Em debate: a vitória da Ucrânia na Eurovisão

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“O risco de haver uma instrumentalização é real” por José Guilherme Oliveira

Não é a primeira vez que a Ucrânia ganhou o Festival da Eurovisão, mas desta vez foi diferente. 

O facto de o país enfrentar a pior invasão desde a Segunda Guerra Mundial não impediu que participasse no concurso musical. 

Isto tem um significado que vai para lá da questão artística e tem uma carga política marcante. 

É questionável a realização de uma das maiores festas da Europa enquanto uma guerra brutal devasta um dos seus países.

A vitória da Ucrânia deu ao festival da canção um cariz político e demonstrou, além de tudo o mais, um posicionamento claríssimo da opinião pública europeia e, julgo, teve pouco a ver com concurso e com arte.

Independentemente de a “Kalush Orchestra” ter efectuado uma fantástica apresentação em Turim, agraciada pelos telespectadores com a pontuação mais alta, nunca se saberá se outras fossem as circunstâncias os resultados fossem idênticos. Julgo que não.

Mas o público, o povo europeu, não tinha outra escolha. Em primeiro, a Ucrânia precisa de todo apoio, venha de onde vier, além de que o festival da Eurovisão é um espaço de convivência pacífica, de autodeterminação e de alegria de viver, tudo o que a Ucrânia reclama também.

Os votos para a Ucrânia foram uma clara mensagem para a Rússia: a Europa nunca vai aceitar a guerra. Essa decisão política foi a correcta. 

Não é a primeira vez que o festival se torna directa ou indirectamente um espaço político, aliás a vitória da Ucrânia em 2016, com a ucraniana Jamala, em Estocolmo, demonstrou de que lado estava a Europa após a anexação da Crimeia (a canção “1944” tinha toda essa carga inegável).

Com seu apoio à Ucrânia o festival da canção mostrou que o país pertence à família europeia, bem demonstrada pelos sucessivos apelos à ajuda à Ucrânia pelos diversos participantes.

Não há lugar para a Rússia nesta família. Após a pressão de vários membros, o país foi excluído do concurso após a invasão da Ucrânia. Para voltar ao festival a Rússia precisa ser mentalmente “desputinizada”. Isso levará anos, pois a aversão aos valores europeus, que são universais, está enraizada profundamente na sociedade russa.

O risco de haver uma instrumentalização do festival é real, mas é importante manter o certame como um espaço de liberdade e são convívio entre os povos europeus.

É difícil de imaginar como os ucranianos celebraram a noite, nunca o foi com a descontracção dos espanhóis, italianos ou portugueses, se tivessem eles ou outros ganho. 

Esta vitória foi antes de mais um abraço solidário á Ucrânia. ■

“O povo quis-se mostrar solidário com o povo” por Diogo Gil Gagean

Na passada semana realizou-se mais um festival da canção da Eurovisão. Evento a que já quase ninguém ligava nenhuma até à vitória de Salvador Sobral, o que fez levantar os mais pátrios do sofá para entoar a portuguesa quando o cantor lisboeta recebeu troféu.

Para a edição deste ano, ainda bem antes de ouvirmos as canções dos países representados, já apostávamos na vitória da Ucrânia. Todos estamos solidários com o povo ucraniano e a vitória dos “Kalush Orchestra” era expectável, mas ao mesmo tempo injusta para quem durante anos se preparou para o festival. A votação do júri tinha mesmo dado a vitória a Sam Ryder, do Reino Unido, e num volte de face nada “tarantiano” o público deu o troféu à Ucrânia. 

O povo quis-se mostrar solidário com o povo e assim desmereceu o trabalho que tantos artistas tiveram e que se viram derrotados politicamente e não pelo talento.

Sinais dos tempos novos, dirão alguns. Já nos temos habituado nos últimos anos a ver que quem ganha invariavelmente é a diversidade e não o talento. É assim nos prémios do cinema e é assim em quase tudo hoje em dia.

Quantas pessoas já se viram ultrapassadas na atribuição de prémios ou até mesmo na obtenção de um emprego em virtude da diversidade. As “positive laws” vieram para ficar. Claro que entendemos a bondade da intenção, mas a longo prazo, e da forma como a mesma se está a entrincheirar na nossa sociedade, começa a ter um efeito pernicioso na sua aplicação.

O que assistimos hoje em dia é a vitória da minoria, ou do politicamente correcto, em vez da vitória do mérito. Tudo se faz em prol da aparência, a aparência de sermos solidários, de parecermos bem perante os olhos dos outros. Hoje cada vez somos mais como a mulher de César, o importante não é ser, é parecer. 

A mudança social que as “positive laws” trouxeram foi um medo generalizado de emitirmos opiniões contrárias ao dogmatismo vigente esta semana. Foi assim com as medidas do Covid-19 e é assim com a vitória da Ucrânia. Quem não viu alguém a ser insultado nas redes sociais por não concordar com o desfecho da Eurovisão?

48 anos depois do 25 de Abril impera a autocensura, já duvidamos das opiniões dos outros e muitas vezes duvidamos das nossas. 

P.S. – A destruição do Partido Social Democrata contínua. Ficámos a saber que os principais candidatos à liderança do partido estilhaçado por Rui Rio não vão debater entre si as suas ideias e convicções, privando o seu eleitorado de saber o que pensam Montenegro e Moreira da Silva. 

Já nas últimas eleições Rui Rio recusou debater com Paulo Rangel, por estar muito preocupado com as eleições legislativas. O resultado foi catastrófico e os novos candidatos querem continuar nesta senda de esvaziamento do partido.

Como podem eles querer agregar todas as facções internas se se recusam a debater. É triste e penoso ver o que se passa dentro do maior partido da oposição. Como vemos em França e em Espanha, talvez o PSD vá ficar reduzido à insignificância, entregando de mão beijada o seu eleitorado ao Chega e à Iniciativa Liberal. ■