O elefante no meio da sala

O país que, não vai há muito, nenhuma indignação mostrou quando um (pseudo) humorista apelidou uma doente de cancro em estado terminal de “skinhead”, revolta-se agora, em uníssono e com direito a capas de jornal e espaço noticioso televisivo, por causa de um artigo de opinião de um jornalista relativamente à aparência física de duas apresentadoras da nossa praça. Ao que parece é muito mais grave tecer comentários relativamente ao estado mais roliço de uma Maria e à flacidez dos braços de uma Cristina, do que colar a mulher de um primeiro-ministro a um grupo violento e marginal de extrema-direita.

A tolerância que os meios de comunicação social e os profissionais do comentário sabujo e inútil lhe emprestaram na altura, desculpando-se com o “humor negro” do autor, não colhe. Primeiro, porque o autor há muito que é falho de humor, mantendo apenas o título, como se o mesmo fosse eterno ou estivesse escudado numa qualquer prova de aferição que se passou com mestria. Segundo, porque sempre haverá que operar a distinção entre aquilo que possa ser um humor mais cáustico, mais assertivo, mais direccionado, de um mero ataque pessoal. Terceiro – e este é que é o verdadeiro ponto fulcral – o “tweet” só foi perdoado, desculpado e esquecido, porque o pseudo-humorista é de esquerda e o visado era Passos Coelho. É lamentável, mas é assim que funciona…

O país que vive de passadeiras vermelhas, de “flashes” e de um conjunto de programas e imprensa cor-de-rosa que alcandorou uns tantos apaniguados à ribalta, sem que se lhes conheça qualquer mérito em especial, que não o de criticar, escarniar e dizer mal daqueles que não gostam, pariu uma onda de solidariedade quando tocou aos seus. Ou seja, esses, os tais iluminados, podem criticar vestidos, cabelos, pinturas, podem apelidar as outras de pindéricas, de gordas, de feias, compará-las a animais ou a bonecos da banda desenhada. Podem criticar o cabelo da Alexandra Reis e partilhar “memes” nas suas redes sociais da capilaridade pré e pós indemnização da TAP. Podem apelidar Ventura de fascista, de misógino, de racista e de tudo o que mais lhes apeteça, mas, em circunstância alguma, admitem opiniões relativamente a membros da sua classe, como se alguma vez lhe tivessem pertencido ou venham a pertencer…

Preocupa-me é que se dê importância a isto e palco a esta gente, como se isto fosse assunto. Alexandre Pais é quase octogenário e tem carreira firmada no jornalismo há quase seis décadas. Foi repórter, editor, redactor, chefe de redacção, chefe de departamento e director de informação. Dirigiu diversas publicações de referência, fez carreira na rádio, produziu séries para a televisão, escreveu livros e venceu prémios. Não atacou a Maria ou a Cristina, não as criticou profissionalmente, não as menorizou enquanto mulheres. Teceu um comentário relativamente ao seu padrão de beleza, numa opinião pessoal que apenas a ele vincula. Quem o criticou por julgar as aparências, optou, na maioria das vezes, por julgar a sua, expondo a sua magreza e condenado a sua calvície, como se isso o definisse ou lhe retirasse o direito de ter opinião – seja ela qual for!

Alexandre Pais podia ter evitado? Podia. Mas imolá-lo por opinar é, simplesmente, negar-lhe a liberdade de expressão que todos se acham no direito de usar, sem limites ou sem refreios. Não se trata de indignação ou de defesa de direitos, tanto mais que a Maria e a Cristina têm idade e arcaboiço para se defenderem se assim o entendessem. Trata-se de promoções pessoais, da busca de mais uns minutos de fama ou de uma tira num jornal. E, sobretudo, da mais profunda falta de noção da sua irrelevância e do nada que sempre têm para dizer. É o medo de que as luzes da ribalta se lhes apaguem sem que eles se apercebam e sem pré-aviso, já que o que lhes sobra é muito pouco…

O problema é que isto é transversal a outros sectores da sociedade e a protagonistas (que têm obrigação de ser) muito mais responsáveis. A semana passada, uma deputada socialista, cujo maior mérito que se lhe conhece é a capacidade de pintar as unhas nas sessões plenárias, teve que emitir uma nota relativamente a uma “fake news” associada ao seu nome e ao jornal “Público”, em que, genericamente, referia que a vítima aqui seria Abdul Bashir. E se Isabel tratou de denunciar a frase que lhe era atribuída, multiplicaram-se os colunistas, opinadores, papagaios e periquitos a seguir a deixa de vitimização do afegão, segundo a teoria institucional de que Portugal, enquanto país de acolhimento, teria obrigações, que não cumpriu, para com o refugiado afegão e, numa perspectiva mais pessoal, de que o mesmo, fruto de ter perdido a mulher num campo de refugiados na Grécia e de lhe ter sido negada a entrada na Suíça, estava num processo depressivo, plenamente justificado. Afinal, quem, nestas circunstâncias, não estaria?, sendo os dois homicídios perpetrados apenas um acto de desespero. E é nesta sucessão de opiniões irresponsáveis, em que se procura a afirmação pela ruptura, pela polémica e pelo desvio à normalidade, que vamos vivendo.

Ventura apontou o dedo ao elefante, não o fazendo da melhor forma – como, aliás, raramente o faz! – e com os excessos linguísticos que lhe são conhecidos. Há que discutir em que termos a Europa (em geral) e Portugal (em particular) pretendem receber, acolher e integrar os imigrantes, refugiados e asilados. Que condições e acompanhamento lhes pretendem e podem dar? Que contingentes e que barreiras devem ser definidos e impostos? Para tanto, quis chamar ao Parlamento o Ministro da Administração Interna, o que foi recusado pela esquerda. Poucos olharam para o elefante, preferindo olhar para o dedo.

Em Lisboa, juntaram-se centenas de manifestantes por causa das medidas da habitação. Depois de por lá terem passado os líderes do PCP e do Bloco, a mesma terminou com violência contra a polícia. Em Londres, milhares de pessoas, marchavam, empunhando cartazes a favor dos refugiados. Munido de um termo de aceitação para que cada manifestante acolhesse um em sua casa, foi interpelando-os não tendo havido um único (em várias dezenas que o vídeo testemunha) que aceitasse recebê-los. Quando questionados sobre qual a alternativa, não se conheceu qualquer opinião, repetindo-se os sorrisos, o encolher de ombros e o virar de costas. É que empunhar cartazes, gritar umas palavras de ordem e contornar o elefante dá pouco trabalho. Apenas um bocadinho mais do que verborrar contra um Alexandre, a troco de uns patacos e dos aplausos de quem controla os cordelinhos das marionetas…

É que não deixa de ser curioso que todos desviem o olhar! Afinal o elefante é roliço e também sofre de flacidez dos membros. Talvez se for refugiado e lhe pusermos um cartaz na tromba…

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