A China comunista e a decadência do Velho Continente

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O presidente chinês Xi Jinping prossegue com o prometido Chinese Dream – mimetismo que tem por base o modelo American Dream mas que não representa a mesma ideia, nem o mesmo conceito, nem o mesmo objectivo – , que mais não é do que o ambicioso e sibilino “avanço do povo chinês na via do socialismo com características chinesas”, como declarou, há dias, um porta-voz do governo chinês. 

Na realidade, o que a China pretende é a lógica da pura competitividade, a lógica do desenvolvimento e progresso, pretendendo alçapremar-se, dentro de poucos anos, a primeira potência do planeta quer a nível económico, quer a nível militar (como referi no texto publicado no passado dia 15). Custe o que custar. O combate solidário e responsável à poluição crescente do planeta não está nos seus planos, e muito menos o seu empenho no combate ao aquecimento global. Presentemente é o país mais poluidor do mundo e a ânsia e sofreguidão de desenvolvimento e progresso não cessam com as consequências devastadoras que, certamente, advirão para a saúde do planeta em que vivemos, e consequentemente para a saúde do ser humano. 

As energias alternativas e um novo paradigma de crescimento poderão ser a solução para a continuação da habitabilidade na Terra. Doutra forma não é possível aguentar este contínuo e desmedido desenvolvimento industrial e tecnológico, como se está a verificar com o exemplo que vem da China  (também da Índia, é certo), colocando-se, desta forma, em perigo todos os ecossistemas, colocando em perigo a própria sustentabilidade do planeta e a própria sobrevivência do ser humano, já mergulhado na acentuada e contínua poluição do meio ambiente e crescente poluição dos oceanos. 

O surgimento do coronavírus veio, precisamente, pôr em causa este tipo de desenvolvimento que esgota os recursos naturais do planeta. Se o anexim – e vale o que vale – “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento” se mostra exagerado e impreciso, que dizer do que vem da China? Mas enquanto os sistemas democráticos europeus, na generalidade, se deterioram, erodem e se envolvem em questiúnculas muitas vezes espúrias, bizantinices  e dissídios, enquanto as preocupações estão assestadas para as alterações do clima – sem que se vislumbrem acções concretas para combatê-lo – para o nacionalismo, a justiça social, a xenofobia, a homofobia, o racismo, o direito dos animais e os direitos de tudo e mais alguma coisa, a China, imperturbável, coesa, obstinada continuará a comprar e a investir numa Europa decadente. 

Se o Velho Continente não acautelar e consolidar a sua economia e não privilegiar a cooperação militar com os Estados Unidos, poderá soçobrar ao poderio chinês. O Velho Continente, sem verdadeiras forças militares operacionais – ressalve-se o exército britânico e pouco mais – e sem o respaldo dos Estados Unidos, será um anão face ao gigante chinês que não pára de crescer. Infelizmente, a Europa já não terá grande futuro. Como muito bem escreveu o experiente globetrotter J. Rentes de Carvalho no seu livro “A Ira de Deus sobre a Europa” –  não posso deixar de transcrever as suas palavras: “Este continente está entregue a um hedonismo desenfreado, os ideais esboroaram-se enquanto alastra uma mansidão que não se distingue muito da cobardia, aqui e ali um tolo sentimento de superioridade de ‘valores’ e de ‘civilização’ que não passam de factores da nossa possível derrota. O comportamento ‘bonzinho’ de não nos defendermos de quem nos ataca, de respeitar quem não nos respeita, de insistirmos em estender a mão a quem nos despreza, por certo encontra alguma justificação na doutrina cristã, mas é contraproducente numa situação de conflito, sobretudo quando a parte contrária aplica a estratégia bélica de Clausewitz, enquanto a nossa opta pelo adiamento e dá prioridade aos jogos de computador, às ‘amizades’ e aos ‘links’ do Facebook.” 

A República Popular Chinesa ainda não está a “aplicar a estratégia bélica de Clausewitz” mas para lá caminhará se, entretanto, a Europa e os Estados Unidos não despertarem para uma nova realidade que trará sérios problemas. Para além de, neste momento, o coronavírus estar a fustigar, impiedosamente, o mundo. Por irresponsabilidade, negligência e encobrimento chinês. ■