Escrevi este texto ao mesmo tempo que a crise política tinha início pela manhã, quando pelas dez horas decidi telefonar e enviar alguns “mails” a amigos para lhes dizer que António Costa se iria demitir e que com toda a probabilidade o Partido Socialista, que tem a maioria absoluta, indicaria um novo primeiro-ministro e que esse seria, com alguma probabilidade, Carlos César.
Como não sou bruxo, a minha previsão assentou na análise da situação, assumindo que todos os analistas e decisores políticos se comportariam de forma racional, o que aconteceu com António Costa, que decidiu que a sua sobrevivência política passaria pela demissão, avaliando a probabilidade das potenciais acusações não se comprovarem – as decisões políticas, boas ou más, não são crime – e pela possibilidade de emergir dentro de algum tempo como candidato à Presidência da República.
Todos sabemos que António Costa tem uma grande capacidade de sobrevivência e foi isso mesmo que ele faz.
Tempos agora o tempo de Marcelo Rebelo de Sousa que decidiu ouvir o Conselho de Estado, o qual pode escolher entre duas alternativas: (1) a alternativa racional que é dar a possibilidade ao PS, que tem uma maioria absoluta, para escolher um novo primeiro-ministro; (2) a convocação de eleições, para o que ninguém está preparado. Com a nota de que, no primeiro caso, o PS tem à sua escolha a decisão mais inteligente, que será indicar Carlos César, ou a decisão menos racional que seria indicar Fernando Medina ou Pedro Nuno Santos. A razão é simples, manter o partido unido até ao final da legislatura.
Como penso que as qualidades de sobrevivência não são exclusivas de António Costa e porque a grande família socialista tem muito a perder, acredito que o PS vá junto do Presidente da República escolher a solução mais inteligente. Que, diga-se, é a mais correcta para o país, porque existe toda a vantagem de a legislatura chegar ao fim e porque as oposições não estão preparadas para eleições, em que o partido mais favorecido, nas actuais circunstâncias, será o Chega. Com a nota de que a situação política não ficará mais clarificada e a confusão política em que vivemos terá uma boa probabilidade de aumentar.
Acresce que vivemos uma situação caótica na Saúde e na Educação, o PRR está em execução, sendo este um problema com grandes implicações na União Europeia, a crise prolongada poderá ter resultados negativos nos juros da dívida e existe a questão do Orçamento do Estado, que, apesar de tudo, será o menos importante. Pessoalmente, não tenho grandes dúvidas do envolvimento dos acusados nos casos indicados como motivo do escândalo, o que envolve decisões do Governo tão absurdas e ruinosas que apenas a corrupção pode explicar. Todavia, não tenho a certeza de que António Costa esteja envolvido para além de ter aprovado más decisões, o que não é crime, mas, nesse caso, com ou sem razão, a Justiça sairá ainda mais desprestigiada com os custos inerentes para a democracia.
Acontece que também não estou certo de que eleições nas actuais circunstâncias tenham resultados clarificadores e que mesmo depois de oito anos de má governação do Partido Socialista e de António Costa, os portugueses tenham retirado as devidas conclusões, como demonstram as sondagens. Além disso, existe o risco de o PS virar ainda mais à esquerda, ou de podermos vir a ter uma nova “geringonça”, o que poderá criar uma situação trágica ou cómica, dependendo do observador.
Assim sendo, para o país a melhor solução será o PS nomear um novo primeiro-ministro, não porque pense que esse outro socialista governe melhor do que António Costa, mas porque essa solução dará mais tempo aos portugueses de reconhecerem que as razões da má governação e do atraso económico do país reside nos interesses criados pela grande família socialista, como na ausência de moral e de ética na vida política em geral. Além de que o modelo eleitoral não democrático da escolha dos deputados e, em geral, dos dirigentes políticos, paus mandatos do chefe que os escolhe, deve ser o principal tema de debate até às eleições, no sentido de tornar democráticas as leis eleitorais e verdadeiramente democrática a governação. Trata-se, em resumo, de abrir uma oportunidade aos portugueses de escolherem os melhores, os mais competentes e os mais bem preparados para as difíceis tarefas que Portugal enfrenta. ■
A demissão de António Costa




