A queda do regime de Bashar al-Assad, que marcou o fim de um ciclo brutal na Síria, não é o fim de um sofrimento, mas possivelmente o começo de um capítulo ainda mais sombrio. A Síria, durante anos marcada pela repressão, pela violência e pelo uso de armas químicas contra o seu próprio povo, está agora diante de um futuro incerto. O que inicialmente poderia ser visto como uma vitória para a democracia e para a liberdade está a ser eclipsado por uma ascensão ainda mais perigosa de forças jihadistas, que tomam o poder, com Ahmed Al Sharaa à frente, impondo uma nova realidade no país.
Este novo capítulo parece um reflexo de tendências geopolíticas observadas noutros contextos do Oriente Médio, como o Afeganistão e a Líbia, onde as quedas de ditaduras se traduziram não na paz, mas em um vácuo de poder preenchido por extremistas. O facto de a vitória contra Assad poder significar a ascensão de forças ainda mais radicais, que agora se posicionam como os novos governantes, traz à tona questões desconfortáveis sobre as consequências de um regime mais tolerado pelo Ocidente do que é frequentemente admitido.
Novo talibã ou uma revolução radical?
Ahmed Al Sharaa, líder de um movimento jihadista agora com crescente influência na Síria, é uma figura que representa uma viragem drástica. Assim como o talibã no Afeganistão, Al Sharaa visa implementar um regime islâmico radical, com uma forte rejeição a qualquer influência ocidental. O movimento jihadista, liderado por ele, é ideologicamente mais alinhado com os interesses da Al-Qaeda e outros grupos terroristas. O apoio da população síria a esse movimento pode ser devido ao desespero de quem viveu anos sob o regime de Assad, mas as suas políticas radicais e repressivas, especialmente em relação às mulheres e aos direitos humanos, ameaçam transformar a Síria num novo bastião do extremismo.
A ascensão de Al Sharaa traz à tona um debate crucial: o que está o Ocidente realmente a apoiar? Se Assad era uma ditadura brutal, a ascensão de grupos jihadistas que defendem uma ideologia igualmente opressiva, se não mais, representa uma vitória verdadeira?
O colapso de Kadafi e o caos pós-ditatorial
O que aconteceu na Líbia após a queda de Muammar Kadafi é uma lição clara sobre o perigo de não se ter uma estratégia pós-conflito. Quando Kadafi foi deposto em 2011, a Líbia entrou num período de instabilidade profunda. A ausência de um governo central eficaz permitiu que milícias rivais e grupos extremistas, como os da Al-Qaeda e Estado Islâmico, tomassem o controle de várias regiões do país. Essa situação ilustra como a remoção de um ditador não pode ser vista como uma vitória, a menos que seja seguida de um processo claro de reconciliação e construção de um Estado.
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