Tudo combinado para reeleger marcelo

O actual ocupante de Belém tem a corrida virtualmente ganha à partida, com o apoio explícito ou implícito do chamado “bloco central de interesses”. Resta saber se será um glorioso “passeio na avenida” – ou se as candidaturas alternativas que já fervilham conseguirão retirar a Rebelo de Sousa o prazer da apoteose “à Kim Jong-un”.

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Ferro Rodrigues, expressamente, e António Costa, implicitamente, apoiam a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a Presidente da República, e fizeram questão de o reafirmar publicamente. Que o presidente socialista do Parlamento e o líder do PS o tenham feito sem consultar o partido – eis algo que poderá vir a ter consequências. Para já, Ana Gomes, que se pusera fora da corrida, reconsiderou e diz agora que “vai reflectir” sobre uma possível candidatura na área da esquerda socialista.

É certo que as declarações extemporâneas de Ferro e Costa, na mesma semana, não destoam do habitual padrão socialista em matéria de presidenciais. Já nas últimas eleições para PR o Partido Socialista decidiu não dar apoio oficial a qualquer das candidaturas da área socialista, designadamente as de Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém. Essa é, aliás, a mais tradicional posição do PS. E em 2021 tudo indica que o partido poderá adoptar o mesmo caminho. 

O Presidente da Assembleia da República aproveitou o primeiro dia com restaurantes abertos para aceitar o convite de António Costa para almoçarem no Bairro Alto, e na manga tinha o apoio explícito à recandidatura de Marcelo, por mais que o actual PR ainda tente manter o discurso oficial de que só mais tarde tomará uma decisão. Toda a gente sabe que Rebelo de Sousa há muito tomou a decisão de permanecer em Belém por mais um mandato. Ele próprio o disse, há dias, ao visitar a AutoEuropa: “Eu cá estarei, este ano, no ano que vem e nos próximos”. Já nem tenta disfarçar…  

Ferro Rodrigues também não podia ter sido mais claro: “Não mudei uma vírgula daquilo que disse já há mais de um ano e meio”: “se as eleições fossem amanhã, não hesitaria em votar em Marcelo Rebelo de Sousa”, disse o presidente da Assembleia da República. “E não tenho motivos nenhuns para retirar essa afirmação”. Ainda assim, acrescentou: “Acho que ainda faltam seis meses para a campanha das eleições presidenciais. Portanto, vamos esperar que haja a apresentação de candidaturas”.

Depois de meses em que tudo girou em torno da pandemia, o tema das eleições presidenciais fez a política regressar em força ao espaço público. António Costa aproveitou uma entrevista à TSF para lembrar que “há um sentimento popular maioritário a favor da eventual reeleição do Presidente da República” e adiantou que o seu partido definirá posição sobre presidenciais “se entender que o deve fazer”. E frisou que, na história das eleições para PR, o seu partido “nunca lançou um candidato, optando antes pela regra de apoiar e pronunciar-se sobre candidatos que existiam”.

Neste cenário adiantou que “o momento para o PS se pronunciar sobre as presidenciais não será seguramente anterior a estar definido o quadro de candidatos”, apontou António Costa, antes de se referir com elogios ao mandato até agora exercido pelo Chefe de Estado. “Se as eleições fossem hoje, ninguém tem dúvidas em relação a quem as ganhava e com uma expressão muitíssimo grande. É manifesto qual é o sentimento popular, as pessoas apreciaram a forma como o actual Presidente da República tem exercido as suas funções. As pessoas não estão ansiosas de mudança, mas, sim, ansiosas de tranquilidade e de paz institucional”, defendeu.

Questionado sobre se votaria em Marcelo se as eleições presidenciais fossem hoje, António Costa alegou que o voto “é secreto” e que o Primeiro-Ministro “deve manter a regra de ter a consciência de que terá de trabalhar com qualquer que seja o Presidente da República escolhido pelos portugueses”. E acrescentou: “Nas eleições presidenciais devo ter um particular recato, ainda que como líder partidário possa e deva tomar uma posição quando o partido entender definir, e se a entender definir”.

Sucede, porém, que as juras de “particular recato” e a intenção teórica de esperar que o seu partido “tome uma decisão” entraram em choque frontal com as declarações que, dias antes, o mesmo António Costa fizera durante uma visita com Marcelo às instalações da AutoEuropa, em Palmela. Aí, de forma inequívoca, Costa disse, textual-
mente: “Viemos cá no primeiro ano do mandato do PR, viemos cá no último ano. A terceira data é óbvia: é no primeiro ano do próximo mandato do Presidente”. Se alguém ainda tivesse dúvidas, elas teriam ficado esclarecidas.

Quem não gostou de ouvir Costa “lançar” assim, sem pré-aviso, a candidatura de Marcelo foi Ana Gomes. Depois de o seu nome ter sido sugerido por Francisco Assis há escassos meses, a diplomata e ex-eurodeputada socialista assumira desde então a posição de que não iria ser candidata às presidenciais de 2021. Mas acaba de alterar esta posição. Ana Gomes afirmou agora que vai reflectir sobre as presidenciais, embora não ambicionasse ser candidata, mas que o faz por considerar que “mudou muita coisa” com o Primeiro-Ministro a antecipar um segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita à Autoeuropa.

No entender de Ana Gomes, “esse episódio é absolutamente lamentável e é deprimente mesmo” e “perigoso para a Democracia”, devendo provocar “uma reflexão” da sua parte e de todos os democratas, porque “de facto mudou muita coisa”. Questionada pela SIC sobre se admite mudar de ideias e candidatar-se a Presidente da República nas eleições de Janeiro próximo, a ex-eurodeputada respondeu: “Admito reflectir, é isso que vou fazer”. Já quando interrogada sobre quanto tempo demorará essa reflexão, retorquiu: “Não é só minha. Estamos a oito meses das eleições, ainda muita água vai correr debaixo das pontes”.

