As recentes comemorações do 25 de Abril, lamento escrevê-lo, foram, em geral, um exemplo da decadência que cresce, ano após ano, do poder político em Portugal. Quarenta e nove anos passados, a generalidade das intervenções na Assembleia da República mostrou até que ponto também alguns dos mais novos mostram sinais evidentes de decadência. Razão porque no título deste texto misturo a realidade da política autoritária do primeiro-ministro com a fantasia da frase retirada da intervenção de um jovem socialista, tão irreal quanto desconcertante, porque na rua estão os protestos, as greves e não a poesia. Ou seja, neste 25 de Abril comemoramos a liberdade de eu poder escrever livremente este texto, mas, ao mesmo tempo, cresce o autoritarismo do poder político que nega aos portugueses as mais elementares regras democráticas, nomeadamente permitindo que os deputados presentes na sala do Parlamento tenham sido todos escolhidos pelos chefes partidários e não pelo povo eleitor.
Com a excepção de um ou dois deputados, cujas intervenções partidárias levaram em conta a realidade nacional, todas as outras traduziram a mesma irrealidade de muitos dos debates que ali se passam ao longo do ano e a decadência dominante das instituições, muitas delas longe da vitalidade e da qualidade dos primeiros anos posteriores ao 25 de Abril, quando os partidos políticos ainda não controlavam completamente a escolha dos deputados.
Já não falo do discurso do Presidente da Assembleia da República, que se dedicou a ensinar aos meninos e ao Presidente da República as regras do bom comportamento. Neste 25 de Abril impressionou-me, principalmente, a decadência da intervenção do Presidente da República e a sua tentativa de adormecimento dos portugueses, que ultrapassou tudo o que se poderia esperar de um chefe de Estado de um país a viver uma grave crise política, económica, social e democrática. Disse o Presidente que ao longo da nossa história tudo aconteceu, porque tudo pode acontecer, logo podemos continuar na mesma, porque tudo pode continuar a acontecer. Brilhante, qual será o nosso papel de portugueses, não disse.
O mais grave é se Marcelo Rebelo de Sousa acredita na utilidade daquilo que disse. Se o pensamento do Presidente da República de Portugal, que vai estar em Belém ainda mais uns anos, não se dá conta da decadência democrática em que vivemos, com consequências trágicas na vida dos portugueses, na desigualdade de acesso à Justiça, à Saúde e à Educação, e se não vê a inutilidade do seu mais importante discurso do ano, temos verdadeiramente um sério problema. Além de que foi o próprio Presidente que ao ter criado a inutilidade da presença de Lula da Silva na Assembleia da República no dia 25 de Abril, que foge depois a tratar os reais problemas dos portugueses em plena colaboração com as ideias idílicas do Partido Socialista. Felizmente que nestas coisas, pelo menos, a história raramente perdoa.
Na minha opinião, naturalmente discutível, as únicas intervenções que fugiram à habitual retórica parlamentar para falar da verdade nua e crua e sem adereços da realidade nacional, foram as dos deputados do PSD e da Iniciativa liberal. Além disso, se acreditasse nas tretas do Bloco de Esquerda, acabaria a reconhecer a qualidade formal da intervenção da sua quase ex-líder. É sempre agradável ver uma boa peça, neste caso do teatro parlamentar.
No polo oposto das minhas preferências situa-se a intervenção do jovem que falou em nome do PS, porque penso que sendo ele ainda jovem não acredita, felizmente, em nada daquilo que disse. Não sei o nome dele, mas é certamente um dos muitos jovens que ainda na universidade tratam da sua carreira e, para muitos, não há melhor carreira do que o Partido Socialista. Entram a ganhar o dobro de qualquer engenheiro em início de vida, não precisam de saber grande coisa, ninguém lhes vai exigir nada e mudam de ministério com muita frequência, o que deve ser divertido. E se a coisa durar, até podem criar uma pequena empresa para vender algumas das coisas que o Estado compra, quer precise ou não. Assim, a modos umas golas antifogo.
As habituais cenas de André Ventura, goste-se ou não, mostram alguém que tem qualidade para fazer aquilo que faz, conseguir votos. Poderia estar a fazer coisas melhores, é verdade, mas considerando a quantidade de factos com que o PS o alimenta, ainda vamos ver o Chega crescer um pouco mais. Aquela tirada de que José Sócrates não vai a julgamento chegou para recordar aos portugueses algo muito útil ao PS e a alguns dos seus actuais dirigentes, que assim podem descansar por mais algum tempo.
Um sinal certo da decadência que, refiro, tem a ver com o facto de que, depois de quase meio século do 25 de Abril, Portugal não tenha uma estratégia, ou uma simples ideia conhecida sobre o futuro do país e dos portugueses. Ou como é possível que uma simples questão como a da TAP tenha mostrado em poucas semanas a total falência de ideias sobre o país e uma tão grande ausência de qualidade política e moral.
De facto, tudo se resume à qualidade das pessoas que António Costa escolheu para governar o país e da certeza de que nenhuma empresa ou instituição poderia sobreviver com tal gente. São um misto de ignorância e de impreparação profissional e política, mas com uma capacidade de efabulação que nada os faz cair na realidade. São certamente um caso de estudo, que espero alguém qualificado possa realizar, de forma a que os seus resultados possam constituir uma vacina com vista ao futuro. Porque não estamos livres da história se repetir.
A governação do Partido socialista dos últimos vinte anos, em particular nos últimos sete, representa uma réplica trágica da conhecida história do “Titanic”, em que a orquestra tocava os últimos acordes de uma qualquer música enquanto, alegremente, o barco se afundava. ■




