Já a destempo, seguramente, porque a verdade e os episódios marcantes de qualquer momento se esfumam na espuma dos dias mais rapidamente que os gelados da “Santini” demoram a derreter no pico do Verão, convirá sempre puxar atrás a fita do tempo (expressão tão em moda nos dias de hoje), para que possamos perceber, daqui por umas semanas ou uns meses, que o destino do país há muito estava traçado. Assim, caricaturando o Portugal que de hegemónico passou a glorioso e depois a pobre e periférico, para se tornar, agora, em ridículo e anedótico, encontrando na TAP o seu paradigma.
Reza então a história que, chegado ao poder, o PS entendeu, por questões estratégicas, de soberania e de manifesto interesse público, (re)nacionalizar uma companhia área que havia sido vendida, anos antes, por imposição das instâncias europeias, já que acumulava prejuízos e mostrava uma gestão altamente despesista e ineficiente. Ora, com aplausos da esquerda e parangonas de jornais, a coisa lá foi feita e a TAP voltou a ser controlada pelo Estado, com um jovem turco ao leme. Para mostrar que estava a falar a sério, contratou uma francesa com um nome impronunciável e um curriculum de falências de companhias aéreas, pagando-lhe uma pipa de massa. A TAP continuou a voar só da Portela e os portugueses de outras bandas impedidos de viajar para o estrangeiro. Mesmo os lisboetas só viajavam quando os pilotos, o pessoal de bordo, os controladores aéreos ou a malta do “handling” não estava em greve, ou seja, praí três ou quatro semanas por ano…
O ministro pôs-se em bicos de pés e anunciou ter a solução para o novo aeroporto de Lisboa (que, afinal, não ficava em Lisboa), para ser desmentido pelo primeiro-ministro e levar um valente puxão de orelhas em directo e nas televisões. Estremeceu, mas não caiu e foi-se mantendo até que a francesa e uma portuguesa com um corte de cabelo dos anos 70 se chatearam e esta veio embora da companhia com meio milhão no bolso até aterrar na secretaria de Estado das Finanças. Quando se percebeu que, do lado da TAP, havia sido a mulher do ministro a responsável pelo departamento jurídico que avalizou a indemnização, do lado da trabalhadora que o advogado era irmão do Presidente e do lado de fora (o que nos toca a nós, quando estamos atentos) que aquilo não fazia sentido nenhum, nem era legal, o tal do ministro deu à sola e só voltou a dar sinal de vida dias depois para, recorrendo à fita do tempo, confirmar que tinha autorizado o montante por “whatsapp”.
Ora, sai um turco, entra outro, sem barba, mas com brinco. A coisa até poderia ter corrido bem, mas há aquela mania de, às vezes, se querer perceber um bocadinho mais as coisas e toca de avançar com uma comissão de inquérito à TAP. O PS, que não consegue estar quieto, tratou de marcar uma reunião com a francesa para preparar as suas respostas na dita comissão. Ora, ninguém deu o guião à “avec” e ela desbocou-se toda, confirmando o encontro e apontando o dedo a Carlos Pereira, que mais parecia aquele tipo que dá uma mega bufa no elevador e olha para ambos os lados a ver se alguém percebeu que foi ele. Como o xoninhas do assessor do ministro que esteve na tal reunião não tinha boa memória, resolveu apontar umas notas num caderninho cor-de-rosa que trazia consigo e todo acagaçado quando percebeu que poderia ter que as revelar, temendo pela sua caligrafia tratou de avisar o ministro que já havia prontamente negado qualquer reunião. Como a corda rebenta sempre pelo lado mais fraco, o ministro foi lesto a despedir o cromo, por telefone (afinal há outra maneira de despedir assessores?). O tipo era xoninhas mas não era parvo de todo, pôs-se em cima da bicla e vai de pedalar até ao Ministério, ultrapassando vários paquistaneses da “Uber Eats”, e trata de estacionar o velocípede na garagem, subindo ao seu gabinete para levar consigo o computador que tinha a matéria que o poderia ilibar. Aí encontrou uma guarda pretoriana, chefiada pela chefe de gabinete e três amazonas que, ao primeiro abano, se refugiaram todas numa casa de banho. Aqui ficámos a saber que as casas de banho do Ministério devem ter as dimensões aproximadas de um T2 na Brandoa… Chegado ao parque de estacionamento, o xoninhas viu que a porta estava fechada, pôs a bicla às costas e dirigiu-se ao segurança que lhe transmitiu ter ordens de encerrar o edifício. À falta de cinzeiros, de vasos, cadeiras ou outro objecto que pudesse arremessar (vamos também partir do princípio que o xoninhas estava de havaianas e, como tal, impedido de desferir um valente pontapé) toca de arremessar a bicla contra o vidro, sem sucesso. Diz o dito, que foi ele a chamar a polícia. Da central telefónica que havia na casa de banho, lá contactaram o ministro, a polícia, o segurança e o INEM, mostrando a eficiência dos serviços públicos. Para azar do ministro, o Primeiro tinha o motorista de folga e não sabia operar o “Bluetooth”, pelo que, no escrupuloso cumprimento das regras da estrada, não atendeu (pudera, ao preço a que estão as multas…). Corre alguma tinta e o SIS liga ao xoninhas para devolver o IBM de 1997.
O ministro vem às televisões apresentar o “Política para totós”, levando consigo as assessoras estropiadas e a chefe de gabinete ainda em maca, mas a coisa não lhe corre bem…
Isto dá alguma algazarra e o Presidente chama o Primeiro a Belém para comerem uns pastéis e discutirem umas cenas. O ministro demite-se, o Primeiro não aceita e o Presidente dá um mega ralhete a ambos, empalando o ministro, espetando-lhe um ferro de ponta a ponta e pondo-o a rodar no espeto. O ministro, como não tem ponta de dignidade, assim se mantém, conseguindo resolver, miraculosamente, uma greve da CP que durava há várias semanas. O primeiro-ministro, como não tem ponta de vergonha, assobia para o lado e vai manter-se no (des)governo até ao final do ano, altura em que abdicará para ir para a Europa. O Presidente, como não tem ponta de coragem, fica-se pelo ralhete, garantindo, pela septuagésima segunda vez no seu mandato, que irá estar atento.
Na verdade, o seu maior dilema, é decidir qual o sabor do gelado… ■




