Caos nas urgências: causas, perplexidades e sugestões

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Causas

António Costa, o primeiro-ministro que vive no país das maravilhas, prometeu em 2016 que todos os portugueses iriam ter um médico de família e que o número de 1,2 milhões de pessoas naquelas condições que havia herdado em 2015 diminuiria para 500.000 em 2017.

Mentiu ou falhou!

Em Setembro de 2021, a “SIC Notícias” referia a existência de mais de 1 milhão de portugueses sem médico de família e em Novembro de 2022 a ERC-Autoridade Reguladora da Saúde admitia que a percentagem de pessoas com médico de família havia descido de 92,7% para 88,8% (queda de 3,9%) de 2017 para 2021, com especial enfoque nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Algarve.

A par desta lacuna gravíssima do SNS, temos ainda o deficiente funcionamento dos centros de saúde, apesar da construção de alguns edifícios novos para este efeito e supostamente com condições de proporcionarem outro tipo de serviço. Mas o problema está na gestão destas unidades orgânicas, não geridas profissionalmente, mas por gente nomeada para o efeito, sabe-se lá com base em que critérios, que não a sua formação em gestão e organização.

Aos centros de saúde também não são proporcionados meios materiais e humanos para levarem a cabo determinado tipo de intervenções, incluindo no campo da pequena cirurgia, retirando assim aos hospitais este peso acrescido. Faltam ainda nos centros de saúde consultas de especialidade, sendo que os médicos de família quase se transformaram em meros administrativos emissores de receitas, meios auxiliares de diagnóstico e encaminhamento para as consultas de especialidade… nos hospitais!

A capacidade e o tempo de resposta não são compatíveis com a as necessidades dos Clientes… e não dos utentes como insistem em chamar aos cidadãos. Esta diferença de vocabulário tem um significado profundo na acção quotidiana e deveria ser urgentemente reformulada.

Com estas estas duas realidades, o que resta à população?

Correr para as urgências dos hospitais!

Perplexidades

Admitindo que a maioria dos portugueses já frequentaram as urgências hospitalares, aqui se cita a chamada “triagem de Manchester”, caracterizada pelas cores atribuídas em função da gravidade dos casos que ali recorrem.

Como facilmente se constata, admite-se nas urgências casos pouco urgentes e não urgentes, o que deixa qualquer pessoa minimamente atenta a pensar.

Por outro lado, os tempos de atendimento associados são na realidade uma verdadeira miragem e a realidade do terreno comprova uma manifesta incapacidade de cumprimento de tais objectivos.

Mas não fiquemos por aqui e atente o leitor que face à lei, mormente o Dec-Lei 113/2011, de 29 de Novembro, as taxas moderadoras são devidas após a “triagem de Manchester”, isto é, antes da efectiva prestação do serviço de urgência o cidadão está obrigado a pagar… mesmo que a organização hospitalar desrespeite completamente os tempos de atendimento a que está obrigada pela “triagem de Manchester”.

Se, por exemplo, um cidadão com fita verde ou azul (casos menos graves e não graves) se cansar de esperar e deixar o hospital sem ser atendido, ou seja, sem ter beneficiado do serviço, é impelido a pagar e pode ter coimas se o não fizer.

Pode, inclusive, dar-se o caso de um cidadão que eventualmente morra enquanto aguarda pelo atendimento atrasado, também receber a nota de cobrança “post mortem”.

O que se passa com o legislador para permitir tais aberrações? Ou que negócio burlesco é este?

Sugestões

O actual quadro de ineficácia é complexo e não se pretende aqui apresentar soluções mágicas, mas apenas lançar algumas ideias para discussão:

– Retirada das cores verde e azul da “triagem de Manchester”… ou bem que é urgente ou não é urgente de todo, e o cidadão terá de ser atendido por outra estrutura do SNS;

– Eliminação ou transformação dos centros de saúde em pequenas unidades hospitalares de proximidade, com consultas de especialidade e atendimento de casos urgentes no âmbito das cores verde e amarela da “triagem de Manchester”… a cor azul entra no domínio das consultas regulares ou do próprio dia.

– Repensar a especialidade de medicina familiar e potenciar a mesma em domínios mais específicos, criando-se, por exemplo, as figuras do médico de família de saúde mental, de saúde pediátrica, etc.… diminuindo desta forma a lacuna de especialistas existente fora dos grandes hospitais, mas não invalidando a presença destes nos actuais centros de saúde e/ou futuros pequenos hospitais.

– Colocar à frente das novas unidades orgânicas, conceituados especialistas em gestão de Unidades de Saúde e não amadores, carolas e/ou compinchas;

– Criação urgente de unidades de atendimento “online” de cidadãos (para que serve a tecnologia?), após prévia triagem dos sintomas referidos, no sentido de evitar a acumulação de pessoas nos centros de saúde e/ou hospitais.

Conclui-se, com a principal das sugestões:

– Todos os responsáveis políticos deste país devem deixar de utilizar os hospitais e clínicas privados e apenas o SNS.

Exige-se o exemplo!