Caldo entornado à esquerda

António Costa bem queria aproveitar a crise do vírus para neutralizar qualquer esboço de oposição ao inevitável “aperto do cinto”. Mas a extrema-esquerda, como sempre, furou-lhe as contas e já ameaça com guerrilha no pós-Covid.

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Era a conjuntura ideal para António Costa impor a sua ‘pax’ aos partidos do sistema: leis de emergência em vigor, pânico na saúde pública e nuvens carregadas na economia constituíam um quadro de excepção que, para o primeiro-ministro, justificaria um “pacto” informal de aceitação de medidas de crise. Mais concretamente, o “aperto de cinto” tornado praticamente inevitável após dois meses de paralisação total da economia.

Costa foi fazendo avisos e largando “deixas”, primeiro ao sugerir que as previsões orçamentais sofreriam um rombo considerável, finalmente a admitir abertamente que o sistema económico precisa de fazer face ao ‘tsunami’ que o devastou (e continua a devastar), nomeadamente através de leis laborais mais flexíveis e política financeira mais dura. Numa palavra: austeridade.

Mas a extrema-esquerda não gosta da palavra. Para ela, o único verbo conjugável em Portugal é “gastar”: coisas maçadoras como produzir, fazer contas, racionalizar ou poupar são manifestações de “fascismo” – mesmo quando já raparam o fundo ao tacho com exigências de rico num dos países mais pobres e endividados da União Europeia.

A reacção pronta veio da dirigente leninista Catarina Martins, que declarou peremptoriamente que “o BE não aceitará a austeridade” pós-Covid. Num longo arrazoado cheio de chavões sobre “recuperação” e “contra-ciclo”, Martins prometeu um futuro de guerrilha se o Governo não acatar as soluções esquerdistas: “é uma discussão que tem a ver com estratégia, e essa é a grande escolha que o Governo vai ter de fazer”, disse.

António Costa não tardou a responder. Aproveitando uma entrevista à agência Lusa, o primeiro-ministro afirmou que ficaria desiludido se só pudesse contar com o BE e o PCP em tempos de “vacas gordas e em que a economia está a crescer”. Sublinhando que o combate à crise do Covid-19 “até aproximou os partidos” (uma frase destinada a mostrar como a extrema-esquerda está isolada na sua recusa em compreender a necessidade de “apertar o cinto”), Costa usou ironia ao referir que muita gente pensa que “o PCP e o Bloco de Esquerda carecem do sentido de responsabilidade para compreender que a vida política não é só aumentos de salário e aumentos de direitos”. E acrescentou, sempre irónico: “eles sabem também que a vida política significa, por exemplo, a necessidade de recuperação económica e social do país, que exige, de facto, um esforço colectivo”. Tentando isolar ainda mais o BE, Costa referiu ainda que o Partido Comunista “tem tido uma postura muito construtiva em todo este processo”…

Mas o pingue-pongue não estava ainda encerrado. Numa mensagem vídeo distribuída pelas redes sociais, Catarina Martins respondeu em directo: “António Costa fala no fim do tempo das vacas gordas, mas será que ele alguma vez existiu?”. “A lógica é sempre da falhada austeridade da troika. Quando a economia está mal, o Estado também corta, e esse é um erro tremendo” – disse Martins, sem explicar onde tenciona encontrar o dinheiro para “não cortar”, se o Estado não o tiver.

Mais realista do que o socialista e a bloquista revelou-se, no fim de contas, o constitucionalista Vital Moreira, que antes de se tornar um moderado foi destacado dirigente comunista. Falando do que conhece, Vital escreveu nas redes sociais que Costa “não pode ser sincero quando declara que ficaria muito desiludido se tivéssemos de chegar à conclusão de que só podemos contar com o PCP e com o BE em momentos de vacas gordas”. E explicou: “Não há nenhum motivo para desilusão, pela simples razão de que era manifestamente indevida tal ilusão”. Segundo o ex-PCP, “é evidente que, para a extrema-esquerda, governar é aumentar a despesa, independentemente das conjunturas”.

Vital Moreira conclui recordando que a geringonça só foi possível enquanto jorrou dinheiro: “o crescimento económico, a redução dos encargos da dívida pública (cortesia do BCE) e o corte no investimento público permitiram libertar muitos milhões de euros por ano para satisfazer as insaciá-
veis reivindicações orçamentais daqueles dois partidos”.

Nós não diríamos melhor… ■