As andorinhas árabes…

Não é por morrer uma andorinha que acaba a Primavera, mas no mundo árabe já morreram muitas e não há maneira de chegar a tal “Primavera”…

Vamos relembrar uma história de dominós que teimam em não parar de cair. No dia 17 de Dezembro de 2010, numa praça pública, algures num lugarejo no centro da Tunísia, o jovem vendedor ambulante Mohamed Bouazizi foi abordado por uma mulher polícia que lhe pediu a licença. O jovem atrapalhou-se, não arranjou desculpa e foi levado para a esquadra onde foi bastante maltratado. Lá passou a noite e de manhã foi libertado. Assim que chegou a casa colocou no seu “Facebook” toda a sua indignação e vergonha. Ser esbofeteado é uma coisa. Por uma mulher é outra. No seu mundo e cultura nada há de mais humilhante. Depois de ter ateado um verdadeiro fogo nas redes sociais, despejou um “jerrican” de cinco litros de gasóleo e imolou-se na praça pública. Foi este o rastilho que deitou abaixo os regimes da Tunísia, da Líbia, fez tremer o Egipto, destruiu a Síria, abalou a Argélia e as monarquias do Golfo, incluindo a saudita. E ainda estamos para saber quando e onde pararão as ondas de choque. Vamos por partes.

A Tunísia tinha no poder a família de Ben Ali, corruptos e déspotas, à frente de um estado laico, funcionando numa economia do mercado, estavam no poder há várias décadas; era um dos destinos favoritos da classe média francesa que aí plantou dezenas de hotéis e clubes de férias. Havia nichos de fundamentalismo islâmico, é normal, pois existem nichos de fundamentalismo em todos os agrupamentos humanos. Mas lá, como cá nas igrejas, as mesquitas debatiam-se com falta de fiéis. Lá como cá, a juventude estava menos virada para o fim do mundo e mais para o fim-de-semana. Passados apenas 15 dias depois deste episódio, a família de Ben Ali fez as malas rumando ao exílio na Arábia Saudita e os jovens acreditaram que com a partida deste verdadeiro “Ali Babá” tudo iria mudar. Hoje, passados pouco mais de dez anos, continuam à espera. A dignidade, emprego e a liberdade teimam em chegar. A Tunísia caminha de impasse em impasse, o PIB caiu a pique, o país já teve várias eleições, os governos são fracos, o turismo morreu e os partidos extremistas vão crescendo, porque quando a fome aperta, resta a fé. 

A Líbia tinha um regime nacionalista liderado pelo carismático Muhammad Khadafi, a quem a Europa comprava petróleo. Poucos anos antes da queda ainda fez um périplo pela Europa, começando por Lisboa, onde esteve instalado numa tenda gigante em S. Julião da Barra, rodeado por um exército de guarda-costas feminino. Foi em Dezembro de 2007, no âmbito da Cimeira UE-África. Recebido por Sócrates, esteve em amena cavaqueira com vários chefes de Estado. Pouco tempo depois, ele e o seu país eram reduzidos a cinzas pelos bombardeamentos da NATO. Khadafi não era um menino de coro, mas do lado de cá também não existem muitos. Maquiavel explicou tudo isto há quase 500 anos. Bismark chamava-lhe “Realpolitik”. A Líbia está desde 2010 entregue a uma sangrenta guerra civil, opondo as várias tribos e regiões entre si (Trípoli, Cirenaica e Fezzan), cuja união artificial vem do tempo da colonização italiana, efémera e superficial. Há, porém, luz ao fundo do túnel. 

Com a mediação da ONU, e depois de longas maratonas negociais, um governo provisório foi entregue ao multimilionário Abdelhamid Dbeibah, que a 13 de Março deste ano assumiu o compromisso de preparar o país para eleições legislativas e presidenciais em Dezembro próximo. Este homem de negócios, com ligações a Khadafi nos tempos da ditadura, não pode concorrer, nem ele nem o seu gabinete. Tem, entre outras, a tarefa de convencer os Estados Unidos, a Rússia, a Turquia e Emiratos a desmobilizar os seus 20 mil mercenários, cada um a soldo dos respectivos senhores da guerra. E tem de manter calmas as três regiões, histórica e culturalmente muito diferentes entre si. Prometeu melhorar as condições de vida da população, recuperar as infra-estruturas básicas, a reabertura de vias terrestres vitais e tudo isto num espaço de apenas nove meses.

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