Ainda faltam quatro longos meses para as eleições do próximo ano, mas algumas coisas são já evidentes:
(1) O PSD que permanecia desaparecido da comunicação social, ressurgiu; (2) o novo herói diário parece ser Pedro Nuno Santos (PNS), que a comunicação social resolveu ser o vencedor da eleição interna no PS; (3) a mesma comunicação social faz o possível por desconhecer Daniel Adrião, apesar deste ser, há muitos anos, o mais coerente, a única oposição interna do PS e crítico de António Costa; (4) a Justiça mantem-se como o bombo da festa, bem como a Procuradora Geral da República que, é bom não esquecer, foi lá colocada por António Costa; (5) discutem-se profundamente os resultados das eleições de Março próximo e as supostas alianças; (6) o bom povo é informado sobre quem ganha e quem perde e sobre o estado das desavenças entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, mas pouco sobre quaisquer ideias para a Saúde, a Educação, a economia e sobre a forma de Portugal sair do atoleiro em que António Costa o meteu ao longo dos últimos oito anos; (7) uma estratégia para o país? Nada.
Entretanto, os comentadores de serviço na comunicação social, há longos anos, nomeadamente nas televisões, não param de dizer tudo e o seu contrário com a maior naturalidade e convicção. Não há nada que não saibam, basta perguntar. Entre todos saliento o caso exemplar de Daniel de Oliveira, uma verdadeira máquina trituradora que salta de canal em canal, entre a televisão, jornais e a rádio, e para quem o dia tem quarenta e oito horas de labuta por um objectivo sabiamente desconhecido. O bombo da festa é o Chega, tema em que as boas almas se afadigam de dia e de noite para tornar esse partido o maior acontecimento nacional desde Afonso Henriques. André Ventura não precisa de se cansar.
Entretanto, a grande família socialista tenta recuperar do susto e estuda as formas de manter os milhares de postos de trabalho que criou no aparelho do Estado ao longo dos últimos vinte e cinco anos – já vai na segunda geração – preenchendo mais uns tantos lugares, porque nunca se sabe o que o futuro lhes reserva, apesar da máquina de propaganda estar bastante bem oleada e pronta para o que der a vier. António Costa dá uma ajuda, o objectivo é fazer esquecer as sábias contratações anteriores e encontrar novos e velhos culpados para recomeçar de novo, talvez que a Presidência da República possa ser ainda um emprego viável, já que na Europa está difícil. O homem não desiste.
No meio de tanta azáfama política, o país atrasa-se um pouco mais, o PRR pode ser mais bem aproveitado pelos do costume e no meio da distracção geral, os médicos e os enfermeiros aguentam, aguentam, os professores ensinam dia sim dia não, a judiciária prende mais uns tantos importadores de mão-de-obra, os números de imigrantes indocumentados aumentam e passam os dias encostados às paredes e a viver em comunidades de quartos superlotados, enquanto a melhor geração de sempre emigra. Ainda a propósito dos imigrantes ouvi nas televisões o ainda ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, a explicar o grande futuro que imaginou para o país, mas nada diz sobre os dois anos necessários para que um pobre imigrante possa aspirar a ter um documento que lhe permita encontrar um emprego.
A propósito, desde o primeiro momento desta nova saga nacional, que pensei ser José Luís Carneiro apenas um parceiro útil na entronização de PNS, só que agora, nos últimos dias, assisti nas televisões a um tal frenesim no discurso de PNS, que me pareceu tão arrebatado e impulsivo, que fiquei na dúvida sobre o que se está a passar. Pessoalmente, contava que ajuizadamente PNS evitasse a sua habitual propensão para a fantasia e metesse no saco aquilo que não sabe, para não arriscar a sua suposta vantagem eleitoral. Mas não, o seu discurso atingiu um tal nível de frenesim e de contradições entre radicalismo e conservadorismo que, a continuar, me força a rever os cálculos. Pode acontecer que a tão falada popularidade junto dos militantes do PS, bem como os anunciados apoios das federações, não sejam, afinal, tudo aquilo que foi anunciado. Veremos.
Uma palavra sobre o PSD, que acredito possa melhorar se conseguir ainda organizar um conjunto de boas iniciativas em que apresentem de forma organizada propostas claras e inovadoras – não necessariamente politicamente correctas – para a ferrovia, a reforma política e a organizativa do Estado, para a Saúde, para a Educação, para a Justiça e, principalmente, para fazer crescer a economia e sem esquecer a ferrovia. O que, neste último caso, passa pelo investimento estrangeiro na indústria, destinado principalmente às exportações. E, por favor, não inventem, limitem-se a repetir as fases da EFTA e do PEDIP/“AutoEuropa”, ainda que não faz mal se acrescentarem algo sobre a mais intensa utilização das tecnologias. Adicionalmente, recordem-se que têm na lista dos militantes e apoiantes do PSD alguns dos portugueses mais bem formados e mais experientes nas diversas áreas da governação, além de pessoas sérias, que devem retirar dos baús onde os meteram, partidariamente está bem de ver, ao longo dos anos.
Talvez que nestes quatro meses que ainda nos separam das eleições, os portugueses possam ainda abrir as suas consciências aos erros do passado recente e às propostas mais bem fundamentadas e mais sérias que surjam sobre o futuro, o qual só pode ser diferente das apostas que nos conduziram à cauda da Europa, porque da continuidade já conhecemos os resultados. O que prova que sou ainda um optimista e que a esperança é a última coisa a morrer. ■
A esperança é a última coisa a morrer




