A coreografia do medo e a engenharia da obediência

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1902

Durante anos, venderam-nos certeza com a arrogância de quem não admite réplica. O governo de António Costa não governou apenas uma crise sanitária, encenou uma narrativa onde o Estado nunca duvida, nunca hesita, nunca erra. E quem ousasse levantar a sobrancelha era imediatamente promovido a herege cívico.
A Direção Geral de Saúde transformou-se num púlpito. Não de ciência, mas de autoridade. E há uma diferença abissal entre as duas. A ciência questiona, ajusta, corrige-se. A autoridade impõe. E foi isso que se viu: um discurso fechado, impermeável, blindado contra qualquer interrogação que não viesse com selo de aprovação oficial.
O país foi conduzido, não informado. Empurrado, coagido, não convencido. Entre campanhas emocionalmente carregadas e medidas sucessivas, instalou-se um ambiente onde a liberdade era formal, mas a escolha já vinha pré-formatada. Não foi uma ordem direta. Foi mais eficaz do que isso: foi uma pressão difusa, constante, socialmente validada. Uma pedagogia do medo, uma engenharia da obediência.
E agora? Agora surgem notícias incómodas, perguntas tardias, investigações que deveriam ter começado quando ainda havia tempo para respostas claras. Durante meses, anos até, garantiu-se ao país que não havia nada a questionar. Nada. Zero. A dúvida era tratada como desinformação antes sequer de ser analisada. Os questionistas foram perseguidos, ameaçados, cancelados e alvos de perseguição discriminatória, sem apelo nem agravo, só porque duvidaram da solução milagrosa, que surgiu, inacreditavelmente em tempo record, quando se sabe que um processo de desenvolvimento e aprovação de uma vacina, para estar formalmente disponível para a população, em segurança, demora na totalidade, dez a quinze anos, ou até mais, depois de passar formalmente por todas as fases.
Hoje, já não é possível sustentar essa pose autoritária, sem fissuras.
Hoje em dia apercebemo-nos de que, o mais grave não é apenas o que pode ou não vir a confirmar-se. O mais grave é o ambiente que foi criado: um espaço público onde a crítica foi desencorajada, onde o debate foi empobrecido e onde a prudência — essa mesma prudência que a ciência exige — foi substituída por uma certeza quase dogmática.
Governar em crise não dá carta branca para moldar a realidade à conveniência política nacional ou europeia. E muito menos para transformar cidadãos em figurantes de uma narrativa oficial, ditatorial e punitiva, que não admite contraditório.
A fatura não é apenas sanitária. É institucional. É moral. É democrática.
Porque quando um governo decide que a verdade pode ser simplificada até à obediência, arrisca-se a algo muito mais perigoso do que a contestação: arrisca-se a perder, de forma duradoura, a confiança de quem governa.
E essa, ao contrário de qualquer campanha, não se recupera com slogans.