A última estória de Zé Carioca, personagem da “Disney” e imortalizado na banda desenhada brasileira, tem o título de “Só com magia”.
Por cá, noutras tiras de humor duvidoso, a magia era capaz de não ser suficiente para explicar uma série de coincidências, dignas de “X-Files”, mas que, na recente tradição lusa, não repercutem som ou alminha que se mexa…
Costa parece que continua a tropeçar num parágrafo da Procuradoria, quando os estatelanços com estrondo naquilo que qualificou como casos e casinhos, não mereceram reflexão, ponderação ou páginas de jornal dignas desse nome. Pára o país para comentar o parágrafo, esquecendo as vírgulas, travessões e reticências do seu magistério, para não falar de erradas conjugações entre sujeitos e predicados, dissonâncias de discurso e um enredo fraco em substância e repleto de erros e incoerências… Mas os romances de cordel também vendem…
Acreditando que Costa não tem amigos e que estes se comportam de forma exemplar, outra solução não lhe restaria que não o abandono de funções, atenta a investigação a Galamba e, sobretudo, após as buscas em São Bento onde foi encontrada uma elevada quantia em dinheiro atribuída ao seu Chefe de Gabinete. Ora, como a sede do Governo não é a associação de Estudantes da Faculdade de Direito, Costa não tinha outro remédio que não entregar as chaves. O parágrafo é, pois, irrelevante.
Causa, porém, estranheza, o “timing”, mesmo sabendo que Portugal é fértil em estórias de mistério e ficção, a começar pelos filhos que dão chapadas na mãe para conquistar um reino (hoje, Afonso Henriques seria condenado por violência doméstica), de reis que desaparecem no nevoeiro, ao descobrimento, por mero engano de rota, de um país do outro lado do Atlântico…
Aconselha a prudência que não se façam acusações sem provas fundadas e que não se lancem suspeitas por dá cá aquela palha… Mas a experiência e maturidade impõem alguma reflexão e o apuro do espírito crítico (com excepção daqueles que continuam a votar PS). E, seguramente uma coincidência feliz para o Presidente, dois dias depois de estourar o caso das gémeas, Costa vê-se a braços com uma crise política sem precedentes…
Também se estranha que a decisão do Presidente tenha sido manter o Governo em funções, com plenos poderes executivos e legislativos durante quatro meses, ainda que a pretexto da aprovação do OE e da necessidade de organização interna dos partidos. Estaremos atentos à legislação que venha a ser aprovada e aos concretos beneficiários da mesma…
No linguarejar dos nossos irmãos espanhóis: “no creo en brujas, pero que las hay, las hay…”!
Mantendo a convicção da existência da separação de poderes em Portugal, julgo que nenhum de nós é néscio ao ponto de acreditar que todos conservamos os segredos a que estamos obrigados. Aqui ou ali, seja debaixo dos lençóis, em conversas de café ou até em São Bento quando achamos que as câmaras estão desligadas, acabamos por dizer mais do que queremos ou devemos. Mesmo a cautela da PGR ao chamar a PSP em vez da PJ para a coadjuvar nas buscas não é garante suficiente que a informação (ou parte dela) não tenha escapado dos arquivos e gabinetes e tenha chegado a quem dela fizesse caixa de ressonância. E neste vai-e-vem do disse que disse, do consta-se e do ouvi dizer, há recados e sugestões que soam a pressões ou especiais agrados. Independentemente do que se passou, de quem disse o quê, de quem sabia e dos recados enviados, certo é que o “timing” foi perfeito para que Marcelo deixasse de se pronunciar relativamente às gémeas, que não as Mortágua, mas outras, brasileiras e relativamente às quais, consta-se (ora cá está!) ter havido um tratamento privilegiado.
A estória conta-se em duas penadas:
Umas gémeas, de nacionalidade brasileira, e filhas de um casal amigo e muito próximo de Nuno Rebelo de Sousa, filho do Presidente, legalizaram-se em tempo recorde, adquirindo a nacionalidade portuguesa em duas semanas (quando, para a generalidade dos interessados, os processos demoram cerca de um ano), foram tratadas no Santa Maria com um medicamento que custa vários milhões de euros, contra todos os pareceres médicos para aquele caso em concreto, beneficiaram de umas cadeiras de rodas electrónicas “XPTO” (ao contrário do todas as outras crianças tratadas à mesma patologia) que os médicos garantem nunca terem visto antes. Pelo meio, a mãe das crianças, em entrevista televisiva, confirmou que o canal para que o tratamento pudesse ser ministrado foi Nuno Rebelo de Sousa. Dá-se ainda a coincidência de o processo clínico ter desaparecido, não se sabendo quem, quando, porquê e através de que meios pediu e autorizou o tratamento. Estranhamente, a Administração do Santa Maria não tem explicação para o sucedido…
Para rematar, as referidas cadeiras não foram levantadas pela família que, através do seu advogado, veio emitir uma declaração a dizer que sente não ter condições de segurança para regressar a Portugal, que estão a ser ameaçados e vítimas de xenofobia. Nesse mesmo comunicado sublinha que se o Presidente da República teve alguma interferência na resolução da questão, a mesma não lhe foi pedida e foi feita sem conhecimento da família. Ao que parece, o mal que afecta os primeiros-ministros, também afecta os Presidentes: não têm amigos…
Se bem nos recordamos, Marcelo é um azarado nestas coisas. Há menos de um ano, sem que soubesse, uma sujeita de uma agência de viagens resolveu, por sua livre iniciativa, solicitar à TAP que alterasse um voo para que Marcelo pudesse regressar mais cedo. Claro está que isto ficou em águas de bacalhau e que toda a gente achou normal que uma agente de viagens pusesse e dispusesse da agenda do Presidente a seu bel-prazer e sem que aquele soubesse. Qualquer dia, está Marcelo a preparar-se para ir à “Santini” e é confrontado pela sua empregada doméstica a dizer que lhe marcou uma visita de Estado à China para participar na feira mundial de aspiradores…
Mas o ponto não é a gestão de agenda de Marcelo. O ponto é que quase um mês após a primeira notícia o Presidente nada tem a dizer sobre isto. E devia!
Primeiro, devia negá-lo perentoriamente ou assumir a intervenção, se assim o fez!
Segundo, deveria exigir que o seu filho desse explicações ao país, não permitindo que se remetesse ao silêncio, como se tal direito lhe assistisse. Não assiste!
Terceiro, deveria exigir um inquérito célere e cabal a todo o processo.
Quarto, deveria pressionar o ministro da Saúde e o Governo para que a Administração fosse exonerada com efeitos imediatos.
E por último, deveria demitir-se, fosse por interferência directa, fosse pelo seu filho, ainda que à sua revelia, ter usado o seu nome e influência para obter favores que sabia não ter direito e que não seriam concedidos pela via legal. Só por magia…
É que, à semelhança de Costa, não é um parágrafo que está em causa. É toda a restante narrativa… ■
Zé Carioca e a dança das cadeiras




