Diálogos Improváveis: Problemas de expressão

0
452

Ministério da Economia, bom dia! Em que posso ser útil?

– Bom dia! Eu tenho uma dúvida e gostava que me esclarecesse.

– Muito bem! Diga lá!

– Ora, eu sou proprietário de uma discoteca e…

– Faz mal!

– Desculpe? Como assim? 

– Faz mal! É um mau negócio. Então o senhor não vê as notícias? As discotecas estão todas a fechar…

(Curto silêncio.)

– Pois! É por isso mesmo que estou a ligar. Então agora não vão poder (re)abrir?

– Sim, mas com restrições.

– E que restrições são essas?

– Primeiro tem que ter o CAE de bar…

– Mas eu já lhe disse que é uma discoteca…

– Muda o CAE!

– E isso é difícil?

– Nada. Não há nenhum procedimento particular ou verificação. Praticamente é só pedir e muda automaticamente.

– Então para que é que serve essa obrigação do CAE?

– Porque as discotecas não podem abrir, só os bares… Mais a mais, aproveita e serve uns pastéizinhos de bacalhau ao pessoal com os gins…

– Uns pastéizinhos de bacalhau?

– Sim, ou croquetes ou rissóis. Tenho uma cunhada que faz para fora e são top! Se quiser posso dar-lhe o número.

– Não, deixe lá. Estávamos a falar do CAE. Como é que eu faço isso, então?

– Tem duas hipóteses: a primeira é simplesmente mudar. Adiciona, está a ver?

– Mesmo que não corresponda à verdade? O que me está a dizer é para mentir, portanto…

– Aqui no ministério chamamos-lhe “economia criativa”. É uma ficção empresarial, percebe? Daí os pastéizinhos, para dar mais credibilidade ao negócio…

– E se for fiscalizado?

– Primeiro, quem fiscaliza, é a Administração Interna. Como imagina, com tantos inquéritos aos próprios serviços, não têm pessoal para mais nada… Depois, quem é o “fiscla” que não gosta de pastéizinhos?

– Então, e a segunda?

– Ora, a segunda hipótese é mais complicada. Tem que ver com a identidade de género!

– Identidade de género?

– Sim, tem que alegar que tem uma discoteca, mas que, na verdade, ela sempre se sentiu um bar. Ou seja, é um bar preso no corpo de uma discoteca, percebe?

– Minha senhora, eu não sei se me fiz entender: estamos a falar de uma discoteca. Não tem corpo, não tem vontade…

(Interrompe, exaltada.)

– Olhe, eu não gosto nada de pessoas como o senhor. Que não respeitam os sentimentos dos outros…

– Sentimentos? Jesus Cristo!

– E, já agora, peço-lhe que se abstenha de referências religiosas… Aqui somos agnósticos e respeitamos todas as crenças.

– Era uma força de expressão…

– Como a dos “Clã”? Gosto muito… Como é que é mesmo? “O teu mundo está tão perto do meu/ E o que digo está tão longe/Como o mar está do céu…”

– Problema, minha senhora… A dos “Clã” chama-se problema de expressão!

– Por falar em problema. O senhor tem outro problema. Não pode haver pista de dança!

– Não pode haver pista de dança? Como assim?

– Então! Os clientes não podem dançar. Simples!

– Mas, minha senhora, aquilo é uma discoteca!

– Um bar, meu caro. Um bar! Já acertámos isso… Se fosse discoteca não poderia abrir.

– Bem… E se não dançarem na pista? Se dançarem nas mesas, ou a caminho das casas de banho?

– Ora isso agora… Deixe cá ver os meus apontamentos… pois, sobre isso não diz nada… Ouça lá, o senhor tem a mania que é espertinho não tem? A querer contornar a lei?

– Eu chamo-lhe economia criativa…

(Depois de um pequeno silêncio, do outro lado da linha.)

– Ainda assim, por uma questão de bom senso, parece-me que não podem dançar “slows”, nem lambadas… por causa da proximidade, tá a ver?… olhe, ponha umas macarenas e coisas do género, como lá no ginásio… em que fazemos coreografias… muito giro aquilo… divirto-me imenso!

– Hum…

– Ah! O “Apita o comboio” também não pode ser!

– Mas porquê? Essa não é aquela em que o pessoal anda todo em fila, voltado para as costas dos outros? Não me parece grande o risco de contágio…

– Sim, sim. Mas essa não pode ser não é por razões sanitárias… É que no governo é um assunto sensível!

– Mas isso não é censura?

– O senhor anda mesmo desinformado… Censura era antes… Agora são direitos digitais… “fact check”, percebe?

– E quem verifica os factos?

– O regulador, claro está!

– E quem nomeia o regulador?

– Vamos pedir ajuda à dra. Ana Paula Vitorino. Ela é muito boa a avaliar currículos, sabe?

– Mas essa não foi aquela que…

– Irra, que o senhor é chato!!!  ■