Costa já arranjou mais uma bengala

O PAN, partido minúsculo com menos de 3,5 por cento dos votos dos eleitores, perdeu a vergonha e auto-propôs-se para o Governo da Nação. E o actual chefe do Executivo, prevendo dificuldades na aprovação do próximo Orçamento, não se atreve a desmentir a ambição desmedida dos animalistas…

0
670

Na mitologia grega, Pã é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Vive em grutas e vaga pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas. É representado com orelhas, chifres e pernas de bode. Amante da música, traz sempre consigo uma flauta.

O PAN que saiu do último Congresso mantém boa parte da agenda verde de Pã. Mas ambientalistas e animalistas, agora querem mais. Percebendo que António Costa está em apuros para garantir apoio suficiente na Assembleia da República, o PAN já se afirmou disponível para deixar passar o Orçamento do Estado. E até já fala em ser Governo! Assim Costa lhes apite com a sua flauta…

Dez anos após a sua fundação, o PAN afirmou no VIII Congresso que “veio para ficar” e, manifestando-se disponível para negociações orçamentais, impôs como prioridade o combate à “emergência climática”.

Inês Sousa Real foi eleita porta-voz do partido para os próximos dois anos, substituindo André Silva, que foi, em 2015, o primeiro deputado daquela força política no Parlamento e que agora volta à condição de filiado de base.

“Se um Estado se define também pelo seu Orçamento, então o Orçamento do Estado deve ser sim, e sempre, um Orçamento ambientalista, um orçamento animalista, que também seja promotor de um maior respeito por todas as formas de vida” frisou Inês Sousa Real, no discurso de encerramento.

A lista única à Comissão Política Nacional (órgão máximo de direcção política entre congressos), que foi encabeçada por Inês Sousa Real, foi eleita com 109 votos a favor, 14 brancos e dois nulos. A nova porta-voz do PAN apelou à união interna e comprometeu-se a trabalhar nos próximos dois anos de mandato para fortalecer o partido e fazer avançar as causas que defende.

“Hoje estamos aqui com um desafio e uma responsabilidade enorme entre mãos, um PAN que faz hoje parte e que se consolidou na vida política, que está em crescimento e que tem a enorme responsabilidade de dar resposta aos diferentes desafios da nossa sociedade, o desafio até de crescer ainda mais, o desafio de sermos um partido único, forte, dedicado e que apresenta trabalho”, afirmou Inês Sousa Real no seu discurso de consagração.

Sobre o congresso, que decorreu em Tomar, a líder destacou o “debate de ideias, o debate interno plural”, considerando que “não significa e jamais deverá significar unanimismo”. 

Garantindo que o PAN não vai “deixar para trás” a sua base ideológica ou “os seus valores”, Inês Sousa Real disse que é a primeira mulher a liderar o PAN e “apenas a quinta mulher em Portugal a assumir a liderança de um partido político em 47 anos de democracia”.

Juventude PAN e OE

A nova líder salientou a aprovação dos estatutos com vista à constituição de uma juventude PAN, Inês Sousa Real apontou que o partido conta com os jovens para “trilhar o caminho”. A todos os militantes Sousa Real deixou promessas. A líder do PAN dirigiu-se ao Primeiro-ministro, António Costa, afirmando que o partido vai exigir “mais” nas negociações do Orçamento do Estado para 2022.

Em seguida, deixou um “caderno de encargos” abrangente e genérico: “proteger os oceanos, as florestas, os animais, reduzir o número de pessoas em risco e em situação de pobreza, o número de pessoas sem acesso à saúde e ao trabalho, reaproximar o ordenado mínimo da média europeia e trabalhar para um melhor nivelamento do salário médio”.

Perante cerca de 130 delegados, numa sala do Hotel dos Templários, em Tomar, Inês Sousa Real declarou a intenção de levar o partido às eleições legislativas de 2023 “para ser governo” (sic). E disse: “basta ao financiamento das indústrias poluentes, da caça e da tauromaquia, à destruição dos meios naturais com obras, como o novo aeroporto no Montijo, e aos canis que são ‘depósitos de animais’”.

Além da estratégia global para os próximos dois anos, os delegados – que votaram com cartões impressos em papel reciclado e com tintas ecológicas – aprovaram mais de 20 moções sectoriais, desde os incentivos à utilização de fraldas reutilizáveis nas creches até à adopção de rações vegetais para animais e a esterilização abrangente dos animais de companhia.

Governo atento

Logo após a intervenção de Inês Sousa Real, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares disse ter encontrado no discurso da líder do PAN “pontos de convergência e capacidade de os transformar em medidas concretas, perspectivando a continuidade da relação exigente mantida com o Governo”.

Duarte Cordeiro falava aos jornalistas após o encerramento do VIII Congresso do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), em representação do Governo, ao lado de representantes da Presidência da República e de vários partidos políticos, nomeadamente, do PS, PSD, PCP, Verdes, BE, Livre e Volt.

O secretário de Estado afirmou encarar com naturalidade a afirmação de Inês Sousa Real de que o PAN quer e exige mais ao Governo, sublinhando estar habituado, nas negociações com os partidos, a que estes tenham “ambição e desejem mais avanços”.

“Encaramos com toda a naturalidade e perspectivamos manter a mesma linha de capacidade de valorização das convergências, daquilo que são objectivos comuns, na perspetiva de uma relação exigente, que sempre foi a relação que o PAN teve com o Governo”, declarou.

Duarte Cordeiro sublinhou que a exigência do PAN se traduz em medidas, algumas das quais até geram naturais controvérsias do ponto de vista da discussão. Sublinhou que o Governo tem dado nota “do conjunto de matérias que, nesta fase, já estão executadas”, assegurando que vai continuar a executar outras.

“É do nosso interesse demonstrar aos partidos com quem nós negociamos o Orçamento do Estado que temos a capacidade de executar essas medidas e também mostrar abertura para, naquilo que forem matérias de convergência”, traduzi-las em medidas concretas, disse, reafirmando ter ouvido no discurso da nova líder do PAN muitas matérias que se inserem na vontade de “resolver problemas estruturais, mas com perspectivas claras, entre elas a ambiental. E esse objectivo, o Governo partilha”.

Sobre a declaração da vontade do PAN de ser Governo, Duarte Cordeiro considerou ser natural que os partidos ambicionem, quando vão a eleições, ter “a máxima representatividade possível e serem responsáveis por aquilo que é a aplicação das suas medidas. Acho que isso é uma declaração que diz respeito à ambição do PAN para o futuro”, disse, sublinhando que não se pode “confundir com a vontade que o Governo tem de levar esta legislatura até ao fim, manter as convergências e manter espírito aberto”.

Afirmando que o Governo está “muito concentrado na recuperação da pandemia, na retoma económica e em sair da crise mais forte”, Duarte Cordeiro sublinhou que o executivo liderado por António Costa quer que “haja estabilidade” para prosseguir esse caminho. ■