As várias Persona(gen)s em António Costa

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Já por várias vezes afirmei que o PS e seus muchachos titubeantes são pródigos em estarem em dois ambientes e posições incompatíveis, que os obriga, não raras vezes, a fazerem um contorcionismo mental e verbal para eles e para os outros, que tem apenas uma e uma só conclusão: ou os primeiros são parvos por acreditarem naquilo que proferem, ou querem fazer o cidadão comum acreditar naqueles disparates, achando que as pessoas são parvas. Nenhuma das conclusões a que se chega é realmente boa.

Exemplificando concretamente o que aqui é dito, socorro-me de um nome maior do PS, António Costa, o qual, frequentemente, tem que vir forçosamente a público fazer aquele exercício ilusório de quem tem diversos chapéus, vestimentas e cartolas, mas que, na realidade, nem um só coelho sai dela, ficando-se normalmente pelos gatos que de hora em vez vai vendendo e deixando o truque completamente desengonçado, à vista de todos, com a plateia desiludida e com vergonha alheia pelo aparato ridículo a que assiste.

Dois momentos paradigmáticos, embora haja bem mais, compõem o ramalhete do ridículo a que chegámos com este tipo de atitudes, em bom rigor não exclusivamente características dele, e já com fervorosos e exemplares aprendizes até ao momento. O primeiro, remonta há uns anos e envolve o cidadão Costa e o político Costa, o primeiro apoiava indiscutivelmente um reconhecido arguido de um processo mediático numa candidatura aberta a um dos mais importantes clubes desportivos de Portugal, já o último, não podia deixar de condenar e naturalmente solidarizar-se com as vítimas da manigância e ao modo como o candidato ao referido órgão se comportava e condenar veementemente o acto, num exercício assumido de esquizofrenia delicioso, à falta de melhor expressão, para quem como eu assistiu de bancada VIP a este episódio.

O segundo momento, bem mais recente, mas nem por isso menos caricato, e que passou despercebido para a maioria das pessoas, contrapõe o político primeiro-ministro António Costa, ao secretário-geral do partido, homónimo.

Mais uma vez, o primeiro tem que manter as boas relações e o diálogo aberto com todas as forças políticas no sentido do estreitamento de cooperação entre os dois países, independentemente das suas ideologias “blablá”, já o segundo assume-se como um entusiasta fervoroso da eleição de Lula, dada a afinidade ideológica e boas relações estabelecidas anteriormente pelos dois partidos, acabando por se imiscuir precisamente naquilo de que se tentava demarcar de forma paradoxal e anedótica, já que embora não pareça (ironia) ele é a mesma pessoa.

Haverá ainda a ter em conta uma terceira pessoa/instância, que desta vez não apareceu a emitir a sua opinião como no primeiro caso, o Senhor Costa, enquanto cidadão insuspeito que pode explanar o seu pensamento à vontade, apoiar arguidos a eleições, adquirir imóveis abaixo do preço de mercado, insultar pessoas em campanhas, fazer investimentos e trinta por uma linha, podendo expressar em vernáculo, quiçá em breve, o descontentamento que este tem perante a eleição de Bolsonaro, caso isso viesse a acontecer ou outra coisa qualquer, independentemente se o espaço onde o faz é no hemiciclo ou numa oficina da esquina onde vai lavar o carro.

Esta situação é cada vez mais plausível, a julgar pelo modo jocoso com que se tem dirigido aos políticos da oposição nas últimas semanas, já que os papéis de cada uma destas, outrora bem definidas “personas” se (con)fundem à medida que o à vontade de quem tem uma maioria absoluta se instaura e a situação do país fica mais e mais periclitante com as notícias externas e internacionais que vão chegando, amea-
çando assim a narrativa aparentemente vitoriosa que os órgãos de comunicação e as instituições oficiais tão bem se têm esforçado para promover, enquanto os novos pobres não param de engrossar as fileiras das estatísticas, mesmo que estes trabalhem em “fulltime” a valores miseráveis e a realidade teima em não corroborar a veracidade das declarações deste.

Seja como for, o actual primeiro-ministro, pai, cidadão, secretário-geral de um partido que por acaso é Governo, entre muitas outras dimensões, tem vindo cada vez mais a confundir as inúmeras incumbências que voluntariamente, é preciso sublinhar, tem chamado até si, até ao ponto em que, estou em crer, nem ele entende mais qual a opinião que tem sobre determinado assunto, dada a sua cada vez mais plástica (no sentido de maleabilidade e de artificialidade) opinião que foi sendo habituado ao longo dos anos a ter em relação a diversos assuntos e modos de estar na vida, consoante as circunstâncias ditavam e o retorno que dali poderia ou não advir determinava. 

Neste “corrupio” retórico em que está imbuído, pouco interessa se as opiniões que tem são diametralmente opostas, ou colocam em dúvida o argumento anterior dado há meia hora, com base na exigência que as suas funções de circunstância exigiam, são momentos e esses momentos são passíveis de ser alterados, reescritos, convertidos ou até mesmo negados que alguma vez tenham tido lugar. 

É neste patológico estado de bipolaridade crónica que a política actual se vai vivendo e passando sem qualquer convicção profunda de maior e onde tudo e o seu contrário são possíveis em simultâneo, proferido pela mesma voz monocórdica e não modal.

Parece, afinal, e terminando do mesmo modo que começámos esta curta dissertação, que o gato que o primeiro-ministro nos tenta sempre e com exagerada frequência exibir, como se nos estivesse a convencer pelo cansaço de algo, é o gato de “Shroedinger”, que ora está vivo, ora está morto, e tudo ao mesmo tempo, consoante a hora em que se olhe para o “truque” de retórica que está a ser engenhosa e ardilosamente manejado e em que todos exclamam com admiração.

Mas, afinal, onde é que ele colocou a congruência, a coerência e as suas convicções no meio de todo este aparato? A resposta é muito simples e só deve merecer uma e uma só conclusão, depois de olhar todos os ângulos. Na realidade. Se olharmos bem, nunca lá esteve.