Para Mário Centeno, Portugal é o “país das maravilhas”, “tudo está bem” e o que foi feito está certo. Disse ele: o país tem investido muito na educação, os jovens são cada vez mais qualificados; o país está a crescer mais que a U.E. e a criar empregos qualificados e bem pagos suficientes para eles; o rendimento disponível dos 20% mais pobres da população, após deduzir os aumentos de preços e das taxas de juro, aumentou 21% em 2020/21, e o dos 20% mais ricos só teve um aumento de 12%; os juros dos depósitos não podem subir porque os bancos precisam de obter enormes lucros para compensar os que não tiveram no passado; as taxas de Euribor vão continuar a subir até, pelo menos, ao 4º trimestre de 2023, mas os salários não podem aumentar para não estragar.
Com o sorriso zombeteiro que o caracteriza, Centeno fez um conjunto de afirmações que, pelo desfasamento da realidade económica e pela sua insensibilidade social, devia merecer a atenção e a preocupação dos portugueses, e uma resposta clara. E isto devido à importância do lugar que ocupa.
É certo que estamos habituados às previsões de Mário Centeno, que depois não se cumprem. Em Maio de 2022 Centeno afirmou que a inflação “tem uma natureza que avaliamos como temporária”, e “continuamos a não identificar nenhuma natureza interna endógena ao fenómeno de formação dos preços que não sejam estas raízes temporárias” (Sol, 6/5/2022), e depois foi o que se viu.
É certo que Mário Centeno, que ganha mais 33,6% que o próprio presidente do Banco Central dos E.U.A. (a “Fed”), vive num mundo que não é o real dos portugueses. A sua passagem pelo ministério das Finanças foi um desastre para o país, embora a propaganda oficial procure convencer a opinião pública do contrário e ele próprio esteja convencido também disso. Para reduzir o défice orçamental da forma como o fez, e assim ser considerado em Bruxelas como o “Ronaldo da redução do défice”, que é a porta giratória para o acesso a altos cargos na U.E., cortou brutalmente no investimento público o que causou a ruina dos equipamentos públicos e a degradação das condições de vida dos portugueses. São exemplos a falta e a degradação das escolas e hospitais existentes, dos transportes públicos e de outras infra-estruturas básicas indispensáveis para o desenvolvimento do país, contribuindo assim para o seu atraso em relação a outros paí-
ses da U.E.. Infelizmente deixou discípulos como Leão e Medina.
Como se isso não fosse suficiente, tem-se multiplicado em conferências a órgãos nacionais e estrangeiros, sem contraditório (os interlocutores parecem estar ali apenas a compor o “ramalhete”, pois ficam passivos perante os maiores disparates) a defender o aumento das taxas de juro do BCE, contra os aumentos de salários e os interesses da banca, sob o pretexto de defesa dos depositantes.
Estranha teoria
económica
Na entrevista que deu à televisão “RTP-3”, Mário Centeno, confrontado com a pergunta sobre se os bancos deviam aumentar as taxas de juro pagas aos depositantes, respondeu com uma estranha “teoria económica” que nada tem a ver com economia, mas sim com a defesa dos enormes lucros que estão a obter os bancos à custa dos clientes.
Para tornar o assunto mais técnico e mais convincente para os não familiarizados com a contabilidade bancária, Mário Centeno começou por falar da “margem financeira”, que é a diferença entre juros cobrados e juros pagos pela banca, para dizer que ela tinha sido muito baixa nos anos anteriores e que os enormes lucros apropriados agora pela banca eram para recompensar os que não tinham obtido nesses anos. Chegou mesmo ao desplante de utilizar isto como argumento: se a média dos lucros fosse feita para um período de 10 anos concluía-se que eles não eram exorbitantes.
Mário Centeno esqueceu-se de referir (talvez isso não interessasse para o que pretendia defender) que, mesmo em 2022, cerca de metade dos depósitos na banca não eram remunerados. Dois exemplos apenas entre muitos que provam isso. Em 2022, segundo o relatório e contas, o BCP dos 75.430 milhões de euros de depósitos que detinha, 48.673 milhões (64,5%) eram depósitos não remunerados; na CGD, no mesmo ano, dos 81.575 milhões de euros de depósitos de clientes, 46.083 milhões (56,5%) eram depósitos não remunerados.
Embora, entre 2021 e 2022, o crédito concedido pelo BCP tenha diminuído de 58.231 milhões de euros para 57.713 milhões (menos 518 milhões €), os juros cobrados por este banco aumentaram de 1.411 milhões de euros para 2.150 milhões no mesmo período (+52,4%). Situação semelhante se verificou na CGD. Entre 2021 e 2022, o crédito diminuiu de 53.032 milhões euros para 51.989 milhões, (-1.043 milhões) mas os juros cobrados subiram de 1.428,2 milhões para 1.865,1 milhões de euros.
Para além disso, em 2022, o BCP cobrou aos clientes 943,8 milhões de euros e a CGD 755,9 milhões em comissões. A exploração de depositantes e clientes é clara. E não é do Banco de Portugal com pessoas como Mário Centeno que depositantes e clientes têm qualquer protecção.
A realidade é outra
Mário Centeno, confrontado com a questão sobre os milhares de jovens licenciados têm abandonado o país, porque não se conseguem encontrar nele empregos e remunerações dignas e adequadas para as qualificações que têm, respondeu, para surpresa de todos que conhecem essa realidade, que isso era um mito. E para provar afirmou que, desde 2019, tinham sido criados em Portugal 112.000 empregos qualificados no comércio, consultoria e do imobiliário, enquanto o turismo e restauração tinha criado 44.000 empregos. E que as remunerações pagas nos sectores que dominou altamente qualificados eram de 1.800 euros superiores à média.
No entanto a realidade é, infelizmente, bem diferente. Portugal importa actualmente trabalhadores pouco qualificados e exporta trabalhadores qualificados porque não cria empregos qualificados suficientes, contrariamente ao que pretende fazer crer Centeno.
Centeno disse que, entre 2020/2021, os 20% mais pobres da população viram aumentar o seu rendimento disponível em 21%, depois de deduzir os aumentos de preços da alimentação, energia e taxas de juro, e o rendimento disponível dos 20% mais ricos aumentou apenas 12%
Para mostrar que esta afirmação de Mário Centeno não é para levar a sério basta analisar a evolução da situação dos pensionistas no nosso país, que representam cerca de 30% da população portuguesa. Contrariamente ao que afirmou Mário Centeno o rendimento disponível dos 20% da população mais pobre não aumentou 21% em 2020/2021. A maioria esmagadora dos pensionistas está nesse grupo e, em 2020/2021, a pensão média total dos 3.131.299 pensionistas aumentou apenas 2 euros, isto é 0,5% (entre 2019 e 2022, o poder de compra da pensão média de invalidez diminuiu -4,9%, da velhice -2,6% e de invalidez -1,2%). Entre 2022 e 2023, as pensões aumentaram em média 6,7% e inflação deve aumentar cerca de 6%. A situação de pobreza da esmagadora maioria dos pensionistas continua.
Centeno não tem limites na sua arrogância, desfaçatez e insensibilidade social. Na entrevista que deu à RTP-3 afirmou que os aumentos dos salários em Portugal podem “estragar” o que o Banco Central Europeu está a fazer, ou seja, baixar inflação à custa da redução da procura, isto é, aumentando também a pobreza. Faz lembrar a fábula de La Fontaine “o lobo e o cordeiro”… ■




