O congresso do PS cheirou – e muito – a prato requentado. Zero ideias, zero propostas, zero reformas. O que falta em competência, clarividência, rasgo e coragem, sobra em berros, punhos fechados e toda uma turbe reactiva a expressões chave. As palavras “direita”, “Chega” e “Passos” espoletam reacções pavlovianas na plateia, que, imediata e espontaneamente, começa a espumar, assobiar e soltar impropérios. À parte da moda Outono-Inverno e de ficarmos a saber que Pedro Nuno lava a roupa a altas temperaturas (ou isso ou compra as camisolas na Benetton 0-12), o congresso resultou num desfile de apóstolos a garantirem não existir qualquer outro partido no mundo capaz de governar tão bem como os socialistas portugueses e, sobretudo, ninguém mais eficaz e imputar responsabilidades actuais a defuntos já decanos. Politicamente, pelo menos. Do Estado Novo a Passos, passando por Cavaco (também ele com direito a apupos) e permitindo-se até um desvio até Sá Carneiro e Mota Pinto, todos são elegíveis enquanto culpados pelo actual “status quo”.
Há muito que os congressos partidários para pouco servem. Os partidos – pelo menos os dois maiores – fazem deles momentos de entronização, de comício e de negociatas “ad hoc” nas listas para os órgãos nacionais e eleições futuras. À pala de uma democracia aberta e o mais universal possível, optou-se pelas eleições directas, que, ao contrário do que se pretende, pouco mais são do que a cabal demonstração do real poder dos títeres locais e da eficácia dos sindicatos de votos. Só isso justifica as alianças dos opostos, as parcerias improváveis de arqui-inimigos e as pornográficas cedências ideológicas. Antes de Pedro Nuno apresentar o programa, já era seguro (estive para escrever com maiúscula, só por provocação) que seria o próximo líder socialista. O apoio de Assis terá tido um custo que só mais tarde saberemos qual a moeda de troca…
A vitória pré-anunciada, impediu outras figuras de monta – e seguramente de maior valor e competência – de se candidatarem. Este fenómeno ataca, também, o PSD. Quem não se recorda da corrida eleitoral em que Rio teve que se aliar a um improvável Salvador Malheiro, para garantir a vitória entre pares? Ou do poder que tiveram, a determinada altura, Marco António Costa, José Luis Arnaut, Miguel Relvas ou os sociais democratas madeirenses?
Os líderes eleitos chegam aos Congressos com a garantia, quer da aprovação da sua moção – seja ela qual for –, quer da (quase) inexistência de oposição e de debate de ideias em assembleia magna. Perdem os partidos, perde a democracia e perde, sobretudo, Portugal.
Mas a verdade é que há muito que o partido socialista nos habituou a isto. Com excepção dos confrontos dos idos anos oitenta, pós Mário Soares, os socialistas têm um estranho espírito de conformismo e ausência de vozes críticas, apesar de ser, provavelmente, o partido com o espectro político-ideológico mais alargado, abarcando sensibilidades muito distantes e concepções democráticas quase diametralmente opostas. As poucas que foram tendo, ao longo de décadas, souberam-nas calar, paulatina ou ostensivamente, sem pejo algum. Salgado Zenha, António Zorrinho, António Barreto, António José Seguro, Henrique Neto, António Vitorino, Ana Gomes, João Cravinho e tantos outros, históricos e fundadores, que se foram afastando da linha dos líderes em funções e que acabaram trucidados, sem dó nem piedade pela máquina partidária ou pelo esquecimento e (des)importância a que foram vetados. Destes, só Seguro e Ana Gomes têm espaço na opinião pública, tudo o resto é uma extensão do chefe, incapaz de verbalizar uma crítica, uma opinião contrária ou apontar caminho diverso. Chegámos a ter Costa e Pedro Nuno, com espaços televisivos antes de serem líderes e ensaiámos Medina e Ana Catarina Mendes quando se pensou que poderiam ser eles os próximos. Aliás, esta consonância e anuência, tão próprias do Partido Socialista, levaram Pedro Nuno a conceder a José Luís Carneiro uma representação nos órgãos nacionais equivalente ao seu resultado eleitoral. Ou seja, no PS, as eleições não são para ganhar e impor um programa, antes para distribuir lugares equitativamente por forma a calar os críticos.
Fica, de Pedro Nuno e do Congresso, uma outra nota digna de registo: a entrevista que deu à “SIC Notícias”, mostrou o deserto de ideias e de frases feitas com que pretende fazer campanha, empurrando tudo o que está de mal para o período de governação social democrata. Quando confrontado pela jornalista (primeira vez que vi em televisão tanta coragem… “Chapeau!”) que se tratavam de problemas causados pelo próprio PS e que o PSD estava afastado da governação há quase uma década, percebeu-se que, mais cedo ou mais tarde, irá cair a máscara a Pedro Nuno, irascível e incapaz de se controlar. O que é facto é que Pedro Nuno não serviu para ministro, mas pretende servir para primeiro-ministro. Não resolveu a alta-velocidade, a “TAP”, a Habitação, quando tinha tais pastas e competências e pretende fazê-lo quando não as tutelar. Pedro Nuno é uma espécie de cartomante com Alzheimer: sabe tudo o que irá acontecer nos próximos quatro anos, mas não se recorda de nada que aconteceu na última década…
Saudades dos tempos em que os Congressos eram uma roleta-russa onde tudo se jogava num único momento, onde as moções e os discursos elegiam um líder improvável ou traçavam o destino de um putativo vencedor. Quem não se recorda da rodagem do “Citroën” de Cavaco que o levou à liderança do PSD e, mais tarde, do país? Ou do, porventura mais certo, assertivo e frontal discurso de Menezes, em Lisboa, evocando, temporaneamente, os sulistas, elitistas e liberais? Se o tempo lhe deu razão, o Congresso não lhe perdoou… Ou de um outro, em que Sá Carneiro, líder do partido, teimava em chegar e a Mesa do Congresso, não mais podendo adiar os trabalhos, colocou à votação uma moção que se pensava respaldar o pensamento do líder e, como tal, foi aprovada. Este chegado, tinha um entendimento oposto. Tudo em alvoroço e logo se aventa a pioneira ideia de repetir a votação para que a moção pudesse ser chumbada. Sá Carneiro invocou a soberania do plenário do Congresso e os seus princípios, não deixando que a votação se repetisse. Em conformidade, demitiu-se da liderança…
Outros tempos, outros protagonistas. Homens, políticos, mas não artistas ou cartomantes… ■
Cartomantes com Alzheimer…




