Fátima: 1917 e 2021

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No passado dia 13 de Maio tivemos novamente peregrinos em Fátima, depois de no passado ano de 2020 a data ter sido celebrada “à porta fechada”, como consequência da pandemia da Covid-19, na altura recente e quase desconhecida. A peregrinação foi presidida pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça.

Esperávamos, todavia, que a abertura aos fiéis fosse mais generosa (estiveram presentes cerca de 7.500 pessoas desta feita) do que no passado dia 13 de Outubro, em que tivemos um Santuário de Fátima com uma área útil de quase 50.000 metros quadrados (que acolhia normalmente entre 250 a 300 mil peregrinos) mas apenas 6.000 crentes posicionados em círculos pintados no chão do recinto. Critérios muito duvidosos, tendo em conta a realização de outros ajuntamentos, próximos da data em questão. Ajuntamentos claro, de cariz muito apelativo ao regime político vigente, como a “Festa do Avante” ou o “Grande Prémio de Fórmula 1” no Algarve, e onde se verificaram distanciamentos físicos bastante mais reduzidos entre os participantes. Porém, no Portugal socialista e na Europa da União, a primazia do secular sobre o religioso faz parte da doutrina vigente dos “novos valores europeus”, que nada têm a ver com a nossa tradicional matriz axiológica cristã. 

Voltando aos números oficiais da pandemia, e comparando com a situação em Outubro de 2020, aumentar significativamente a ocupação do Santuário seria simplesmente seguir os princípios lógicos mais elementares. Além do mais, os espectáculos de ‘stand up comedy’ e os concertos musicais parecem estar a regressar rapidamente aos pavilhões e demais recintos nacionais, e o Sporting Clube de Portugal festejou merecidamente o regresso ao título de campeão nacional de futebol, 19 anos depois do último, com estrondo (e muita gente…) pelas ruas e avenidas de todo o país, com especial enfoque em Lisboa. 

Não se vislumbra, assim, razão para não se ter verificado no dia 13 de Maio uma grande militância católica no nosso Santuário de Fátima!

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Aproveitemos para recordar o que foram e o que significam hoje o 13 de Maio e o 13 de Outubro – as duas mais célebres e celebradas datas da sequência fatimita de 1917: 

A 13 de Maio de 1917 apareceu na Cova da Iria, Aljustrel, sobre uma azinheira, a Virgem Maria. Três pastorinhos testemunharam o milagre: Lúcia, Jacinta e Francisco. 

Entretanto, ao décimo terceiro dia dos meses que intercalaram Maio e Outubro, sucederam-se no mesmo local as restantes aparições da que se veio a saber ser a “Senhora do Rosário”, e que completaram o ciclo mariano de 1917. Por exemplo, a 13 de Junho desse ano, os ilustres videntes de tenra idade, acompanhados por mais 50 fiéis, visionaram um clarão, seguido de um diálogo entre Lúcia e a visão que acreditamos ter sido novamente de Nossa Senhora. Passados exactamente cinco meses, no dia 13 de Outubro, ocorreu o famoso “Milagre do Sol”, testemunhado por (estima-se) 70.000 portugueses. Essa data, tal como o 13 de Maio, passou a ser recordada anualmente por devotos de Fátima, provenientes de todo o mundo. 

As aparições de Fátima constituíram luzes de esperança numa época negra da nossa antiga, fidelíssima, valente e imortal nação. Estávamos em plena Grande Guerra, escassos meses após o desastre de La Lys e no terceiro Governo de Afonso Costa, líder do Partido dito “Democrático”, a mais controversa figura da Primeira República: jacobino admirador das páginas mais negras da Revolução Francesa e conhecido pelo seu anti-clericalismo radical, que tinha na GNR a sua “guarda pretoriana” e na “Formiga Branca”, organização semi-clandestina, a milícia de eleição para violentas “acções de rua” e intimidação de adversários políticos. 

A República não conseguia fazer avançar Portugal economicamente, a esmagadora maioria da população era analfabeta, os governos caíam em sucessão e o caos social era permanente, com constantes insurreições e homicídios nas ruas. Um país em decadência material e espiritual. Nesse mesmo ano eclodiu a Revolução na Rússia, gerando-se um perigoso vento internacional para a nossa frágil República: o horror bolchevique. Para agravar a situação, em 1918 veio ainda a Gripe Espanhola (que terá levado quase 140.000 almas lusas em menos de dois anos), e Sidónio Pais, o Presidente-Rei (na expressão de Pessoa) e então a grande esperança para a restauração da ordem pública e a estabilidade política de Portugal, foi assassinado a tiro no Rossio no final do mesmo ano.

Era quase tudo negro nestes tempos, mas houve Fátima, que confortou a alma e trouxe esperança ao nosso povo. Hoje, os tempos mudaram e a comparação é difícil de fazer, mas governantes egoístas e corruptos, más decisões político-económicas e o adormecimento espiritual e patriótico de grande parte dos portugueses levaram-nos praticamente à perda da nossa soberania e a uma prolongada estagnação económica. Estamos de novo num beco de difícil saída. A crise pandémica, a que se seguiu a económica, agudizou a situação. Mas como ainda há bons portugueses, a esperança alimenta-nos a alma e não nos deixa desfalecer na caminhada, mesmo que muitas vezes não se saiba para onde caminhamos. Fátima é uma luz de fé e esperança que faz parte da nossa Portugalidade.

Assim, hoje precisamos de Fátima mais do que nunca, para preservar a imortalidade da nossa nação quase milenar e “relançar espiritualmente a nossa sociedade”, tal como afirmou Tolentino de Mendonça neste último 13 de Maio. 

Concluiu o nosso “cardeal-poeta”: “A Fátima, nós peregrinos, chegamos sempre de mãos vazias. Mas de Fátima levamos, acordado dentro de nós, um sonho. Fátima ensina, assim, como se ilumina um mundo que está às escuras. Seja o pequeno mundo do nosso coração, seja o coração do vasto mundo”. ■