Congresso do Chega: Ventura apela à unidade interna

Muitas voltas dá o mundo e a política é terreno fértil de mudanças. André Ventura, que no último fim-de-semana viu a sua moção aprovada por 79% dos delegados do III Congresso do Chega, é o mesmo que há quatro anos encabeçava a lista do PSD ao município de Loures. Talvez por isso sentiu necessidade de adiantar que o Chega nunca seria uma “cópia do PSD”, mas não deixou de evocar Francisco Sá Carneiro. Pouco depois citou Fernando Pessoa e disse: “Quero que se cumpra Portugal”.

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Os trabalhos começaram com uma já tradicional marcha por Coimbra, local escolhido para este III Congresso que, curiosamente, veio a adiar, uma vez mais, a discussão do Programa do Chega.

Acompanhados por um grande aparato policial – estava prevista uma manifestação dos Antifas contra a presença do Chega – Ventura caminhou entre a Porta Férrea até à Praça dos Heróis do Ultramar, seguido de um ruidoso carro de som e uma equipa de bombos.

Mais tarde, já na sessão do Congresso disse ao que ia. Prometeu “limpar Portugal” se um dia chegar ao Governo e “chamar à responsabilidade” a esquerda “pelo que fizeram ao país e os políticos que roubaram até ao tutano”.

“Se com Passos Coelho houve um ex-Primeiro-ministro preso, talvez com André Ventura houvesse vários dirigentes de esquerda presos em Portugal, porque roubaram este país até ao tutano”, disse Ventura no discurso de encerramento.

Apontando ao PS de António Costa, Ventura afirmou mesmo que “isto de destruir um país em pandemia com o suposto objectivo de controlar a pandemia terá de ser levado à responsabilidade”.

E ao contrário do que disse ter acontecido com o Governo PSD/CDS de Passos Coelho, se chegar ao poder não quer ser “fofinho” ou “o limpa lençóis”, mas sim “chamar à responsabilidade a esquerda e a extrema-esquerda pelo que fizeram a Portugal”.

O que esquerda e extrema-esquerda “fizeram a Portugal foi empobrecer o país, destruir emprego e o tecido empresarial ou deixar pensionistas na miséria com 150 euros por mês”, disse. E repetiu que serão os portugueses “a dar força” ao Chega nas legislativas e a levá-lo ao poder.

Num discurso em tom marcadamente violento, disse ser necessário que o partido não ceda ao politicamente correcto e não ceda às elites nem se deixe moderar, como chegaram a pedir o PSD e Rio.

“Não nos moderaremos na luta contra a corrupção”, disse, nem quanto a “políticos corruptos que vivem à custa dos salários de um povo inteiro ou que se admita a destruição da natalidade e se apele à imigração”.

Uma bala

Um discurso com uma dramatização final: “talvez um dia uma bala acabe com a minha vida, mas nunca terminará com esta força que é Portugal”.

A relação com o PSD marcou todas as intervenções de Ventura, que foi muito crítico, o que levou a que Rui Rio tenha mandado retirar os representantes laranja na sessão de encerramento.

André Ventura afirmou que o PSD deu um sinal de que não quer o Chega numa solução de Governo, ao não participar no encerramento dos trabalhos do III Congresso.

À saída do congresso, o líder do Chega disse que a falta de comparência dos sociais-democratas dá um “sinal de que não está disposto a aceitar que forças políticas com ideias próprias e de ruptura entrem no Governo de Portugal”.

O PSD alegou que desistiu de estar presente na cerimónia de encerramento do congresso do Chega por considerar que foram ultrapassados os “limites da decência e bom senso” na forma como os sociais-democratas foram tratados durante os trabalhos.

André Ventura não deixou Rui Rio sem resposta e afirmou que “há muito tempo que achava que os limites da decência do PSD tinham sido ultrapassados, quando inviabilizou os debates parlamentares quinzenais e viabilizou reformas estruturais como a das Forças Armadas, que motivou críticas de antigos Primeiros-ministros sociais-democratas”.

