Costa é um destroço de uma política náufraga

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Durante as passadas duas semanas fomos inundados por uma trintena de debates, dezena e meia de entrevistas e um sem número de análises, quer aos debates, quer às análises. Numa comunicação social que vive, quer à custa de subsídios do Estado (grande parte deles encapotados sob a forma de publicidade), quer de derivas ideológicas escolhidas a dedo e patrocinadas por direcções comprometidas, a subserviência analítica plasmou-se em comentários fúteis dando a mão amiga a uma esquerda estéril em ideias e soluções. 

Na sua generalidade – e excepção feita a Rui Tavares – mais não fizeram do que debitar lugares-comuns e “soundbytes” de propaganda que deixariam Goebbels envergonhado. Em cassetes repetidas de campanhas anteriores e em discursos pré-datados e imunes ao avanço do tempo, realidades e desafios. Sustentar, em discurso directo e factual, quanto custam as suas propostas e como as financiariam, é outra estória! Fazer política assim, é fácil. Andar no limbo da demagogia, fazendo o retrato da situação e apontando os problemas sociais como se fossem bravatas apenas suas. 

A comunicação social é complacente e não questiona. Embarca num pacto de silêncio ignorando o elefante na sala. É mais cómodo e comporta menos riscos, até para os próprios jornalistas. Mas, pergunta-se: então PS, BE e PCP não “governaram” nos últimos seis anos? Se assim é, porque é que os problemas subsistem? Porque é que todos os indicadores (económicos, sociais, de justiça, de educação, de crescimento e até de liberdade) pioraram nesse período? 

Ainda assim – e a realidade é inegável – porque é que a esquerda, no seu todo, parece continuar nas preferências dos portugueses? Sobretudo por dois grandes motivos:

– Primeiro, porque grande parte dos portugueses são acríticos ou politicamente analfabetos. Conseguem perceber os factos, mas não os cenários macroeconómicos, os compromissos europeus, a política orçamental, os limites constitucionais e toda a teia de relações imbrincadas que condicionam um modelo político. Conceitos como défice, dívida pública, medianas e outros que tal, pouco ou nada lhes dizem. Ficam-se pelo básico: pobreza, exclusão social, subsídios, gratuitidade, salário mínimo, desemprego, etc.…, sem perceberem que todos eles têm implicações económicas a que cumpre dar resposta.

– Segundo, porque se entendeu por bem deixar de se discutir ideias, projectos ou opções, passando a discutir-se a apropriação de conceitos e a rotular os partidos numa lógica maniqueísta: se é bom é de esquerda; se é mau é de direita. Como se as preocupações sociais, a liberdade, a Educação, a Justiça ou a Saúde tivessem dono!

Mas há muito que é este o diapasão que toca. Que querem que toque, ou que deixam tocar… E Costa, artista de carreira, por ele afinou e debitou, à desgarrada, rimas fáceis e que entretinham os tolos, já que não havia contradita. Só Carlos Daniel verdadeiramente tentou… E sem sucesso, diga-se!

Ficaram sem resposta, sem explicação e sem culpados questões como o facto de em 2000 existirem 34 países mais ricos que Portugal e 21 anos depois esse número ser de 44; de a carga fiscal em 2020 ter atingido o valor recorde de 34,8% do PIB; de os socialistas terem governado 19 nos últimos 25 anos, e que quatro anos de governo do PSD foram com intervenção da “troika” para resolver a terceira bancarrota socialista; que os últimos 20 anos foram os piores de crescimento económico dos últimos 100; apenas a Hungria teve pior desempenho que nós na resposta a necessidades de saúde e cuidados médicos no primeiro ano da pandemia; que Portugal apresenta já a carga fiscal mais elevada sobre os salários de toda a Europa ocidental; que caímos no “ranking” de bem estar económico; que fomos ultrapassados por quatro países do antigo Bloco de Leste e estamos na iminência de sermos ultrapassados por mais quatro; que Portugal é o segundo país da OCDE com maior queda económica face a 2019; e tantas mais…

Para isto Costa não tem solução. Apenas quer o voto dos portugueses. Não explica para quê ou o que irá fazer diferente. Apenas ameaça com uma demissão. Como os miúdos que levam a bola para a escola e terminam o jogo quando o resultado lhes é desfavorável. Costa é cínico. É untuoso. Mas conhece o jogo como poucos e sabe como ninguém manusear todos os fios invisíveis que dão vida às marionetes.

A direita apresentou-se com Rio ao leme e uma mão cheia de propostas. Mas Rio não é de uma direita clássica, o que coloca problemas de retórica a Costa. Melhor: foi secundado por um Cotrim de Figueiredo bem preparado, bom orador e que refutou o argumentário de uma esquerda refém dos factos que criou. A direita reconstitui-se paulatinamente sem grandes derivas, sem extremismos e sem populismos. Até Ventura tem surgido muito mais moderado, procurando contribuir para uma solução transversal. O entendimento pós-eleitoral, se necessário, não se adivinha difícil de obter. 

Mais: Rio apontou baterias a um futuro de curto e médio prazo. Costa defendeu-se de um passado recente, errático e de má memória. Brandiu o Orçamento de Estado rejeitado pela própria esquerda, como se de uma tábua de salvação se tratasse. Não era. Era mais um destroço de uma política náufraga. 

Dos escombros do frente a frente resultou que 6% dos telespectadores admitiriam mudar o sentido do seu voto. Capitalizou Rio, portanto. Num cenário em que estão separados por menos de 10 pontos percentuais e a quinze dias do acto eleitoral, não é despiciendo. Bem pelo contrário. É uma aragem de mudança que começa a soprar sobre o estertor socialista.

E quando o próprio Costa tem que viajar para os Açores numa companhia privada porque a TAP não presta o serviço público devido, após injecção de milhares de milhões de euros em sucessivos orçamentos aprovados pelo BE e pelo PCP, aposto que a Catarina e o Jerónimo até o levariam lá num barco a remos…

É o que temos! É o que a esquerda nos dá! ■