Se não o fizerem irão reduzir o PSD a um partido de um dígito nas próximas eleições.
Com o desaparecimento do CDS, o crescimento do Chega e da IL o futuro dos sociais-democratas pode ser negro. Os conservadores cristãos já encontraram outro porto de abrigo e os liberais tem um novo representante na Assembleia da Republica. Urge ao PSD voltar a falar para os jovens e os mais desfavorecidos que não se revêem nas políticas de subsidiozinho para melhorarem a sua vida e os fazer sair de uma vida sem expectativas.
P.S. – Sérgio Sousa Pinto continua a fazer mais oposição à extrema-esquerda do que toda a direita junta. Ainda esta semana, com a proposta do Livre para a circulação em Lisboa, foi o único a publicamente se mostrar contra mais uma proposta inútil do partido de Rui Tavares.
Ai, como era bom que a direita tivesse um Sérgio Sousa Pinto, sem medo das palavras e sem medo do politicamente correcto. ■