“Acho que foi Rui Rio e o PSD que ultrapassaram os limites da decência ao estarem sempre deitados com António Costa”, disse o presidente do Chega, acusando os sociais-democratas de estarem interessados em meterem, “por vezes, o pé no lado direito, mas a maior parte das vezes meterem o pé no lado esquerdo”.

Para André Ventura, há um antes e depois do III Congresso na relação com o PSD, depois de “receber um mandato claro para dizer aos sociais-democratas, que, se forem os mais votados nas próximas eleições legislativas, vão ter de se sentar à mesa com o Chega, não como um partido a negociar com um vassalo, mas como partidos iguais, a quererem formar um Governo”.

Ataques ao PSD

“Se Rui Rio não se quis sentar neste congresso, será que aceitaria sentar-se à mesa para formar um Governo pelos portugueses?”, perguntou o líder do Chega, considerando que o PSD estará “mais perto” de um Governo de bloco central do que com o Chega.

Disse ainda que os Açores mostram bem que o Chega “não vem para negociar, vem para dizer: estas são as nossas metas e se querem estamos dispostos a formar um Governo, mas se não querem têm de procurar outros parceiros”.

Ventura garantiu, uma vez mais, que o Chega não será nem “uma cópia nem uma muleta do partido de Rui Rio, nem se deixará condicionar”.

Uma única obsessão

O líder do Chega moderou as expectativas dos delegados ao congresso, dizendo que não pode prometer resultados imediatos, mas confessou que tem um “único sonho e uma única obsessão” que é levar o partido ao Governo.

A confissão foi deixada por André Ventura no final de um discurso no Congresso Nacional em que relativizou as divisões internas no partido, dizendo tratar-se de “dores de crescimento, e em que prometeu ser expressão pura do Portugal de bem”.

“Só tenho um único sonho, uma única obsessão que é levarmos o partido ao governo de Portugal, para transformar de vez a face deste país”, afirmou Ventura, já aos gritos, com uma música em pano de fundo, com os delegados a aplaudi-lo, alguns de pé, depois de ter falado durante 27 minutos para apresentar a sua moção de estratégia global.

Num congresso em que têm sido públicas as críticas entre delegados e dirigentes, o presidente e deputado do Chega relativizou o problema, dizendo tratar-se de “dores de crescimento”.

“Não me preocupam as divisões e disputas”, disse, para quem são a “prova de um partido que quer crescer”, embora também tenha admitido que “sem disputa ideológicas” o “partido seria muito melhor”.

Um dos temas que dividiu a discussão interna foi a revisão do programa do partido que, anunciou Ventura, será decidido na primeira reunião do conselho nacional após o congresso. Ou seja, foi novamente adiado.

Apesar de, desta vez, não ter citado as sondagens que colocam o partido mais à direita no Parlamento em terceiro ou quarto lugar, Ventura disse acreditar na importância do Chega: “Passámos de dispensáveis em democracia a indispensáveis em democracia.”

Deu, porém, o exemplo do resultado do partido nos Açores, onde elegeu dois deputados e está a dar apoio a um Governo de direita liderado pelo PSD para dizer: “remetemos para o lixo da História um governo socialista que tinha 25 anos nos Açores.”

A quem, devido ao discurso inicial afirmou que o líder do Chega está “megalómano” por achar que um partido “com dois anos e meio” pode ser governo, respondeu que o partido “é o novo sol de Portugal”. É “imparável” por achar que leva “António Costa às cordas” no debate político, ao contrário do que diz acontecer com PSD e CDS, e porque não “tem medo de não ser politicamente incorreto”.

À direita, PSD e CDS, estranhou o silêncio quando se fala no combate à corrupção e criticou a estratégia do Governo que, segundo ele, pretende “perdoar penas aos corruptos que confessam”.

E atacou as políticas do Governo, por apoiar o pagamento de medicamentos a imigrantes, e “esquecer” os portugueses que “vivem nas ruas e não conseguem pagar os seus medicamentos”. Por ele, André Ventura, e pelo Chega, afirmou, o Primeiro-ministro, António Costa já estaria numa “cadeira dourada” na Europa.

