Inundações em Lisboa: 15 anos de inércia de Costa e Medina

Vai ou não a Câmara avançar com este projecto estruturante e fundamental para a cidade?”

Esta foi a pergunta que coloquei ao executivo socialista na sessão de 20 de Dezembro de 2018 (sim, já lá vão 4 anos), quando a Assembleia Municipal de Lisboa discutiu e votou o Orçamento e Grandes Opções do Plano para 2019, apesar da ausência do Presidente da Câmara. O projecto ao qual fazia referência era o hoje já famoso Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL).

Não sei aliás se não lhe deveríamos chamar antes Plano Geral de Derrapagem de Lisboa, atendendo a tudo aquilo que foi o seu historial na autarquia. A ideia do plano surge no mandato de Pedro Santana Lopes como Presidente da Câmara (2002-2005), começa então a ser trabalhada, e é no mandato de Carmona Rodrigues que, em 2006, é elaborado o plano. Em 2008, já com António Costa na condução dos destinos alfacinhas, a Câmara aprova a versão final do plano de drenagem que acaba no entanto por não ter sequência.

Seis anos depois, o tema ressurge com força, no seguimento de novos episódios de cheias que ocorreram em Lisboa, em 2014. Nesse ano a Câmara socialista lança a actualização do plano de 2008. Em 2015, já com Fernando Medina a presidir à CML, é anunciada e aprovada uma nova versão do PGDL 2016-2030, já prevendo esta a construção dos dois famosos túneis de que tanto se fala agora.

Na apresentação, com direito a reportagem televisiva, Medina anuncia que a obra dos túneis irá ser lançada em 2016 e estará concluída em 2019. Mas tal não aconteceu. Posteriormente a Câmara socialista volta a apontar uma nova data para a conclusão dos túneis (2021) mas, uma vez mais, não acontece. Chegamos assim a 2022 e o executivo de Carlos Moedas anuncia, finalmente, não a conclusão mas o arranque da obra no início de 2023, com prazo de conclusão previsto para 2025.

Ao fim de 20 anos (15 dos quais com o Partido Socialista a governar a Câmara, sempre com um executivo maioritário de vereadores, fosse sozinho, fosse em coligação) o plano continua sem estar concluído. Mas anúncios, propaganda e promessas não faltaram ao longo destes anos. Aliás, o PGDL é apenas mais um caso prático entre uma cidade de narrativas e a vida real. Também prometeram 6 mil casas de renda acessível que não concretizaram. Anunciaram uma feira popular em Carnide que nunca saiu do papel. Prometeram 14 novos centros de saúde na cidade, num protocolo firmado com a ARS de Lisboa e Vale do Tejo, mas o prazo e o protocolo terminaram sem que nenhum estivesse pronto. Alguns deles tiveram mesmo que voltar à estaca zero, pois até a proeza de projectar construir em terrenos que não eram da Câmara conseguiram.

Regressando ao PGDL, esperemos que seja de facto desta que a construção dos túneis avance, pois já se perdeu demasiado tempo. Não que estes sejam a solução milagrosa que irá resolver definitivamente o problema, pois tal não é verdade. Os túneis assegurarão uma mitigação entre 70 e 80% dos problemas das inundações decorrentes de eventos pluviais extremos, o que não deixa de ser muitíssimo relevante e, salvo situações muito excepcionais, permitirá que não voltemos a assistir a imagens de destruição e desespero como as que vimos nos últimos dias.

A concretização desta obra irá provocar grandes constrangimentos na cidade, nomeadamente em termos de circulação em eixos importantes e centrais como sejam a Avenida da Liberdade ou a Almirante Reis. Serão tempos difíceis, com mais de 2 anos de estaleiros que causarão transtorno, mas pelos quais teremos de passar para evitar cenários piores. Lembremo-nos disso quando a obra finalmente arrancar. Vamos ver se é desta!

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