Ditadura venezuelana divide a esquerda

Ditadura venezuelana divide a esquerda

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Em tempos aplaudiam de pé a tirania esquerdista radical que há anos oprime a Venezuela. Agora que essa ditadura começou a distribuir armas pelas suas milícias em antecipação de uma guerra civil, a esquerda portuguesa divide-se entre aqueles que ainda defendem o “chavismo” e aqueles que começaram a mudar o bico ao prego e a distanciar-se do regime surrealista de Maduro.

Se o horror a Passos Coelho os une, os partidos que compõem a geringonça confessam-se desunidos em muito mais aspectos, e um deles é a forma como estão a lidar com o veloz colapso da Venezuela. António Costa, segundo classificado nas eleições legislativas, mas actual primeiro-ministro graças a um acordo com a extrema-esquerda, encontra-se a trilhar uma linha difícil. Os negócios de Sócrates com a Venezuela são agora conhecidos graças à “Operação Marquês”, negócios em que – alega o Ministério Público – a máquina diplomática portuguesa foi usada para o lucro de algumas empresas ligadas ao regime.

António Costa tem agora de fazer malabarismo entre a questão interna do partido, a necessidade de não afrontar a maioria parlamentar que sustenta o seu Governo, mas também a preocupação com a possibilidade de ter de receber os “retornados” do século XXI. Vivem mais de 400 mil portugueses na Venezuela, e quase um milhão de luso-descendentes. Em caso de debandada rumo à Pátria ancestral, Portugal estará legalmente obrigado a acolhê-los.

Muitos dos nossos concidadãos encontram-se em perigo face aos excessos da ditadura bolivariana: a maioria opõe-se ao regime (um “crime” cuja pena pode ser capital nos dias que correm). À Agência Lusa chegam todos os dias declarações de imigrantes que participam nas manifestações para que, nas suas palavras, “o comunismo vá embora”.

O conflito entre a oposição democrática e as forças de Nicolas Maduro está a alcançar níveis de pré-guerra civil. A oposição reúne centenas de milhares de manifestantes nas ruas, onde os números de mortos às mãos das forças do regime começam a subir. Na semana passada, o actual Presidente deu publicamente ordens para que as milícias do regime (uma espécie de “guardas vermelhos” da revolução bolivariana), com um número que poderá alcançar o meio-milhão de militantes, fossem armadas com equipamento de guerra, nomeadamente a infame espingarda de assalto kalashnikov, que os soldados portugueses tiveram de enfrentar durante as operações antiterroristas nas províncias ultramarinas.

O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garantiu entretanto que existe “um plano de contingência em relação a eventuais problemas com a situação dos portugueses na Venezuela”. Mas na mesma conferência de imprensa em que foi pronunciada esta garantia também falou o embaixador de Cuba em Portugal, para frisar que “a Venezuela é um Estado soberano, tem um Governo democraticamente eleito e legítimo, e deve-se evitar qualquer ingerência nos assuntos internos, com objectivos golpistas ou violentos”.

Pouco depois, o Partido Comunista, em comunicado, repetia a mesma declaração por outras palavras, afirmando que está em curso uma “criminosa campanha de ingerência e de desestabilização do imperialismo e das forças da reacção interna”, enquanto que na Assembleia da República a sua bancada criticou as “campanhas de desinformação e manipulação da opinião pública que visam colocar em causa o processo democrático e progressista de afirmação soberana e cooperação”.

O que o embaixador e o PCP não referiram é que as eleições locais na Venezuela foram suspensas (deveriam ter sido realizadas em 2016) e que Nicolas Maduro governa de forma extraparlamentar, continuando a governar por decretos – nomeadamente, decretos que reforçam o seu próprio poder pessoal, apesar de a Constituição do país afirmar que apenas o Parlamento pode aprovar tal medida.

No entanto, no jogo de poderes internos em Portugal, o Partido Socialista precisa dos deputados do PCP para manter vivo o Governo de António Costa, e apesar das suas garantias aos possíveis futuros retornados, Augusto Santos Silva conseguiu ressalvar na mesma conferência de imprensa ser “muito importante que os países com influência real neste âmbito não se pronunciem apenas a favor da paz social e do diálogo e de soluções apropriadas, mas demonstrem também essa disponibilidade”, ao mesmo tempo que afirmava que os mesmos não devem intervir, visto que “o pleno respeito pela soberania do Estado venezuelano é o mais apropriado”.

A necessidade do Governo socialista de fazer algumas, embora leves, críticas ao regime venezuelano destinam-se também a agradar ao Bloco de Esquerda, partido que já mudou o bico ao prego em relação à ditadura de Nicolas Maduro, apesar de em tempos a ter defendido de forma acérrima.

“Enquanto que na Europa a democracia está a falhar, na Venezuela a democracia participativa tornou-se um sinal de identidade” – lia-se em 2013 no website do Bloco de Esquerda (Esquerda.net), onde também foram publicados textos defendendo que “os principais meios de comunicação dos Estados Unidos, espanhóis, e os da direita latino-americana, trabalham arduamente para marcar a agenda informativa sobre a Venezuela com o objectivo de sedimentar a ideia de que estamos perante um ‘Estado falido’”. Aí também se deu voz ao actual líder da esquerda radical francesa, Jean-Luc Mélenchon — que teve a companhia de Marisa Matias na sua campanha — que declarava que “a nova Venezuela é a ponta da lança da onda democrática que, na América Latina, varreu os regimes oligárquicos de nove países”.

Hoje, tendo descoberto a moderação que ganha votos e garante coligações de Governo, até mesmo Mariana Mortágua afirma que não lhe “custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela”, embora nesse texto perca mais tempo a denunciar a alegada relação da direita com o regime ditatorial angolano, que apenas existe por a esquerda portuguesa lhe ter dado o poder, numa bandeja, nos anos 70. Nas votações sobre o tema na Assembleia da República, o BE acabou por votar em consonância com as forças moderadas, mas o seu discurso do dia centrou-se em atacar novamente a direita em vez de se focar no assunto em debate. O deputado Pedro Filipe Soares acusou as bancadas do PSD e CDS de ignorar a situação dos presos políticos em Angola, apesar de esse não ser o tema em discussão. Já lá vão os dias em que o BE aplaudia de pé a “luta contra o imperialismo e contra o FMI” de Hugo Chávez.

Em caso de guerra civil aberta e de fuga em massa, o Governo e a geringonça terão que dar resposta à situação dos milhões de portugueses em perigo. Será um complexo desafio político para o primeiro-ministro, visto que um dos principais partidos que compõem a actual coligação de apoio ao Executivo rejeita vivamente a qualquer tipo de intervenção. O outro, é certo, opõe-se à ditadura venezuelana (depois de a ter apoiado), mas parece ter mais ódio à direita portuguesa do que à ditadura bolivariana.