Apesar de concordar com uma separação entre política e religião, admitiu que “cada um nasce para o que nasce”. “E eu acredito que Deus me colocou neste lugar neste momento”, disse.

Solução de governo

No congresso em que pediu um mandato “claro, claríssimo” para negociar uma solução de Governo depois das próximas legislativas, em tese, em 2023, em que recusa pedir, mas sim “impor” e “exigir” ao PSD e pôs a meta de 10 a 15 por cento, Ventura admite ficar na oposição se as suas condições não forem aceites.

Para o líder do Chega, o partido mais à direita no parlamento, não há “nenhumas garantias” de que “uma governação social-democrata (mesmo com centristas e liberais) será substancialmente diferente daquela que actualmente é conduzida pelo Primeiro-ministro, António Costa”.

Em oito páginas, a moção aponta as metas eleitorais para as autárquicas – ser terceiro em número de votos – e nas legislativas ter 10 a 15 por cento, “e tornar-se assim indispensável à formação e viabilização de qualquer governo”, sem nunca referir os ministérios pretendidos, nem mencionar as “reformas” do partido na área da Justiça, como a prisão perpétua ou a castração química dos pedófilos condenados.

Internamente, a moção recusa qualquer “decisão judicial de ilegalização do partido”, porque isso representaria “a definitiva “‘venezuelização’ do regime político português” e defende que o congresso deve “definir os termos e os modos de luta e resistência” se “o sistema” remeter o Chega “para a ilegalidade e para a clandestinidade”.

Unidade Interna

André Ventura terminou o congresso com um apelo à “unidade” de militantes e dirigentes, porque para chegar ao poder é preciso mostrar que o partido sabe governar-se.

“Para sermos um partido de governo, temos que mostrar que governamos a nossa casa bem”, pediu Ventura, no discurso em que apelou a quatro anos de unidade, desdramatizando, porém, do debate e democracia internos.

E a exemplo do que dissera o seu convidado Matteo Salvini, líder da Liga, insistiu que “os inimigos” do partido estão lá fora e não dentro. “Todos os derrotados do congresso devem dar as mãos uns aos outros em prol do futuro de todos nós”, apelou.

A direcção nacional do Chega, proposta pelo líder, André Ventura, foi eleita com 312 votos, 79 por cento, no III Congresso nacional. Ventura tinha pedido uma “maioria reforçada”, acima dos 50 por cento dos votos, quer para a sua lista, quer para a moção global de estratégia, que se se considera ser votada juntamente com a direcção nacional.

Para a direcção nacional, votaram 377 delegados, tendo-se registado 312 votos a favor, 29 abstenções e 36 nulos.

Depois, foram anunciados os resultados para o conselho nacional, a que concorreu apenas a lista de Ventura, que obteve 311 (83%) em 364 congressistas.

No conselho de jurisdição nacional, a que concorreram três listas e votaram 364 delegados, venceu a lista B, de Rodrigo Taxa, com 201 votos (54%), seguido pela lista C, de José Dias, com 94 votos (25%) e pela lista A, de Carlos Monteiro, com 64 votos (17,2%).

Foram ainda empossados a comissão política nacional, órgão de consulta do presidente e por ele nomeado, liderado por Diogo Pacheco de Amorim, e também a comissão de ética, presidida por Rui Paulo Sousa.

O líder do Chega, André Ventura, escolheu duas mulheres, Marta Trindade e Ana Motta Veiga, para vice-presidentes do partido.

Os dois outros vice-presidentes, António Tânger Correia e Gabriel Mithá Ribeiro, eleitos no congresso de Évora, mantêm-se na direcção.

A moção global “Governar Portugal”, de André Ventura, que condiciona o apoio a um acordo de direita à entrada no Governo, teve a sua votação associada à eleição da direcção nacional.

A maratona de votação das moções sectoriais, feita por maioria, durou mais de duas horas, já depois de ter sido anulada a apresentação pelos autores de 42 das cerca de 80 moções ao congresso, que não foram divulgadas à comunicação social.

A grande maioria delas foi aprovada por observação, ou “a olho”, só se repetindo a contagem de votos quando a mesa tinha dúvidas. ■