Enquanto militante do PS, Ana Gomes criticou duramente António Costa por este ter assumido uma posição sobre as presidenciais quando “não estava na qualidade sequer de dirigente partidário, mas na qualidade de Primeiro-Ministro”. Causticamente, observou: “a Democracia não está suspensa”, mas “parece que alguns pensam que está suspensa no PS”.

Mas as críticas foram também para Carlos César, presidente do PS, pelas suas declarações em que remeteu o Congresso do PS, previsto para este ano, para depois das eleições presidenciais, acusando-o de falar com “uma leviandade paternalista insuportável” (ver texto em caixa, nestas páginas).

Segundo a diplomata, Marcelo Rebelo de Sousa é hoje “um candidato do regime, que vai polarizar a sociedade e, no fundo, isso vai fazer o jogo, vai facilitar a vida dos extremos”, o que “é muito perigoso para a Democracia” num contexto em que existe uma “extrema-direita organizada, não só cá mas internacionalmente”.

“Do meu ponto de vista isto é grave, tão grave que eu – que continuo a pensar que o PS devia ter um candidato próprio, das suas fileiras ou não, e também disse que não sou candidata – acho que neste momento todos temos de reflectir”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa rapidamente acusou o toque de Ana Gomes. Sem comentar o conteúdo essencial das declarações da diplomata, o PR limitou-se a uma glosa em terno da palavra “regime”: “Um Presidente da República que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição não é certamente contra o regime, porque senão não era Presidente da República”.

Para já, Rebelo de Sousa prefere manter o seu discurso de ficção: “Eu não sei ainda se serei candidato, decidirei oportunamente” – disse ele durante uma visita ao mercado da Ericeira, marcada por um tom populista que lembrou uma acção de campanha eleitoral. E olhando para as câmaras de televisão, acrescentou com ar inocente: “Eu entendo que os portugueses neste momento têm grandes preocupações. Há prioridades, há coisas mais importantes na vida dos portugueses do que propriamente estar a pensar em campanhas daqui a oito meses”…

A apregoada hegemonia eleitoral de Marcelo tem tido, tanto à esquerda como à direita, o efeito de estimular candidaturas alternativas. O Partido Comunista, que apresenta sempre um candidato, repetirá a receita em 2021. Os comunistas ainda não têm nome escolhido, mas Jerónimo de Sousa já veio dizer que no momento considerado certo o escolhido será anunciado pelo Comité Central. 

Já no Bloco de Esquerda tudo indica que Marisa Matias, que já foi a candidata em 2016, regresse às presidenciais, apesar de existirem vozes a chamar a atenção para o facto de um nome como o de Ana Gomes poder condicionar o resultado da eurodeputada. Mas também no BE não há pressas: “Eu julgo que o PS está muito agitado no debate das presidenciais”, comentou a líder bloquista. “Esse é um problema dos militantes do PS. O Bloco de Esquerda, no seu tempo, apresentará naturalmente a sua candidatura”, esclareceu Catarina Martins. A bloquista defendeu que este tema, “para o resto do país, incluindo para o Bloco, não é a prioridade neste momento”.

À direita, para já, o único candidato anunciado é André Ventura, líder do Chega. Ventura apresentou a sua candidatura em Fevereiro, mas até agora tem-se mostrado mais concentrado na sua prestação como deputado e no acompanhamento da actualidade política nas redes sociais.

Começa, entretanto, a falar-se numa candidatura de Adolfo Mesquita Nunes, que recolhe simpatias em parte do PSD que está descontente com a excessiva (e, para muitos, escandalosa) colagem de Marcelo a António Costa. Mesquita Nunes, ao que se diz, penetra no eleitorado mais liberal e no do CDS. Isto apesar de durante a liderança de Assunção Cristas o CDS ter, pela voz da então líder, expressado o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa.

Mesquita Nunes, ex-secretário de Estado do Turismo no Governo de Pedro Passos Coelho, está a ser encorajado a concorrer contra Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura. Quando o ex-dirigente centrista foi um nome lançado para concorrer à liderança do CDS, rapidamente mostrou a sua indisponibilidade, pelo que o seu silêncio de agora tem sido interpretado como um espaço de avaliação da proposta.

Como já se disse, entre os apoiantes desta solução estão liberais que querem promover uma candidatura presidencial que ocupe o espaço político entre Marcelo e Ventura, e Mesquita Nunes já tem apoios no PSD e na Iniciativa Liberal, onde Ventura desagrada pelo radicalismo e Marcelo se tornou indesejado pelo alinhamento com a esquerda.

Miguel Morgado, ex-deputado do PSD, e Carlos Guimarães Pinto, antigo líder da Iniciativa Liberal, são duas das vozes que anunciam o seu apoio a uma candidatura de Adolfo Mesquita Nunes, uma das principais caras da ala liberal do CDS. O primeiro considerou que Mesquita Nunes “seria um bom candidato, não tenho dúvidas” e o segundo vincou que o democrata-cristão “representa o liberalismo”, acrescentando que “pessoalmente” considera que “seria um excelente candidato”.

Neste momento estes apoiantes consideram que Mesquita Nunes poderia recolher apoios nos diversos partidos na direita moderada do PSD, CDS e Iniciativa Liberal e também na área económica, onde o seu trabalho como secretário de Estado do Turismo foi muito apreciado. ■