A semana passada escrevi sobre a lenda que corre nos meios de comunicação acerca do bom momento da economia portuguesa e expliquei porque isso não é verdade e ainda é menos verdade o Governo de António Costa ter feito alguma coisa de positivo nesse sentido. Bem pelo contrário. Vejamos porquê:
Modelo económico – como escrevi antes, não é possível construir uma economia forte, dinâmica e inovadora com base em 90 % das empresas portuguesas serem muito pequenas, a grande maioria a operar no sector comercial, empresas que nascem todos os anos aos milhares e todos anos morrem que nem tordos. Empresas que não crescem, que têm muito baixa produtividade, que não exportam e pagam salários de miséria. As restantes empresas, menos de 10% do total, são empresas de maior dimensão, nacionais e estrangeiras, geralmente competitivas no plano europeu, muitas exportam e crescem, mas não são em número suficiente, nomeadamente na indústria, para criar os empregos necessários para acomodar os trabalhadores e os empresários que sobrevivem mal na primeira economia. Há muitos anos que se fala em fusões e aquisições, mas este Governo nada faz, entre outras razões por que não sabe. Enquanto isto, a nossa vizinha Espanha utiliza os fundos europeus para investir na indústria e para atrair os investimentos de grandes empresas estrangeiras, enquanto o Governo do PS desperdiça os fundos europeus em mil coisas diferentes, retiradas de um qualquer catálogo de ideias. Ou seja, Portugal não tem uma estratégia para o desenvolvimento económico.
Ferrovia – em nenhuma outra área da economia portuguesa os erros do Governo são tão evidentes como na ferrovia. A ideia de manter Portugal, pela via da bitola ibérica, fora da concorrência internacional, quando em toda a União Europeia a decisão é a da intermutabilidade de todos os sistemas ferroviários europeus e a liberalização do mercado ferroviário, de forma a que todas as empresas ferroviárias concorram em todo o espaço europeu e que os preços para passageiros e mercadorias sejam mais baixos, o Governo português pretende isolar o nosso sistema ferroviário do resto da Europa, numa espécie de antiga Albânia soviética, uma verdadeira ilha ferroviária europeia. Neste processo António Costa e o PS tornam as exportações portuguesas reféns dos centros logísticos espanhóis, nossos maiores concorrentes no mercado europeu, além de eliminarem toda a possibilidade de investimento estrangeiro na indústria portuguesa, nomeadamente exportadora, devido aos transportes deixarem de ser competitivos. Além de Portugal ficar dependente do transporte aéreo, mais poluente e mais caro para o transporte de passageiros e mercadoria com destino às grandes cidades espanholas e europeias, com perdas óbvias para o turismo e para a economia.
Educação – a formação e o desenvolvimento dos recursos humanos são hoje considerados os factores essenciais do progresso económico e da felicidade dos povos. Não em Portugal, a braços com um sistema educativo obsoleto e em guerra permanente, sem qualidade e sem exigência, em que os jovens com cursos superiores são forçados a abandonar o país, para serem substituídos por imigrantes oriundos dos países subdesenvolvidos, que concorrem com sectores da sociedade portuguesa em tarefas não competitivas na moderna economia, com baixos salários e a viverem em condições sub-humanas. Nenhum outro factor nos afasta tanto do progresso dos restantes países europeus como a educação e nada pode compensar no futuro o tempo perdido com esse enorme erro da governação do PS de António Costa.
Saúde – o Sistema Nacional da Saúde (SNS) teve, até a um passado recente, uma qualidade dos recursos humanos do melhor nível existente em qualquer país, sistema que a incapacidade de organização dos Governos do PS deixou degradar nos últimos anos por razões ideológicas e organizativas. No SNS sucedem-se hoje sucessivas medidas reveladoras da maior desorientação, tendo sido criado um enorme declínio relativamente ao sistema privado, razão do seu actual crescimento, tudo à custa da saúde dos portugueses, nomeadamente os de menores recursos. Mais grave ainda, instalou-se no SNS um clima de desorientação e de autoritarismo que está a matar o clima de cooperação até aqui existente entre os profissionais do sector e entre as suas diversas instituições. A ideologia e os interesses da grande família socialista, sedenta de cargos e de mordomias e sem a correspondente competência, está a destruir o SNS, o qual levará muitos anos a retirar do fosso em que o PS o meteu.
Justiça – a corrupção que mina a sociedade portuguesa, em grande parte resultante dos sucessivos Governos socialistas, contribuiu para minar a qualidade e a organização do nosso sistema de Justiça, tornando-o menos competente, mais lento e, principalmente, menos capaz de fornecer justiça aos portugueses e à economia. Em particular, o Governo de António Costa tudo tem feito para minar a separação de poderes e através de sucessivas nomeações, programadas para defenderem os interesses da família socialista, procura evitar por todas as formas o julgamento dos graves casos pendentes sob a cabeça dos socialistas. O que transformou a justiça portuguesa num campo de batalha permanente entre advogados bem pagos e o sistema de Justiça, a que nem o Tribunal Constitucional escapa. Veja-se, por exemplo, o caso recente que tornou claro o papel que o Tribunal Constitucional teve na acção do Juiz Ivo Rosa na destruição do “Processo Marquês”.
Democracia – após o 25 de Abril, um tempo que foi o de todas as liberdades, pouco a pouco, os partidos políticos foram ganhando poder à custa do poder das instituições da sociedade e através de sucessivas intervenções destinadas a reforçar o poder não democrático do Estado. Através de leis eleitorais falsamente democráticas, as direcções partidárias ganharam o poder de escolher os deputados no modelo do chamado centralismo democrático da antiga União Soviética, aperfeiçoado e disfarçado com o tempo e a acção interessada dos partidos. Desde há muito que a Assembleia da República deixou de representar os portugueses, razão suficiente para que cada vez menos portugueses votem. Mas não só, as redes sociais estão repletas de sentimentos de revolta, as sondagens mostram a desilusão da generalidade dos portugueses, enquanto os socialistas se defendem aumentando a autoridade do Estado sobre os cidadãos, mentindo e usando a sua poderosa máquina de propaganda para adiar a inevitabilidade do crescimento da revolta dos portugueses.
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Em resumo, a governação do Partido Socialista ao longo dos anos mostrou, sem grande margem para dúvida, não ter gente, nem a vontade, nem a competência para democratizar o nosso regime político, permitindo o aumento da participação democrática dos portugueses, da disciplina e da exigência colocadas ao serviço de Portugal e dos portugueses. ■




