Mário Centeno, o único adulto deste Governo…

“Mário Centeno, o único adulto deste Governo, fez bem em negociar o acordo possível, o que não satisfaz os críticos da União Europeia, que acham que os povos do Norte têm a obrigação de nos sustentar sem que nós próprios façamos grande coisa para isso”

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Acabo de saber que na Câmara Municipal de Lisboa foi aprovada, por maioria e com os votos contra do Partido Socialista, a decisão de recusar a construção da Linha Circular do Metro que ligaria a estação do Rato ao Cais de Sodré. Em presença desta decisão, não sabemos o que decidirá o Governo, não apenas em relação a este investimento, mas também em relação às restantes grandes obras públicas previstas: aeroporto do Montijo e a ferrovia de ligação a Badajoz em via única e bitola ibérica.

Depois da desistência de construir um novo porto no Barreiro, a Linha Circular é a segunda vitória do bom senso e da correcta avaliação do futuro da mobilidade em Portugal, quer para passageiros quer para mercadorias, e bem estiveram todos os partidos que votaram contra as ideias do Governo acerca do Metro. O que levanta a questão sobre o que há a fazer neste domínio, no contexto da presente crise provocada pelo Covid-19.

Todos sabemos que Portugal irá enfrentar uma forte recessão em 2020 e, no mínimo, no próximo ano, tendo de enfrentar um défice elevado no Orçamento do Estado e uma grave crise financeira, nomeadamente por força da dívida excessiva do Estado. Tudo isso apesar das decisões de apoio financeiro da União Europeia para esta primeira fase da crise, apoios que, em grande parte, aumentarão a dívida, dado que são empréstimos e não dádivas.  

Perante esta situação, o Governo tem à sua frente três opções: (1) parar ou adiar todas as obras públicas previstas; (2) continuar a construção da Linha Circular, do aeroporto do Montijo e da ferrovia em bitola ibérica como decidido antes; (3) Reavaliar as decisões assumidas antes e ouvir os argumentos das pessoas e das instituições que se mostraram críticas das decisões do Governo e realizar um verdadeiro debate público com o objectivo de rever a questão na perspetiva do médio e do longo prazo. Devendo, igualmente, ouvir a posição do Conselho Superior de Obras Públicas, penso que se chama assim, que o Governo criou depois de José Sócrates o ter eliminado, mas cuja real existência não se conhece até ao momento.

Dadas as posições assumidas neste debate por um grupo de cidadãos com experiência no sector, posições tornadas públicas ao longo dos últimos três anos, com a publicação de um Manifesto e a organização de uma conferência na Ordem dos Engenheiros com a participação do Senhor Presidente da República e do então ministro do sector, onde foram apresentadas soluções alternativas para a reforma ferroviária, posições que vão no mesmo sentido das assumidas pela CIP, pela AFIA e por muitos empresários portugueses, nomeadamente do importante sector automóvel. Pessoalmente, penso que apenas a terceira alternativa de repensar as anteriores decisões do Governo serve bem o futuro da economia portuguesa.   

Penso também que no actual contexto de crise do Covid-19 o Governo não pode deixar de potenciar a recuperação da economia, não criando obstáculos  às empresas no seu processo de recuperação e optando por manter um nível razoável de investimento público que, a nosso ver, deve privilegiar a logística ferroviária e marítima, condição para atrair o investimento industrial estrangeiro, num tempo em que as grandes empresas globais vão reavaliar as suas estratégias de investimento, nomea-
damente no novo contexto de receio do poderio chinês. Não menos importante, potenciar as exportações nacionais, condição essencial para podermos pensar em não ter de pedir novamente a ajuda internacional pela quarta vez em trinta anos. Sem esquecer que não devemos desperdiçar os apoios da União Europeia, destinados exactamente à construção ferroviária do Corredor Atlântico, a exemplo do que a Espanha e os países do Leste da União Europeia estão a fazer há anos.

Todos sabemos que a vida do Governo de António Costa nos próximos anos não será fácil e que os constrangimentos e as dificuldades serão mais do que muitos. Todavia, a opção é clara: ou aproveitamos a oportunidade de pensar a mudança com os olhos postos no futuro e recusando as políticas recuadas de curto prazo privilegiadas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, ou nada feito. A crise que enfrentamos só pode ser vencida de forma duradoura com os olhos postos no futuro, com nervos de aço e assumindo as medidas que possam ser olhadas com respeito pelos portugueses, mas também pela União Europeia, de onde terão de chegar muitos dos recursos necessários.

O Bloco de Esquerda já anunciou que não aceita uma nova austeridade, o que para o Bloco de Esquerda e para o PCP quer dizer consumir mais dinheiro sem estratégia económica e sem qualquer preocupação com o futuro dos portugueses, dado que as suas visões de futuro dirigem-se para a criação das condições favoráveis à revolução marxista e à tomada do poder, para o que a União Europeia é um obstáculo reconhecido. As suas propostas baseiam-se no enfraquecimento do sistema financeiro, na exclusão dos sectores privados no processo de recuperação, a irrealista garantia dos empregos sem produção e o objectivo de aproveitar tudo isso para proceder a nacionalizações. Ou seja, políticas que negam a possibilidade de reformar com visão a economia portuguesa, no sentido de colocar as exportações e a atracção do investimento estrangeiro na primeira linha de uma nova estratégia de renovação económica. O que pode e deve ser feito na defesa das classes sociais mais desfavorecidas, através de trabalho e da criação de mais empregos e não apenas através de apoios sociais que favorecem a inação e a dependência do Estado. Dependência que deve existir durante uma crise, mas que não se pode tornar um encargo permanente de uma economia do futuro. 

A União Europeia acaba de decidir comprometer cerca de 540 mil milhões de euros no apoio aos países europeus para ajudar a combater a crise da pandemia, além dos 750 mil milhões já destinados pelo BCE a comprar dívida dos países, praticamente sem juros. Mário Centeno, o único adulto deste Governo, fez bem em negociar o acordo possível, o que não satisfaz os críticos da União Europeia que acham que os povos do Norte têm a obrigação de nos sustentar, sem que nós próprios façamos grande coisa para isso. Críticos que aproveitam todas as oportunidades para pedir mais dinheiro, mas sem quaisquer alternativas credíveis. Por vezes têm razão, mas como partem sempre do princípio de que temos o direito a ser pobres e mal governados e se recusam a promover um modelo económico que não seja gastar o dinheiro dos outros, temos um modelo irreal em que nem todos os povos estão de acordo em pagar as nossas crises.

Durante vinte anos recebemos muitos milhares de milhões de euros da União Europeia, no reconhecimento do nosso atraso histórico, para promover o desenvolvimento e a modernização do País. Todavia, ao longo dos anos, desperdiçámos muito desse dinheiro em folias várias e na corrupção, para sermos ultrapassados pelos outros povos europeus na mesma situação, que, entretanto, têm feito alguma coisa pela vida.

Estes são alguns dos pontos que um Presidente da República menos lamechas deveria explicar aos portugueses, confrontando-nos com as nossas próprias insuficiências e apontando as alternativas para trabalhar mais e melhor e cumprir a nossa missão de deixarmos aos nossos filhos um País melhor e mais competitivo, em vez de apenas dívidas. 

Um Presidente que apontasse estratégias e caminhos para vencer as crises em que estamos metidos há trinta anos, que falasse verdade aos portugueses e compreendesse que não é sustentável ter cada vez mais famílias a sobreviver do apoio do Estado e de mão estendida na União Europeia. Senhor Presidente, onde está o orgulho em ser português? ■

Nota: no próximo número, clarificarei algumas soluções para a crise económica.