Mudam-se os tempos, permanecem as vontades

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Nota prévia: não, não é um artigo de mau gosto sobre pedofilia. É só um artigo de mau gosto sobre a política portuguesa…

Jerónimo de Sousa abandona a liderança do Partido Comunista e o assento parlamentar. Era o deputado mais longevo, que vinha ainda do tempo da Constituinte. Ou seja, muito antes de Costa sonhar sequer em fugir com as chaves da Associação de Estudantes depois de perder as eleições, já o afinador de máquinas sentava o rabiote no hemiciclo debitando ilustres contribuições para a democracia portuguesa, a começar na necessidade de alternância política e sublinhando o inatacável respeito pelos resultados eleitorais.

Jerónimo foi a prova viva de que algo vai muito mal na sociedade portuguesa, quando esta obriga alguém à mesma estafada tarefa durante quarenta e sete anos e só lhe permite reformar-se – e por doença, sublinhe-se – aos setenta e cinco anos… Anda aí o pessoal a ser enganado quando lhe acenam idades de reforma aos sessenta e picos, quando, sem saber de onde elas caem, ainda tem que alombar mais uma dezena de anitos. Se três quartos de século não garantem que a malta se possa reformar e ir gastar a fortuna num laguito na Suíça, com as notícias alarmantes da insustentabilidade da Segurança Social, estou seriamente desconfiado de que nos vão pôr a trabalhar depois de mortos:

– “Meu caro senhor, lamentamos muito, mas o facto de ter falecido há cerca de dois anos não é motivo para deixar de contribuir. Aliás, mal que lhe pergunte, o senhor finou mesmo com autorização de quem? É que não vejo aqui qualquer despacho administrativo que lhe permitisse tal veleidade. Será notificado para pagar a respectiva coima no prazo de dez dias úteis”.

E Jerónimo foi um político de excelência, tendo ganhado todas as eleições internas que disputou – e por margem incontestável – e apresentando sempre soluções governativas a par com a evolução da situação económica e política nacional e mundial, demonstrando uma visão ímpar e a perfeita noção da volatilidade e mudança emergente, consignando sempre respostas e soluções adequadas e inovadoras.

Mais ou menos na senda daquilo a que o Partido nos habituou, apesar de ficar sempre surpreendido com os truques de magia e habilidades circenses. No partido que mais pugna pela democracia (ironias à parte, porque os comunistas acreditam mesmo nisso!), num dos processos eleitorais mais concorridos de sempre, venceu Paulo Raimundo. 

Foi bonito de assistir ao amplo debate interno, à composição das listas, à auscultação dos militantes, ao calor do congresso, à eleição directa, à incorporação dos adversários na futura Direcção partidária, à demonstração de força e pujança do partido e ao contributo que irá trazer para o debate público numa clara mudança de estratégia.

Confesso que, ao ver tudo isto, até fiquei com saudades das eleições à moda antiga das dinastias portuguesas. Muito melhor, mais profissional, organizado e, sobretudo, transparente do que as eleições no Estado Novo, que eram um bocado seca e, segundo consta, a fugir para o manipulado… E num processo quase tão rápido como a licenciatura de José Sócrates…

Também se percebe que tenha sido Paulo Raimundo o vencedor da contenda. Pela clareza com que expôs as suas ideias, pelo rasgo intelectual e discursivo, por representar uma profunda ruptura com o passado, pelo dinamismo que empresta às suas acções, pelo arrojo do seu programa político, pela solidez das suas relações institucionais e, sobretudo, pelo seu passado político que o tornou uma das figuras de proa do PCP. É inebriante o seu carisma, a clareza do discurso e o seu passado político merecedor de profunda vénia.

Chapeau, igualmente à estrutura, que nos andou a enganar quase uma vintena de anos. Os comunistas, sob a liderança de Jerónimo, reduziram a sua expressão eleitoral para menos de metade, a liderança nas autarquias ainda para menos que isso, perdendo até alguns dos bastiões que vinham do 25 de Abril e a representação parlamentar para mínimos olímpicos. Fizeram-nos entrar pelos olhos dentro Bernardinos e Joões (estes em dose dupla) na crença de um delfinato (palavra nova, confesso!) comunista avant garde, que, sem aviso, trataram de empalar… Ia a malta, quais Fangios, a rivalizar com o Cabrita pela faixa da esquerda, quando somos ultrapassados pela direita por um qualquer cromo, tão estonteantemente, que nem lhe conseguimos ler a matrícula. E sem pisca!

A vénia, mais que merecida, é devida, como uma passagem bem feita na sueca que se joga nos bancos de jardim. Manilha para a mesa na crença de que é o parceiro que tem o ás na mão, e pimba!, quase que sofremos uma síncope quando ele aparece da direita…

Ninguém estava à espera. Nem nós, nem os comunistas. Os motores de busca rebentaram e a Wikipédia teve que se actualizar à velocidade da luz… O Google perguntava: Paulo quem?

*

A pergunta que se coloca é: até quando vamos tolerar e permitir que um partido que não reconhece nem pratica as regras democráticas, continue a dar cartas no espectro político nacional.

A lei – que não a constitucional, ao que parece – é muito mais restritiva e exigente com o cumprimento de regras básicas como a sujeição a processos eleitorais universais, directos e transparentes, o que bem se compreende.

O que já não se compreende, nem se pode aceitar, é que em pleno século XXI continuemos a compactuar com partidos obscuros, estatutos fechados e inconstitucionais e com processos de expulsão insindicáveis, quando ainda o ano passado se andaram a bater pela ilegalidade estatutária de um partido de direita…

Há que ter coragem! Há que ter coerência! Há que ter respeito pelos portugueses!

É que há muito que os comunistas já não comem criancinhas…