A outra face do COVID-19

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O coronavírus e a doença COVID-19, apesar de todo o medo, infortúnio e infelicidade, obrigaram a aguçar o engenho, a resolver problemas que antes não exisitiam. Umas empresas resolveram produzir máscaras, outras resolveram produzir gel com álcool, outras viseiras, muitas viraram-se para as entregas de compras e objectos. As universidades e centros de investigação viraram-se para a realização de testes e para o estudo da doença. De carenciados em reagentes, zaragatoas e aparelhos para realizar os ciclos necessários aos testes ao COVID-19, passámos a excedentários. Ventiladores simples e económicos foram pensados.

Felizmente a crise está a deixar o Serviço Nacional de Saúde com alguma folga. O factor medo fechou as pessoas em casa, o que serviu para baixar drasticamente a taxa de contágio. O medo, racional ou irracional, da morte ou da doença, contribuiu para a folga dos serviços. O medo foi realmente o grande aliado nesta primeira batalha de uma guerra contra uma doença que, inelutavelmente, voltará em vagas sucessivas.

Mas o regresso do vírus, cedo ou tarde, não nos encontrará tão descalços como estávamos quando a dra. Graça Freitas, em Janeiro de 2020, de forma ingénua, irresponsável e ignorante se referiu a este vírus como algo longínquo, lá na China, algo que tinha transmissão difícil, algo que estava totalmente errado como já então se podia constatar na China. Graça Freitas não aprendeu nada com as grandes pandemias da história, com a peste negra em 1348 ou com a pneumónica em 1918, era director-geral de Saúde o enorme Ricardo Jorge. Mesmo sem aviões, mesmo sem navios a vapor, as pandemias espalharam-se a todo o Mundo. 

Os vírus são seres extraordinários do ponto de vista evolutivo e quase sempre ganham as primeiras batalhas, sendo depois derrotados pela nossa evolução, pelo nosso extraordinário sistema imunitário, pelas defesas adquiridas, pelo engenho e inteligência na criação de vacinas e medicamentos. Mas, tal como os criminosos, os vírus estão sempre um passo à frente quando dão o salto infeccioso de animais para o Ser Humano, o mútuo desconhecimento gera pânico, cria morte e incerteza, destrói famílias, economias. 

Há vírus que pouco mal fazem e que vivem entre nós, confortavelmente, sem nos matar; são esses os vírus mais bem sucedidos. O vírus do herpes simples (tipo 1)
que infecta dois terços das populações humanas, não mata, mas também não se cura, aparece de vez em quando, quando o sistema imunitário está mais fraco, irrita mas não causa pânico, é um vírus familiar, faz parte da nossa herança de humanos. 

Um vírus não pensa, não tem interesses concretos, o seu único interesse é o evolutivo, se as suas mutações o conseguem beneficiar na sua propagação e replicação, continua no seu caminho, completamente amoral, matando ou destruindo a saúde.

Os vírus são também máquinas que nos ajudam a evoluir, apenas os seres humanos mais resistentes às doenças sobreviveram a muitos milhões de anos de ataques patogénicos, os sistemas imunitários foram-se apurando juntamente com as evoluções dos nossos inimigos microscópicos.

Este novo vírus, apesar de semear a morte, pode trazer vantagens: a diminuição da poluição, a enorme baixa da produção de gases de efeito de estufa, a desflorestação, a redução da procura de papel (menos o papel higiénico, cujo consumo por misteriosas razões aumentou em flecha), a redução do tráfego rodoviário e da poluição sonora, atmosférica e dos cursos de água, parece que são efeitos positivos, quase misteriosos reflexos da acção regularizadora de um vírus que parece uma reacção de defesa da Terra e da Natureza contra as agressões humanas. 

Existe um princípio da Termodinâmica, o princípio de Le Chatelier-Braun, que explica estas reacções: os sistemas tendem sempre a reagir de forma a contrariar as perturbações do equilíbrio. Qualquer reacção natural nesse sentido será, em princípio, bem sucedida. 

Evidentemente, o Ser Humano vai triunfar nesta guerra, mas as lições aprendidas não devem ser esquecidas.

Prevê-se uma grande descida do PIB, mas também se prevê uma espectacular recuperação posterior, com grande euforia após a vitória sobre a doença. Esperamos que a lição seja aprendida e que a nova economia seja mais sustentável.

Teletrabalho

O teletrabalho foi uma das consequências deste vírus novo. As pessoas dos serviços, que têm de realizar trabalho escrito, elaborar relatórios, estudar mercados, fazer traduções, trabalho comercial em compras e vendas, todos aqueles que trabalham com computador, nomeadamente em design, arquitectura, projecto, e todas as outras actividades que se podem fazer à distância, podem trabalhar a partir de casa.

Não achamos que o teletrabalho seja a solução total, é evidente que os funcionários de uma empresa devem comparecer na mesma um número de vezes razoável de forma a terem relacões sociolaborais, participar em reuniões presenciais e estar em contacto com as suas equipas. O que se passa é que a compoente de teletrabalho deve ser fortemente incentivada. Há inúmeras vantagens, os consumos de combustíveis fósseis e de deslocações diárias reduzir-se-iam drasticamente, as pessoas perderiam menos tempo em deslocações pendulares e teriam mais tempo para as suas famílias, a poluição seria fortemente reduzida.

O primeiro passo para o teletrabalho é a barreira psicológica; a produtividade pode, mercê do ambiente familiar em que se trabalha, aumentar muito. O teletrabalho generalizado no ensino está fortemente desaconselhado, a actividade pedagógica beneficia muito do contacto directo, mas um estudo, um projecto individual ou um relatório é feito da mesma forma em casa ou pode resultar mesmo melhor.

Foi dado o primeiro passo, até as reuniões se podem fazer com grande proveito usando plataformas de comunicação. Tendo de viajar muitas vezes de Lisboa ao Porto, eu próprio, autor destas linhas, beneficiei muito destes novos sistemas de comunicação, podendo aproveitar com mutíssimo maior produtividade o tempo que não se perde na viagem.

Esperemos que o regime de teletrabalho, excelente até para reduzir os acidentes rodoviários e os engarrafamentos de hora de ponta, possa continuar depois de vencida a guerra contra a doença que travamos neste momento. ■