Autárquicas: Deputado socialista defende o uso de “cacetes terapêuticos”

Já se sabia que “quem se mete com o PS, leva”. Agora, o deputado socialista José Magalhães é mais concreto e defende o uso de “cacetes terapêuticos” para pôr o PSD na ordem. O elogio da violência fez a sua entrada oficial na campanha autárquica.

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É no que dão as intimidades com a extrema-esquerda: de repente, até um parlamentar de aspecto civilizado como José Magalhães se deixa influenciar pelos maus exemplos do marxismo estalinista e desata a propor o uso de “cacetes terapêuticos” contra quem não pensa como ele. É certo que Magalhães só em 1990 se converteu à democracia (ou assim aparentou), tendo sido até então dedicado militante e deputado do PCP. Mas esperava-se que estivesse curado. Afinal, parece que não: o verniz estalou-lhe esta semana. 

No Seixal, localidade da margem Sul do Tejo ferozmente dominada pela esquerda, a candidatura PSD à Câmara local decidiu abanar a paz podre reinante e, numa irreverente acção de campanha realizada na madrugada de segunda-feira, tratou de “renomear” algumas ruas do concelho. Assim, à placa onde se lê Rua do Movimento das Forças Armadas, os militantes ‘laranja’ sobrepuseram outra (em cartão) com os dizeres Rua em Memória das Vítimas das FP-25. Já a Rua 1º de Maio “passou a ser” Rua 25 de Novembro. A acção visou cinco artérias que, segundo o PSD, “têm o nome repetido” na localidade, o que “causa grandes constrangimentos à nossa população e gera conflitos na recepção de encomendas, cartas e até em caso de emergência”.

O objectivo confesso dos militantes ‘laranja’ era aproveitar a repetição dos nomes das artérias para, simbolicamente, “começar a limpar o comunismo das ruas do Seixal”, substituindo placas toponímicas de esquerda por outras mais pluralistas e democráticas”. Tudo não passava de uma irónica ‘charge’ política numa “terra vermelha”. Mas comunistas e socialistas não acharam a menor graça e reagiram como se de um sacrilégio se tratasse.

Nas redes sociais, incontáveis comentadores de esquerda condenaram a ‘partida’ feita pelo PSD, apodando-a de “burrice”, “provocação”, “descaramento”, “tristeza”, “grosseria” ou “vandalismo”. Foi então que o deputado socialista José Magalhães resolveu também entrar na dança, subindo em vários furos o tom azedo da conversa. “Uns cacetes terapêuticos não resolveriam o problema?” – perguntou nas redes sociais o parlamentar do PS, que ultimamente se distinguiu na defesa da controversa “Carta dos Direitos Humanos na Era Digital” (a tal que o PR há pouco enviou para fiscalização constitucional, por conter potencial ameaça à liberdade de expressão).

Queixa-crime

Imediatamente o candidato do PSD à Câmara do Seixal, Bruno Vasconcelos, anunciou a apresentação de uma queixa-crime contra José Magalhães e exigiu a sua demissão imediata da bancada parlamentar socialista. “É inadmissível que em democracia se recorra à ameaça física para disputar eleições, principalmente quando as mesmas ameaças são encabeçadas por dirigentes partidários e até titulares de órgãos públicos”, declarou Vasconcelos, em comunicado. “Neste momento, apesar de sob ameaça, não virarei costas a esta luta. Ao que parece no Seixal teremos um novo Verão Quente, mas mais uma vez o comunismo não passará”.

José Magalhães, que possivelmente não calculara o impacte que as suas palavras teriam na cena política, foi apanhado desprevenido e tentou menorizar o incidente. Num jogo de palavras pouco convincente, Magalhães afirmou que apenas quisera apelar “ao reforço da dissuasão policial para evitar confrontos entre civis” (confrontos que só ele imaginou), acrescentando que “a terapia deve ser preventiva” de actos que considerou ilegais. E explicou, referindo-se às acções de propaganda dos militantes social-democratas: “Se os desordeiros, ao chegarem ao lugar onde querem violar a lei, encontrarem a autoridade pública de olhos abertos e cacete à cintura, atrevem-se? Quem diz cacete diz algemas”.

A explicação não colheu e a estrutura local do PSD manteve o desafio à direcção do PS para que desautorize Magalhães, insistindo numa queixa-crime a entregar nos tribunais por ameaça e incitamento à violência.

“Dar-lhes no focinho”

Mas a participação judicial do PSD não visa apenas José Magalhães. Embora o deputado do PS seja um político com inegáveis responsabilidades partidárias a nível nacional, um outro figurão da política de esquerda ultrapassou-o em violência verbal: trata-se do dirigente do PCP Rui Francisco, vereador da Câmara Municipal de Odivelas, actual cabeça de lista à Assembleia Municipal de Odivelas e ainda adjunto do autarca comunista Bernardino Soares em Loures.

Este responsável comunista escreveu no Facebook: “Começo a acreditar seriamente que devíamos ir atrás destes pulhas e dar-lhes no focinho. Eu estou pronto. Se o PSD não se sabe comportar em democracia e se sistematicamente assumem essa postura do ‘fazemos o que queremos e insultamos quem quisermos’ a solução é mesmo partir-lhes a tromba”.

Perante os termos usados, o social-democrata Bruno Vasconcelos anunciou incluir Rui Francisco na queixa-crime a apresentar na Justiça, ao mesmo tempo que exortava a CDU, na pessoa do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, para que seja retirada a confiança política a este dirigente, bem como à candidatura encabeçada pelo mesmo em Odivelas, “retratando-se e afastando-se prontamente destas atitudes anti-democráticas”. 

Contra o feiticeiro

A candidatura ‘laranja’ no Seixal não passava de mais uma das candidaturas oposicionistas “condenadas” ao insucesso em terras “vermelhas” – até José Magalhães e Rui Francisco se tornarem os protagonistas da entrada oficial do elogio da violência na campanha autárquica. De um dia para o outro, o pouco conhecido Bruno Vasconcelos tornou-se popular nos meios de centro-direita. Se o objectivo de socialistas e comunistas era intimidar o eleitorado oposicionista, o feitiço parece ter-se voltado contra o feiticeiro.

A Câmara Municipal do Seixal, liderada pelo comunista Joaquim Santos, tem cinco vereadores da CDU/PCP, quatro do PS, um do PSD e outro do BE. Nas últimas eleições autárquicas, o PSD obteve 12% dos votos, enquanto socialistas e comunistas juntos conseguiram 68%. ■