Esta semana estivemos a escassos minutos de ver o Governo de António Costa, o tal em que iriam ser quatro anos, onde o seu olhar nos desafiava no alto da sua poltrona, numa estética alusiva aos tempos Luisinos do Rei Sol, praticamente em queda livre e a ruir, tendo sido salvo às vinte e qualquer coisa da noite, já em apneia e a perder os sentidos pelo ar magnânimo do seu até aí maior aliado, para relembrar as palavras de um ex-secretário, não há muito tempo atrás, numa correspondência a que todos tivemos acesso e que contribuiu certamente para o quase auto-de-fé que teve lugar.
Tendo em conta esse facto, causa ainda maior estranheza e perplexidade para quem assistiu ao verdadeiro puxão de orelhas, a que já não estávamos habituados, (presumo que para tirar do lago e areias movediças em que o primeiro-ministro se atolou, ao conservar alguém que já estava à data em estado elevado de decomposição política, ética e moral no pântano onde eles têm prazer em chafurdar, que é o seu partido) que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, de forma muito resumida e audível, deu ao Governo, mostrando de uma forma veemente, e para que não restassem dúvidas, que não seria mais o intercessor deste junto das massas e opinião pública, onde se incluí, naturalmente, explicar ou traduzir as propostas e medidas que o Governo ia tomando de forma avulsa e sempre desarraigada e desprovida, quer de lógica, quer da continuidade, ou até mesmo de sentido, sobretudo, e o que é grave, o de estado.
Para quem já lhe caiu a ficha, como se costuma dizer, este é o verdadeiro retrato do que nos espera enquanto portugueses durante o remanescente desta legislatura, sem paralelo na história recente do país, isto, claro, se não houver antes um golpe de misericórdia desferido pelo agora ex-aliado, já não a figura de bonacheirão fanfarrão al(ap)ado da tal capa de revista a que fiz alusão no início deste artigo, e que na altura causou estranheza e caiu tão mal em tantos e tantos olhares, mas antes um Governo inteiro à deriva, composto por náufragos desesperados agarrados aos parcos elementos e tábuas que sobraram do desastre que lhes sobreveio, à procura de solo seguro para descansarem das suas longas maratonas, de costas e bruços argumentativos, metáfora bem conseguida e feliz, já que inclusive o seu timoneiro, de quem já falámos, foi enviado por parte de um “youtuber” – em pleno hemiciclo na semana anterior, durante uma visita ao Parlamento – para o cesto da gávea, presumo que de castigo, por ter conduzido toda a tripulação (leia-se cidadãos) desse mesmo navio ao desastre absoluto e onde um dos seus maiores defensores (e que o impedia de ir a bombordo e estibordo contra todas as intempéries e rochedos que se lhe apresentavam na sua dúbia, atabalhoada e incauta navegação à vista – de todos – e sem instrumentos adequados que o norteassem) salta agora da embarcação como se nada fosse e vem nadando como só ele o sabe fazer, (afinal de contas, estamos a falar de alguém que, no passado, para receber o voto e o amor do povo, passou o Tejo de um margem para a outra a nado) para o lado onde o povo há anos já se encontra expectante e descontente, que acena e vocifera transversalmente contra as medidas, assim como a conduta absolutamente reprovável, não apenas de um ministro ou um caso isolado, como pelo discurso transpareceu, mas de escândalos atrás de escândalos, numa cadência nunca antes vista e com gravidades várias que modelam o quotidiano deste Governo.
Desta feita, e da análise do pronunciamento do Presidente da República ao país, Costa sai bastante fragilizado, ao contrário do que ele próprio esperaria quando iniciou este processo tão característico seu de jogador exímio no tabuleiro de xadrez que é a politica, que domina, perdendo assim o tal aliado que servia de tampão ao ainda assim injustificável acto governativo posto em marcha pelos vários membros que dão pelo nome de ministros
A partir de agora, e para referência futura, paira incessantemente uma espada constante pela jugular do primeiro-ministro e de todo o executivo com uma lâmina extremamente afiada, a língua aguçada lancinante de Marcelo Rebelo de Sousa e os seus comentários robustecidos pelos poderes que a função lhe confere, isto é o seu magistério de influência e no limite a sua bomba atómica de dissolução parlamentar, instrumentos esses que deslizarão tão pronta e breve quanto surgirem mais e mais escândalos ou ocorram mais dissonâncias e divergências de opinião entre ambos.
Voltando à metáfora que encetamos anteriormente e que julgo caracterizar e até mesmo explicar o que se vive hoje na política portuguesa, há que relembrar que o fumo e a falta de manutenção já vinham de trás, o incêndio nas caldeiras, o vapor, e porque não dizer o fumo nas narinas e o saltar de tampa do Presidente da República que motivou esta situação era só uma questão de tempo e pecou por tardia, perante tanta incúria, incompetência e leviandade visíveis em várias pastas e diplomas. Convém relembrar para os mais distraídos que o naufrágio já se deu, e Costa sabe inclusive disso e sabe também que o “inóspito mar de perder de vista” onde se encontra agora está repleto de armadilhas tubarões e predadores, preparados para o devorarem, e que num raio de milhares de kms onde o desastre se deu, terra firme não irá encontrar. Resta-lhe, então, perante esta evidência, fazer o que melhor sabe durante os próximos meses/anos: fingir-se de morto, encolher-se, passar tempo e “empurrar” outros para a morte certa, sacrificando pelo meio uns quantos que ainda estejam “tenros” e suculentos, na esperança que a sua presença perante as rondas e vigílias dos seus antagonistas não vá sendo notada, dando-lhe muito jeito os cadáveres políticos que povoam agora o mar de escombros, como o ministro das Infra-estruturas e outros que se lhe sucederão no mar imenso de irregularidades que emana do seu partido. Inevitavelmente, e como bom sobrevivente que é, terá que proceder assim e ir (dis)traindo, pelo menos enquanto a ajuda internacional tão esperada não chega, é isto que lhe resta, até ao dia do seu hipotético resgate.
Quanto ao barco, que é o país, esse, visto de longe, embora pareça acima da linha de água, já perdeu a sua função e sobretudo segurança e para lá já não dará para regressar, pelo menos tão cedo. ■




