Os 57 milhões de brasileiros que votaram no presidente Jair Bolsonaro estão começando a ficar desapontados com o seu desempenho, devendo deixar, daqui a uns meses, um saldo de não mais de 20% de seguidores incondicionais.
Nas camadas mais cultas da sociedade, o pesar é maior, pois o governo é constituído por um grupo altamente qualificado, na economia, na infraestrutura de transportes, energia, educação e saúde. A descolagem da economia foi surpreendida pelo coronavírus, estando na direção correta na abertura da economia e na proposta de reforma da administração pública. Os salários no sector público brasileiro são, na média, bem superiores aos praticados nos países da União Europeia, especialmente no Judiciário. No mais, o Brasil nunca passou tantos meses sem um caso de corrupção conhecido.
Infelizmente, porém, o despreparo do presidente para o exercício do cargo tem-se revelado mais forte. Todas as semanas provoca uma crise com suas declarações na imprensa ou nas redes sociais. Já substituiu nove ministros, sendo que os dois últimos, Saúde e Justiça, em momento inoportuno pela crise da pandemia e seus reflexos na economia. E demite mal, despertando ressentimentos como do ministro Moro, símbolo da luta contra a corrupção, que comandou a Lava-Jato, que condenou e prendeu o ex-presidente Lula, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e o presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, entre outros figurões.
Praticamente sem oposição, o presidente vinha se aguentando nas forças vivas da nação pelo lado da economia e das propostas de reformas, e pelo sectarismo da única oposição que tem, que é a mais radical possível, que beira o ridículo, com acusações grotescas, tipo “genocida”, “homofóbico” e outras coisas risíveis. E, claro, pelo facto de ser honesto, assim como seus desastrados filhos, que pecam pela ação política equivocada, mas também não se tem notícia até aqui de envolvimento em malfeitos. Um deles, senador, sofre acusação que envolve quase todos os deputados do Rio de Janeiro, mas de monta insignificante e antes da eleição do pai e dele mesmo para o Senado.
Inacreditável que, em meio a esta crise mundial, o Brasil perca a oportunidade de se modernizar e consolidar uma proposta social mais justa. O Congresso tem uma parcela de culpa na crise, pois vem rejeitando boas iniciativas do presidente e procurando gerar despesas que o Tesouro Nacional não tem condições de honrar sem prejudicar a economia. No Judiciário, que o presidente agride, sua situação é insustentável. O Supremo Tribunal anda legislando por meio de liminares, como a medida que impediu a retirada do país dos diplomatas venezuelanos, atendendo a um pedido de deputado ligado ao ex-presidente Lula, aliado de Maduro. O tema é privativo do Executivo, mas o Judiciá-
rio interveio. Assim como na nomeação do comandante da Polícia Federal.
A pandemia não atingiu seu pico e os efeitos sobre a economia têm sido dramáticos. O socorro do governo aos sem emprego definido – vendedores ambulantes, moradores de rua, empregados domésticos a diaristas – atinge 38 milhões de brasileiros e vai viger por três meses. Os governos regionais e municipais pedem algo como 15 mil milhões de euros, para compensar a perda da arrecadação com o isolamento e parada na atividade econômica.
Enfim, o país vive um agravamento dos problemas que afligem o mundo pela inesperada actuação de seu presidente. Os militares, que possuem forte presença no alto escalão do governo e tem o vice-presidente, Hamilton Mourão, um oficial general, assistem apreensivos ao evoluir da crise. Mas resistem a uma intervenção que fuja às normas constitucionais.
O Brasil está angustiado e triste. Salvam a índole do povo e a fé e, claro, o facto de o Presidente ser bom cidadão, bem intencionado, mas mostra despreparo e talvez distúrbio emocional, pois manifesta mania de perseguição e esta desnecessária agressividade que só o prejudica. ■




