Muitos se indignaram quando Passos Coelho teve a ousadia de verbalizar uma evidência: quem, referindo-se aos professores e a outros desempregados com habilitações, não tivesse lugar no mercado de trabalho, deveria olhar para as alternativas que o estrangeiro poderia oferecer. Não tardou a que isto fosse lido como um convite à emigração ou, pior, a um “correr com os portugueses do país”.
Costa fez o mesmo em 2016, sem que caísse Carmo e Trindade.
Há, porém, diferenças de monta:
Se Passos salientou aquilo que era evidente para todos, em 2011, sob profundas restrições financeiras e contratuais impostas pela “Troika”, já Costa fê-lo num período em que tinha cessado a intervenção da mesma.
De igual forma, Passos fê-lo, de forma inocente, em resposta a uma pergunta colocada. Foi directo, frontal, mas pouco cauteloso, não se apercebendo da armadilha. Costa, deu a sugestão sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, aproveitando a visita do Chefe de Estado francês. Fê-lo com o conforto de poder dizer tudo o que lhe apetecesse, sabendo que seria perdoado ou olhado com a típica bonomia da comunicação social de esquerda, que jamais deixaria “a coisa” tomar outras proporções.
E, por último, fê-lo quebrando as promessas eleitorais, que, ainda hoje não cumpriu, de reposição dos anos de congelamento na progressão e salários da carreira docente.
Serve o lembrete para realçar os resultados das sondagens publicadas na passada semana relativamente à opinião dos portugueses sobre o Governo, o primeiro-ministro e a alternativa Luís Montenegro.
Segundo o “barómetro”, Costa continua a ter todas as condições para continuar ao leme do país, bastando que deixe cair Galamba! Ainda assim é verdadeiramente surpreendente a elevada percentagem de inquiridos que consideram que o ministro tem condições para se manter no cargo… Das duas uma:
– ou a sondagem foi feita por telefone para o Largo do Rato;
– ou os portugueses perderam, por completo, a noção dos valores e qualidades mínimas que os governantes devem possuir para, e sobretudo quando, exercem funções;
Inclino-me mais para a segunda, já que não me parece que, mesmo no Largo do Rato, haja tantas pessoas que desejem a continuação de Galamba…
E a maior preocupação não advém do resultado propriamente dito, antes da sua causa. Todos os dados estatísticos relevantes (que não os da macroeconomia, até porque esses dependem muito menos da política interna e estão bastante sujeitos a variáveis que o Governo não controla) apontam hoje um Portugal mais pobre, mais fraco, menos competitivo, menos qualificado, mais corrupto e com piores índices comparativos face a outros países que há menos de uma década seguiam bastante atrás de nós. Todas as políticas governativas, sem excepção, resultaram em redundantes falhanços.
O que leva, então, a que Costa mantenha o seu “estado de graça” nas sondagens?
São vários os factores, a começar pelo elevado número de dependentes, directos e indirectos, do Estado, todos eles mais confortáveis com regimes de esquerda e, sobretudo, com a manutenção do “status quo”. Qualquer mudança governativa poder-se-ia traduzir numa perda de rendimentos, subsídios ou oportunidades.
Segundo, porque há muito que se promove o individualismo capeado por uma falsa solidariedade social. Ou seja, primeiro eu, depois eu e por último eu… Depois de eu estar muito bem, então fazer acções de solidariedade de monta, que garantam capas de jornal ou abertura de noticiários para mostrar o quão caridoso eu sou. Ou dito de modo mais cru: é como roubar a 50 para poder dar a 10, relevando a oferta e não o crime. É esta a cultura que se promoveu, à custa do indivíduo e das minorias e nunca a olhar para a sociedade como um todo, fazendo-a crescer de forma equilibrada e, sobretudo, sustentável.
Por último – e mais grave – a cobertura e ênfase comunicacional que se dá às notícias e aos personagens. Costa é um comunicador nato porque assim lho permitem. Porque quase nunca é questionado com perguntas incómodas e, nas raras vezes em que tal sucede, foge delas como o Diabo da cruz, com a complacência dos jornalistas que aceitam qualquer resposta ou justificação. É que, muito para lá dos interesses obscuros da comunicação social – a começar pelas fontes estatais de financiamento – a classe jornalística é, tendencialmente fraca e os poucos que têm conhecimentos e capacidade para fazer perguntas incómodas encontram-se manietados pelas redacções e administrações, vendo-se forçados a abdicar da sua independência e isenção pela garantia do cheque mensal.
Entenderam, então, as administrações mascarar essa pretensa independência com uma caterva de “opinion makers”, comentadores ou pretensos analistas, que pouco ou nada sabem e que desfazem em discursos redondos, também eles, afinal, subjugados aos milhares de euros que as suas intervenções representam.
Em qualquer país onde houvesse verdadeiro jornalismo, Galamba há muito que não seria ministro, assim como Medina, João Costa, Duarte Cordeiro ou Maria do Céu Antunes. Nem seriam permitidas as diatribes de que Santos Silva tanto abusa. E, acima de tudo, jamais Costa beneficiaria da complacência dos portugueses e de Marcelo.
O tratamento das peças jornalísticas e da importância que se lhes dá é parcial e condiciona a opinião pública. Bateu no fundo e mais ainda baterá quando estiver verdadeiramente em causa a sobrevivência política de Costa e dos seus apaniguados.
Já agora – e só por mera curiosidade – alguém é capaz de publicar o número de jovens qualificados que emigraram nos últimos oito anos e confrontar o primeiro-ministro com eles?
Ou também são ficheiros classificados? ■




