A cobertura noticiosa da Covid-19 (II)

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Como era assaz previsível, o clima geral de extrema emotividade que se tem criado em torno da pandemia afectou (ou melhor, infectou), em muito, a cobertura noticiosa que se fez, este ano, das comemorações da Revolução de 25 de Abril de 1974. Antes de mais, dever-se-ia ter recordado que, por razões diversas, essas comemorações não passaram pela Assembleia da República em 1983 (por ser dia de Eleições), em 1993 (por causa, ironia das ironias, de um boicote jornalístico) e em 2011 (por entretanto a Assembleia da República ter sido dissolvida). Ao invés, insistiu-se num falso precedente, como se fosse de facto escandaloso que, “pela primeira vez”, a Assembleia da República não comemorasse o 25 de Abril.   

O corolário de todo esse clima foi a forma enviesada (passe o eufemismo) como os media (em particular, uma vez mais, as televisões) cobriram o eco público do repto feito para que, no próprio dia, todas as pessoas confinadas em sua casa fossem à janela para assinalar a data. Foi hilariante verificar todos os “ângulos fechados” que se engendraram para procurar esconder que esse repto teve uma repercussão muito pouco significativa. Assim, em muitas das ruas em que só num prédio havia uma manifestação, só se filmou (para se escamotear o fiasco) esse prédio, ou, mais exactamente, só o andar em que havia uma manifestação…

Admitimos que esse enviesamento (passe, de novo, o eufemismo) tenha decorrido apenas de um exacerbado afã de “pedagogia democrática”, de que tanto se tem falado nestes tempos. De facto, depois de se ter criado a suspeita pública de que quem não concordava com as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República só poderia ser “fascista”, a filmagem das muitas ruas silenciosas poderia levar à conclusão (não menos enviesada) de que a grande maioria da população se tinha tornado “fascista” – o que, obviamente, não corresponde de todo à verdade. Temos, ao invés, a convicção plena de que a grande maioria da população concorda com o nosso regime democrático pluripartidário, por mais que, por razões diversas, se sinta insatisfeita (muito) com a nossa classe política.

Assim, toda esta “pedagogia democrática” foi, pois, manifestamente desproporcionada. Há, de resto, a esse respeito, um equívoco que persiste: mesmo aqueles que têm uma visão mais positiva do Estado Novo não são necessariamente contra o nosso regime democrático pluripartidário; do mesmo modo, todos aqueles que, em geral, fazem um balanço favorável dos tempos da Monarquia não são necessariamente anti-republicanos. Este paralelo é aqui, aliás, particularmente pertinente: na nossa época, já quase ninguém comemora a Revolução de 5 de Outubro de 1910; todavia, daqui não se pode concluir que a grande maioria da população não seja republicana. Pela nossa parte, temos a plena convicção de que, se o nosso regime fosse referendado, só uma muito pequena minoria optaria pelo regime monárquico. ■